quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Uma nova esperança na Amazônia




Caraíba navegava em uma canoa por um rio da Floresta Amazônica. O dia estava quente e os animais vinham matar a sede nas águas do rio. Tudo parecia estar em harmonia, as altas e frondosas árvores, os pássaros coloridos que cantavam e voavam por toda parte, as onças caminhando sonolentamente, os peixes que nadavam na água límpida do rio.

Isso tudo distraíra Caraíba, que não percebeu dezenas de toras de madeira vindo em sua direção até quase ser tarde demais. "Preciso manobrar rápido até a barranca, antes que essas toras me atropelem!". Quando já estava em segurança, tentou imaginar de onde elas teriam vindo.Parecia óbvio que eram produto de um desmatamento clandestino ali por perto. Tinha que fazer algo para impedí-los de continuar aquela destruição toda. "Mas antes preciso matar uma caça para comer e repor as minhas energias", pensou.

Viu um grupo de cotias alguns metros à frente e decidiu que aquele seria o seu almoço. Pegou sua lança mágica, que nunca falhava. Ela havia sido um presente de seu avô, Curupira. Fez a mira e atirou a lança que foi direto ao alvo. Minutos depois, já tinha uma cotia assando no espeto.

Foi quando, repentinamente, uma figura estranha saltou de trás de uma árvore surpreendendo-o. "Oi, meu neto!", gritou o Curupira. Caraíba, que já havia pegado seu facão, para o caso de precisar se defender, relaxou e cumprimentou seu avô: "Como vai essa bizarria? Quer um pouco de assado?". O Curupira explicou então que estava ali por causa dos homens que estavam cortando as árvores da floresta."Isso é um crime!", desabafou o Curupira, "E o pior é que não podemos estar em todos os lugares para impedir essa loucura."

Caraíba pediu a seu avô que se acalmasse, pois assim que acabasse seu assado, iria acabar com aquela história. O Curupira ainda o aconselhou a ter muito cuidado, pois os inimigos da floresta eram impiedosos e brutais. Além disso, usavam um serrote muito poderoso e barulhento, que cortava até ferro e, com certeza, era coisa do diabo. Mas não seria uma moto-serra qualquer que impediria Caraíba de proteger a floresta. Assim sendo, ele foi até o local onde o desmatamento estava acontecendo para tentar falar com os homens que faziam aquilo.

"Parem com isso! Parem!", Caraíba entrou na lareira gritando. Os homens pararam o que estavam fazendo pra ver quem era aquele doido. Alguns acharam engraçado e riram, outros ficaram impacientes, queriam acabar logo o trabalho e voltar para casa. A maioria nem prestou muita atenção e continuou com o trabalho.

Caraíba começou seu discurso. Eles estavam violando a natureza, arrasando a floresta e provocando um total e irreversível desequilíbrio ambiental. Os homens, pouco a pouco, foram perdendo a paciência. Quando Caraíba terminou de falar, eles o mandaram embora, pois tinham um prazo a cumprir. Mas ele não queria nem saber; não deixaria que eles continuassem com o desmatamento.

Foi aí que os homens resolveram usar suas moto-serras para cortar um pedaço de carne, para variar. Caraíba se viu então rodeado por dezenas de homens com serras e tentou pensar no que fazer.

Nesse momento, quando os madeireiros resolveram atacá-lo, que seus olhos vislumbraram um objeto brilhando no meio da mata. Era, aliás, um objeto enorme, que se encontrava camuflado. E foi com grande surpresa que ele viu uma porta se abrir e, logo após, uma figura negra descer as escadas. "Deus, é uma nave espacial!", pensou, "Em plena Floresta Amazônica.".

A figura desceu e se aproximou, e então ele percebeu que o ser vestido de preto, com uma capa esvoaçante e um capacete de metal era o maior vilão que ele poderia imaginar: Darth Vader, o maior e mais maligno lorde Sith. "Droga, se só com esses otários eu já tava ferrado, imagina com esse cara! Ele tem a Força nele e eu sou um reles mortal!".

Já pensava seriamente em fugir, quando percebeu uma certa algazarra no mato e viu pequenas criaturinhas se aproximando. Aqueles bichinhos peludos, aquelas carinhas de bondade, as roupinhas esfarrapadas; eles eram realmente iguais nos filmes e desenhos animados. Só podiam ser os Ewoks e deviam ter vindo ajudá-lo! Mas nem isso o animou... "São meros bichinhos de pelúcia... não irão ajudar muito...".

