quarta-feira, 5 de março de 2014

deus e a folia



último dia de folia. 
cansaço.
longa jornada noite adentro pra levar as pessoas.
rápido cochilo no carro.
pirulito de framboesa.
uma mistura que não é do brasil com o egito: de alegria e angústia.
aí a menina conceitual precisava desesperadamente de um banheiro.
e voltamos ao centro da folia. um boteco.
enquanto dri e katy bagunceira estavam na fila do banheiro, sento num banco, no balcão.
o dono do bar, um velhinho que me lembrou seu humberto, reclamando. reclamando com todos. ia fechar. tinha que fechar.
me pergunta: - vc vai ao banheiro também?
péssimo humor.
sorrio e digo que não, que estou só esperando.
ele reclama comigo também. vai fechar. precisa fechar. pq a prefeitura... ele tá só trabalhando, mas, nesse país, a gente nem pode trabalhar. péssimo humor.
ouço, concordo com a cabeça. sorrio.
pq esses caras todos na rua, ilegais, ninguém fiscaliza. mas ele, ali, caem em cima. humor ruim.
concordo. aceito o desabafo. sorrio.
ele suspira. como se tivesse se dado conta de que sua reclamação toda não vai levar a nada. e vai arrumar seu bar, seu reino, pra ir embora. ele e suas reclamações, seu péssimo humor.
adriana volta, senta ao meu lado. pego meu celular na bolsa dela. 
aí a angústia aumenta.
vontade de reclamar, que nem o velhinho.
vontade de reclamar com o cara lá de cima. 
pq a gente tinha um trato. se fosse assim, seria assim. se fosse assado, seria assado. os sinais dele, pautando meus rumos, minhas decisões.
e não foi assim, nem assado. talvez mais próximo do assado, se eu analisasse bem. mas.... sério? como pode ser mais próximo do assado, com todo esse cenário? olha, eu acho que vc errou no sinal. e você é deus, vc não deveria falhar.
suspiro. guardo o celular. torço a boca pro lado direito. sempre o meu eterno código da boca torcida. meu sinal de "tornado interno".
e, então, o velhinho surge na minha frente. com a mão fechada. abre, um bubaloo e um chiclete de caixinha. 
"pra você"
dois chicletes rosas. para uma rosa abandonada no b612.
"obrigada". sorriso diante do inesperado.
katy bagunceira volta, preguiça de levantar, overdose de folia.
e o velhinho já tá lá fora, fechando as portas. achamos que era melhor ir.
na porta, ele esperava nossa saída. 
um tchau pra dri.
katy deu tapinhas no ombro dele.
quando eu fui passar, ele sorriu. sem sinal do péssimo humor. sorri também e agradeci.
estendi a mão. ele apertou. e me puxou pra um abraço. abraço de vô. 
#bff de repente. blanche dubois, dependendo de estranhos.
a angústia ficou mais leve. essas formas que ele encontra de falar comigo, colocando essas aparições no meu caminho.
mas ainda não entendo seus sinais. 
e gostaria de entendê-los.