domingo, 24 de junho de 2012

Matemágica


Abrir o caderno
Sentir-se infeliz
Elevar-se ao quadrado
Tirar sua própria raiz

Nos momentos difíceis
Multiplicar-se por mil
Dividir entre o povo
A soma da riqueza do Brasil

Sentir-se feliz
Ao perceber que não se é uma dízima
Que podemos sempre mudar
Mesmo que a mudança seja mínima

Ah, se a vida fosse uma parábola...
Mas é tão difícil quanto a inequação
E, reais, vazias ou impossíveis,
O bom seria encontrar a solução

Mas a vida realmente é um gráfico
Onde sou x a procura de y.
Quando as retas se encontrarem,
O futuro será tão bom...

(minha singela homenagem ao lourenço, que, quando eu disse que não sabia NADA de matemática - enfatizando muito o nada - me disse que a única solução pra mim era ir até a biblioteca e pegar um livro do fernando pessoa... e, além de tudo, nunca me deu menos que 8 em geometria...)

sábado, 23 de junho de 2012

SOUBE QUE VOCÊS NADA QUEREM APRENDER


Soube que vocês nada querem aprender 
Então devo concluir que são milionários. 
Seu futuro está garantido — à sua frente 
Iluminado. Seus pais 
Cuidaram para que seus pés 
Não topassem com nenhuma pedra. Neste caso 
Você nada precisa aprender. Assim como é 
Pode ficar.
Havendo ainda dificuldades, pois os tempos
Como ouvi dizer, são incertos 
Você tem seus líderes, que lhe dizem exatamente 
O que tem a fazer, para que vocês estejam bem. 
Eles leram aqueles que sabem 
As verdades válidas para todos os tempos 
E as receitas que sempre funcionam. 
Onde há tantos a seu favor 
Você não precisa levantar um dedo. 
Sem dúvida, se fosse diferente 
Você teria que aprender.


(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986. p. 91.)