Então, o Curupira apareceu e uma tranquilidade enorme se apossou dele. "Vovô tem uma solução, tenho certeza!". Entretanto, seus olhos mal puderam acreditar no que viam: seu avozinho querido retirava uma máscara e, por baixo de todo o plástico, os traços revelavam uma face macabra: o Mestre dos Magos. "Olá, netinho! Feliz com a minha presença?", ele disse e riu estrondosamente. "Ou estará decepcionado?".

Quando sentia o fim chegando, junto com toda a desilusão que agora experimentava, percebeu que seu avozinho estava novamente chegando ao local, numa espécie de dèja vu. Entretanto, o Mestre dos Magos continuava ali. "O que está acontecendo agora?", pensou. E esse novo Curupira também retirava a espécie de fantasia que ele conhecera como realidade. Só que este revelava uma pequena cabeça verde e grandes orelhas. Era um mestre também, mas o Mestre Yoda. E Yoda disse: "Não confie nele, eu seu verdadeiro avô sou!".

As duas criaturinhas começaram a travar um duelo verbal, tentando provar quem seria o verdadeiro Curupira; até que Yoda disse: "Você sabe que você é bom, meu neto, que você tem a Força em sua alma! Você não pode ter sido ensinado por este ente maligno! Eu seu mestre verdadeiro sou."

"Acredite no que ele diz...", disse uma voz vinda das enormes e frondosas árvores tropicais, "Meu nome é Drik Skywalker e também fui treinada por ele! Confie em nós e lute ao nosso lado! Por favor...". Era o que dizia uma jovem morena e de pele alva, com traços semelhantes aos de todo o clã Skywalker.

As palavras da jovem foram suficientes para convencê-lo e, exatamente nessa hora, Darth Vader e seu exército resolveram atacar. A luta foi terrível. A todo momento viam-se corpos caindo ao chão e o sangue jorrava de feridas recentemente abertas. Muitas madeireiras e Ewoks perderam a vida na impressionante batalha que se desenrolava sobre o solo úmido da Amazônia. Alguns animais, principalmente onças e macacos, observavam a cena por alguns minutos, e logo depois fugiam assustados. A guerra só terminou quando o corpo do Mestre dos Magos jazia inerte e o próprio Vader tinha sido decapitado pelas mãos de um Ewok.

Yoda disse: "Já não tenho mais idade para lutar assim... Preciso descansar um pouco. Ou muito!" e se retirou. Caraíba viu que, na mesma hora, os Ewoks desapareceram na selva. Então, Drik se aproximou e disse: "Muito obrigada! Você nos livrou de um mal terrível. Com a morte do Mestre dos Magos, meus amigos podem voltar pra casa. E agora que Darth não vai mais me atrapalhar, posso voltar para meu império e para os braços do meu noivo. Sabe, ele tem os mais belos cabelos vermelhos de todo o Sistema Solar... Bozo é o nome dele!". Dizendo isso, a jovem sorriu encabulada e entrou na antiga nave de Vader, voltando, assim, para sua vida em seu planeta.

Olhando ao redor, viu apenas o mato e um pássaro que o observava, curioso. "Não se preocupe, amigo.", disse para a ave, "Nem eu entendi ao certo o que aconteceu aqui. Há poucos minutos vi criaturas fantásticas aqui, corpos sem vida... E agora, bem, tudo parece normal... Por isso que eu sempre digo que acontece muito mais coisa nessa floresta do que a gente imagina...". Sorriu, sentindo os raios de Sol que atravessavam as copas das árvores batendo em seu rosto. E, nesse minuto, percebeu que aquele era seu lar.

(Era junho de 2001 e a professora de redação entregou uma folha com uns desenhos pra cada dupla do 1º semestre do curso de Jornalismo do Mackenzie. Um cara numa floresta, o Curupira dizendo "Olá, netinho!" pra ele. A partir disso, cada dupla teria que criar uma história surreal, viajando muito. As alunas portadoras dos TIAs 3014105-2 e 3014994-0 fizeram esse texto. E, com isso, eu e a Adriana tiramos 10. Não posso falar por ela mas, com isso também, eu percebi que não tinha mesmo nascido pra jornalismo... rs)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

carta aberta a um velhote trambiqueiro



Caro Mágico de Oz,

Estou te escrevendo pois creio que ficamos em uma situação estranha e complicada. Sei de minhas falhas e sei da impossibilidade de consertá-las; mas - embora eu saiba que você não gosta de justificativas - preciso justificá-las.

