terça-feira, 21 de setembro de 2010

As bolinhas de Coré



Coré, eterna adolescente. Por uma simples romã, de destino condenado. Romã, fruta de só 4 letras. Letras que, desorganizadas e recombinadas - ou, sendo mais simplista, lidas de trás pra frente - são amor.

Coré, de olhos fechados. Sentindo o calor do Sol em sua pele e o cheiro do verde. Vendo, de olhos fechados, a vermelhidão. Vermelho - Sol, vermelho - sangue, vermelho - amor.

Coré abre os olhos. Vê o vermelho ir desvanecendo, transformando, virando verde. Virando terra. A terra de sua mãe.

Coré sorri e sopra. Vê, no centro do aro, seu sopro tomar forma, virar coisa, virar ideia. Vê a bolinha pseudo-invisível. Disfarçando-se. Vê o mundo através da bolinha. Igual, mas diferente. Translúcido, talvez. O Sol bate na bolinha e faz com que tudo visto através dela tenha um arco-íris. Cada bolinha carrega dentro de si um pequeno arco-íris, uma pequena poesia.

Coré deslumbra-se com o arco-íris e lembra-se de histórias que povoaram a sua infância, que precederam sua infinita adolescência. Histórias que falam de um lugar depois do arco-íris. Nunca entrar na vida adulta faz com que ela não perca nunca a capacidade de se deslumbrar. E de sonhar.

Coré deslumbrada, acha que a bolinha pode levá-la a um mundo mágico e a segue. E sorri. E corre como o vento e os sorrisos tornam-se risadas. E pula e corre e gira e abaixa e levanta e corre mais e as risadas tornam-se gargalhadas.

Coré, transbordando de alegria, vê a bolinha descer. E sumir. Tocar o chão e desaparecer. Um chão que não é a terra de sua mãe. Um chão que é o reino de seu marido. Um chão que é o inferno. E Coré deixa de ser Coré. Torna-se Perséfone.

Perséfone assume seu trono. Tem alguns meses pela frente, meses para pensar. Meses para racionalizar seu deslumbramento dos outros meses, anteriores. Meses para segurar Coré dentro dela, quietinha. Meses em que Perséfone não sorri mas, toda noite, dormindo, deixa que Coré corra atrás de bolinhas em seus sonhos. A risada de Coré é o som que mantém Perséfone sã nesses meses.

Perséfone, em seu trono, pensa. E lembra de alguém que um dia lhe ensinou que, às vezes, a gente pensa que está dizendo bobagem, mas está fazendo poesia. Seu nome era Mário, um velhinho simpático. Ela só não se lembra se ele disse isso a ela ou a Coré, o que também não importa. De uma certa forma, elas estão sempre juntas: Perséfone é a sombra de Coré na terra, Coré é a bolinha que mantém Perséfone viva no inferno.

Um comentário:

Rufus disse...

Tocante.

Que bom se pudesse ser Coré pra sempre, correndo atrás das bolinhas de sabão. Que bom poder ser Perséfone sem deixar de ser Coré. A verdadeira morte, e a mais triste de todas, é tirar as bolinhas de Coré.