terça-feira, 19 de junho de 2012

Eu li num livro 19


Livro: Em Busca de um Teatro Pobre


Autor: Grotowski


Doses de sabedoria:
* Não se trata de instruir um aluno, mas de se abrir completamente para outra pessoa, na qual é possível o fenômeno do "nascimento duplo e partilhado". O ator renasce - não somente como ator mas como homem - e, com ele, renasço eu. É uma maneira estranha de se dizer, mas o que se verifica, realmente, é a total aceitação de um ser humano por outro.
* Tudo está concentrado no amadurecimento do ator, que é expresso por uma tensão levada ao extremo, por um completo despojamento, pelo desnudamento do que há de mais íntimo - tudo isto sem o menor traço de egoísmo ou de auto-satisfação. O ator faz uma total doação de si mesmo.
* Por que sacrificamos tanta energia à nossa arte? Não é para ensinar aos outros, mas para aprender com eles o que nossa existência, nosso organismo, nossa experiência pessoal e ainda não treinada tem para nos ensinar; para aprender a romper os limites que nos aprisionam e a libertar-nos das cadeias que nos puxam para trás, das mentiras sobre nós mesmos, que manufaturamos cotidianamente, para nós e para os outros; para as limitações causadas pela nossa ignorância e falta de coragem; em resumo, para encher o vazio em nós; para nos realizarmos. A arte não é um estado da alma (no sentido de algum momento extraordinário e imprevisível de inspiração), nem um estado do homem (no sentido de uma profissão ou função social). A arte é um amadurecimento, uma evolução, uma ascensão que nos torna capazes de emergir da escuridão para uma luz fantástica.
* [O ator] deve ter coragem, mas não apenas a coragem de exibir-se - uma coragem passiva, poderíamos dizer: a coragem de um desarmado, a coragem de revelar-se.
* Existe apenas um elemento que o cinema e a televisão não podem tirar do teatro: a proximidade do organismo vivo. Por causa disto, toda modificação do ator, cada um dos seus gestos mágicos (incapazes de serem reproduzidos pela plateia) torna-se qualquer coisa de muito grande, algo de extraordinário, algo próximo do êxtase.
* No entanto, o teatro, e em particular a técnica do ator, não pode - como Stanislavski afirmou - basear-se apenas na inspiração ou em outros fatores imprevisíveis, como uma explosão de talento ou o súbito e surpreendente desenvolvimento de possibilidades criativas, etc. Por que? Porque, ao contrário das outras matérias artísticas, a criação do ator é imperativa, isto é, situa-se dentro de um determinado período de tempo e até de um momento preciso.O ator não pode esperar por uma irrupção de talento ou por um momento de inspiração.
* Interesso-me pelo ator porque ele é um ser humano. Isto envolve dois pontos principais: primeiro, o meu encontro com outra pessoa, o contato, o sentimento mútuo de compreensão, e a impressão criada pelo fato de que nos abrimos para um outro ser, que tentamos compreendê-lo; em suma, uma superação da nossa solidão. Em segundo, a tentativa de entender a nós mesmos através do comportamento de outro homem, de encontrar-se nele.
* Não monto uma peça para ensinar aos outros o que já sei. Só depois da montagem ficar pronta, e não antes, é que terei aprendido mais. Todo método que não se abre no sentido do desconhecido é um mau método.
* A terra nos amarra. Quando saltamos para o ar, ela nos espera.
* Todo o nosso corpo deve se adaptar a cada movimento, por menor que seja o movimento.Todo o mundo deve seguir seu próprio caminho. Nenhum exercício estereotipado deve ser imposto. Se pegamos uma pedra de gelo no chão, todo o corpo deve reagir a este movimento e ao frio. Não só as pontas dos dedos, nem somente a mão, mas todo o corpo deve revelar a frieza deste pequeno pedaço de gelo.
* Há muitos atores que, durante os ensaios, gostam de travar discussões científicas e sofisticadas sobre arte, e assim por diante. Esses atores tentam, agtravés destas discussões, esconder sua falta de empenho e sua falta de um mínimo de aplicação. Se você se entrega totalmente num ensaio, não tem tempo para discutir.
* Um dos grandes perigos que ameaçam o ator é, sem dúvida, a falta de disciplina, o caos. Não podemos expressar-nos através da anarquia. Creio que não pode existir um verdadeiro processo criativo no ator se lhe faltam disciplina e espontaneidade.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

presente do astronauta


Dorothy na estrada

parou, viu tijolo
faltando; pulou, seguiu:
estava encantada. 

(presente que ganhei do astronauta)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

R-E-S-P-E-C-T 2




Sete dias se passaram desde a última posição que tivemos sobre meu post anterior. Sete dias que poderiam parecer pouco, diante de sete anos de dor e saudade, mas que são uma eternidade. Ou sete eternidades, se existe algo assim.


Há sete dias, o que tínhamos era: o caixão da minha irmã continuava no mesmo lugar de sempre - mesmo com várias pessoas que trabalham no cemitério e na administração dos cemitérios da cidade afirmando o contrário, mesmo com documentação afirmando o contrário - , mas haviam colocado outro caixão em cima, há cerca de 2 meses. O tal procedimento que pro cara que manda nos cemitérios da cidade é normal, pra minha família toda e pras pessoas todas que conhecemos é surreal, pra mim é um absurdo e a gente pode chamar de "puxadinho de túmulo".  Algo que parece saído de um livro do Garcia Marquez, mas está acontecendo DE VERDADE numa cidade do interior paulista. 


A solução? Já tínhamos! Ou melhor, a administração do cemitério já tinha. Iam tirar o caixão da minha irmã pela lateral. Uma gambiarra no puxadinho! Genial, só que ao contrário. Aposto que quem leu pensou a mesma coisa que todos nós pensamos: mas o caixão de cima não vai desabar com tudo? Só que, óbvio, isso não era problema pra administração do cemitério. Ninguém da administração do cemitério  é da família do morto do caixão de cima, então, ninguém estava se importando com a possibilidade do caixão dele desabar. Tenho, aliás, algumas hipóteses em relação à galera da administração do cemitério...  1. Eles não têm família; são todos órfãos abandonados ao nascer e que cresceram sem amor, atenção e afeto e, por isso, não entendem nada sobre o processo de luto de uma família (o que não os qualificaria como as pessoas mais indicadas pra trabalhar nessa área, não?); 2. Eles e todos os familiares deles são imortais, então, não aprenderam a lidar com a morte (e, de novo, esse é o tipo de gente certa pra cuidar de cemitérios?) e 3. Eles são todos da família da Marlene e não têm coração, como ela (e, aqui, não vou repetir a pergunta, pois já concluímos que seja lá quem está administrando o cemitério, não deveria estar fazendo isso).