Antes de tudo, entenda: todos esses anos indo e vindo na estrada de tijolos amarelos não mudaram - e provavelmente não mudarão - o que eu sou; uma menina sonhadora e confusa, carregando um tornado dentro de mim e de joelhos ralados pelas muitas quedas nessa jornada (tijolos amarelos e sapatos de rubi definitivamente não combinam; mas sou também muito teimosa e insisto em seguir, mesmo sabendo que certamente não voltarei mais ao Kansas... esperançosa. É outra coisa que sou.)

E tudo que vivi aqui em Oz também não mudou meu jeito de reagir às coisas. Sou impulsiva, não tenho paciência. Quando me decepciono, não sei lidar com isso, me torno agressiva. Sou incapaz de racionalizar (talvez eu também não tenha cérebro, como o Espantalho). Sou toda sentimento, emoção e paixão. E entrega. Me entrego a esses sentimentos sem pensar. Toda coração... E uso a estupidez para me proteger, para criar a ilusão de que não vou me machucar (quando, às vezes, até já me machuquei).

No final, tudo que eu precisava mesmo te dizer é só que está sendo muito difícil pra mim. Desde que aquela cortina se abriu, meu mundo desabou. O grande e poderoso Oz, meu mestre, meu guia, meu ídolo, o sábio, o gênio, o capitão... reduzido a um velhinho. Humano. Falhando... e me enganando. Eu não sei como lidar com isso. Mesmo.

Eu só posso esperar que isso tudo seja, na verdade, um grande... um enorme truque seu e que meus olhos (verdes como a sua Cidade de Esmeraldas) possam voltar a te ver, um dia, grande e poderoso. Pois foi assim que sempre te vi e é assim que quero continuar te vendo.

Dorothy Gale

sábado, 18 de fevereiro de 2012

super cult.

- virei transex!
- ah, eu sabia, sua cara.
- é, porque este não é o meu corpo. é um corpo-prótese, um corpo-silicone-moldável, um eu-plástico. não é o meu corpo.
- super cult. adoro tudo que é cult. só que ao contrário.
- cult é a linguagem!
- eu diria que é transcendental. isso ainda vai revolucionar o teatro nacional. e nós vamos fazer essa revolução. nós, que representamos tudo que é moderno. nós, que quebramos paradigmas. nós, que bebemos vinho na praça roosevelt, pq isso é fazer teatro. quase um boal.
- tomamos vinho e próprio sangue, pro teatro-rito, pro teatro-profano.
- pq nosso sangue não é nosso, não nos pertence. é de deus-baco, deus-shiva, deus-zé-celso, deus morto fêmea língua gelada como nada. gott ist tot, já disse nietzsche, assim falou zaratustra.
- hahahhahahahahaha... eu rio muito com você! hahahahah
- tá me chamando de palhaça só pq eu sou cult?
- desculpa. o riso é um ato involuntário, invólucro, insípido e unanimariam em ser que vive em sociedade com o outro e o terceiro. o eu-você, o você-eu. me desculpe por tamanha arrogância em frente a um eu-teatro e um eu-metamorfose-de-mim.
- o eu-risível entrou em confronto, em sua magnitude,com o eu-eu que rompia a aurora. despertando em toda a concretude do ser para um novo eu-dia, não consegui compreender a amplitude do você-palavras. peço perdão. um eu-perdão, um você perdão, o perdão de deus, do deus menino, do deus das eras, do babalorixá do perdão, varinha de condão, eu-fada. namastê, evoé, tindolelê!
- to morrendo de rir, sério.

(pq cult q é cult é cult até por sms. e pq a gente é cult. só que ao contrário.)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Eu li num livro 16

Livro: Spiros Stragos
Autor: Sérgio Jockyman
Doses de sabedoria:
* Porque já não existem mais
seres feitos de barro,
mas apenas homens e mulheres feitos de carne.
E a carne tem passado e tem presente,
e tem misérias e tem grandezas
e quando alcança o amor,
já foi mil vezes violada.
E é querer assim a carne ferida
que engrandece os homens
e que engrandece o amor.
E quem a deseja perfeita e imaculada,
não a deseja nem humana nem real
mas apenas distante e imaginada.