terça-feira, 19 de junho de 2012

Eu li num livro 19


Livro: Em Busca de um Teatro Pobre


Autor: Grotowski


Doses de sabedoria:
* Não se trata de instruir um aluno, mas de se abrir completamente para outra pessoa, na qual é possível o fenômeno do "nascimento duplo e partilhado". O ator renasce - não somente como ator mas como homem - e, com ele, renasço eu. É uma maneira estranha de se dizer, mas o que se verifica, realmente, é a total aceitação de um ser humano por outro.
* Tudo está concentrado no amadurecimento do ator, que é expresso por uma tensão levada ao extremo, por um completo despojamento, pelo desnudamento do que há de mais íntimo - tudo isto sem o menor traço de egoísmo ou de auto-satisfação. O ator faz uma total doação de si mesmo.
* Por que sacrificamos tanta energia à nossa arte? Não é para ensinar aos outros, mas para aprender com eles o que nossa existência, nosso organismo, nossa experiência pessoal e ainda não treinada tem para nos ensinar; para aprender a romper os limites que nos aprisionam e a libertar-nos das cadeias que nos puxam para trás, das mentiras sobre nós mesmos, que manufaturamos cotidianamente, para nós e para os outros; para as limitações causadas pela nossa ignorância e falta de coragem; em resumo, para encher o vazio em nós; para nos realizarmos. A arte não é um estado da alma (no sentido de algum momento extraordinário e imprevisível de inspiração), nem um estado do homem (no sentido de uma profissão ou função social). A arte é um amadurecimento, uma evolução, uma ascensão que nos torna capazes de emergir da escuridão para uma luz fantástica.
* [O ator] deve ter coragem, mas não apenas a coragem de exibir-se - uma coragem passiva, poderíamos dizer: a coragem de um desarmado, a coragem de revelar-se.
* Existe apenas um elemento que o cinema e a televisão não podem tirar do teatro: a proximidade do organismo vivo. Por causa disto, toda modificação do ator, cada um dos seus gestos mágicos (incapazes de serem reproduzidos pela plateia) torna-se qualquer coisa de muito grande, algo de extraordinário, algo próximo do êxtase.
* No entanto, o teatro, e em particular a técnica do ator, não pode - como Stanislavski afirmou - basear-se apenas na inspiração ou em outros fatores imprevisíveis, como uma explosão de talento ou o súbito e surpreendente desenvolvimento de possibilidades criativas, etc. Por que? Porque, ao contrário das outras matérias artísticas, a criação do ator é imperativa, isto é, situa-se dentro de um determinado período de tempo e até de um momento preciso.O ator não pode esperar por uma irrupção de talento ou por um momento de inspiração.
* Interesso-me pelo ator porque ele é um ser humano. Isto envolve dois pontos principais: primeiro, o meu encontro com outra pessoa, o contato, o sentimento mútuo de compreensão, e a impressão criada pelo fato de que nos abrimos para um outro ser, que tentamos compreendê-lo; em suma, uma superação da nossa solidão. Em segundo, a tentativa de entender a nós mesmos através do comportamento de outro homem, de encontrar-se nele.
* Não monto uma peça para ensinar aos outros o que já sei. Só depois da montagem ficar pronta, e não antes, é que terei aprendido mais. Todo método que não se abre no sentido do desconhecido é um mau método.
* A terra nos amarra. Quando saltamos para o ar, ela nos espera.
* Todo o nosso corpo deve se adaptar a cada movimento, por menor que seja o movimento.Todo o mundo deve seguir seu próprio caminho. Nenhum exercício estereotipado deve ser imposto. Se pegamos uma pedra de gelo no chão, todo o corpo deve reagir a este movimento e ao frio. Não só as pontas dos dedos, nem somente a mão, mas todo o corpo deve revelar a frieza deste pequeno pedaço de gelo.
* Há muitos atores que, durante os ensaios, gostam de travar discussões científicas e sofisticadas sobre arte, e assim por diante. Esses atores tentam, agtravés destas discussões, esconder sua falta de empenho e sua falta de um mínimo de aplicação. Se você se entrega totalmente num ensaio, não tem tempo para discutir.
* Um dos grandes perigos que ameaçam o ator é, sem dúvida, a falta de disciplina, o caos. Não podemos expressar-nos através da anarquia. Creio que não pode existir um verdadeiro processo criativo no ator se lhe faltam disciplina e espontaneidade.

Um comentário:

Rufus Gabriel disse...

Que lucidez sobre o teatro! Maravilhoso! Bjo.