Então, passaram-se sete dias em que NINGUÉM - repito: NINGUÉM - entrou em contato conosco, para nos posicionar. A única coisa que sabíamos era que a família do vizinho - a tal lateral por onde eles tirariam o caixão - havia pedido 10 dias para fazer a exumação e, assim, liberar o espaço pra que o procedimento escolhido fosse adotado. Mas a gente podia ficar tranquilo, pois eles estavam pressionando a família pra exumar logo, pra gente não esperar 10 dias. Como, galerinha do cemitério, como a gente pode ficar tranquilo sabendo que, na tentativa de amenizar nossa dor, vocês estão causando tamanha dor à família do vizinho? Tudo que estamos fazendo, agora, é no intuito de que nenhuma outra família passe pelo que estamos passando e é justamente o que vocês fazem?


Aí, cansada de esperar, a Sra. Melhor Mãe do Mundo (que é a minha mãe, no caso) entrou em contato com eles. Pra ouvir que eles entraram em contato com engenheiros da Prefeitura que, após análise, concluíram exatamente o que a gente falou logo no início: o caixão de cima ia desabar e a família do morto de cima não ia gostar disso. Então, após conversar com o Jurídico, eles tinham duas opções maravilhosas - só que não - para nos oferecer: pedir judicialmente que a família de cima - enlutada há dois meses, ressalto - autorize a retirada do caixão de cima -sendo que essa solicitação estaria em nome da minha mãe e, a partir daí, ela se tornaria a responsável total e teria que responder judicialmente caso a outra família reclamasse, enquanto a Prefeitura se isentava por completo - ou aguardar 3 anos pra que o morto que supostamente está em cima seja exumado. E o que eu me pergunto é que espécie de idiota eles acham que a gente é pra imaginar que a gente ia ficar super satisfeito com essa resolução. 


Erro em cima de erro em cima de erro em cima de erro...


O que eles devem imaginar, já que não têm coração e vivem de procedimentos,  é "Ah, o que são três anos pra quem já está lidando com essa dor há sete?". Quem, tendo um coração, conseguiria viver três anos carregando essa dúvida? E quem vai conseguir dormir tranquilo sabendo que outra família vai ter que lidar com essa dor?


O que eles querem é que a gente aguarde 3 anos. Por um motivo bem simples. A "responsabilidade" é da Prefeitura. Em 3 anos, teremos outro Prefeito e uma equipe inteira nova. Ou seja, quem tá aqui agora, quem errou agora, vai se isentar da responsabilidade sobre o caso. E, aliás, estamos em um ano político e ninguém quer nenhum bafafá em torno disso agora, podendo prejudicar quem quer o poder, podendo interferir na opinião pública. 


Só que eu tenho um coração e ele é como o do Saramago: de carne e sangra todos os dias. Por isso, não aguento os três anos. Por isso, não tô ligando a mínima pro ano político (aliás, eu anulo meu voto todo ano mesmo, esperando que, um dia, o que Saramago descreve em "Ensaio sobre a Lucidez" se torne a realidade). Por isso, eu não quero que ninguém mais precise passar pelo que estamos passando e, pra isso, não me importo em prejudicar quem quer o poder e nem em interferir na opinião pública. Por isso, quero o bafafá. Quero mais é que saibam, que comentem. Por isso, exponho aqui, novamente, o que está acontecendo e, mais uma vez, peço que leiam e, se seus corações forem também de carne, compartilhem.