segunda-feira, 22 de junho de 2015

Fátima, a fiandeira

Em uma ilha perto de Creta vivia Fátima e seu pai um grande fiandeiro que trabalhava para o rei da Grécia. Eles eram muito felizes e tinham um padrão de vida muito bom .

Um dia o pai de Fátima recebeu um chamado do rei para irem até Creta a fim de executarem alguns serviços para ele. Então o grande fiandeiro disse "Fátima nosso patrão nos aguarda em Creta preparasse para viajarmos e encontra-lo".


O barco então parte da ilha e os dois vão de encontro ao rei. Mas o mar é traiçoeiro e uma grande tempestade atinge a embarcação e Fátima fica naufraga indo parar em Alexandria e seu pai vem a falecer.


Fátima então pensa "O que farei agora meu pai esta morto e eu naufraga aqui nesta terra desconhecida".


Mas a sorte sorri para Fátima e ela é encontrada por um casal de tecelões que a adotam como filha. Então podemos dizer que Fátima mas uma vez encontra a felicidade, agora aprendendo o ofício de tecelã e com seus novos pais.


Fátima, então recebe mas uma virada em sua vida. Ela passeava alegremente quando bárbaros , invadem sua aldeia e a seqüestram-na vindo ela a ser levada para o mercado de escravos em Istambul.


O mercado de escravos era um lugar sujo mas com muitas tendas e pessoas. Havia então um grande e próspero serralheiro que construía mastro para navios e viu Fátima sendo vendida como escrava e sentiu grande pena dela.


E pensou "Essa menina não me parece uma escrava; vou comprá-la e faze-la de criada para minha esposa". E assim o fez.


Mas chegando na ilha de Java onde morava o serralheiro descobriu que estava falido , pois um grande carregamento de seus mastros havia sido roubado. E então Fátima , o serralheiro e sua mullher começaram a trabalhar sozinhos para reconstruir sua fortuna; pois o serralheiro não tinha mais dinheiro e seus antigos empregados o abandonaram.


Fátima trabalhou com tanta vontade que seu patrão lhe devolveu a liberdade e ela se tornou seu braço direito. O serralheiro conseguiu se reerguer e Fátima estava de novo feliz e realizada.


Um dia o patrão pediu a Fátima "Você é meu braço direito leve um carregamento de nossos mastros até a Índia e negocie-os pelos melhores preços pois confio em você".


E ela carregou o navio e partiu para seu destino.


Mas o traiçoeiro mar mas uma vez usou seus poderes e numa enorme tempestade o navio naufragou
vindo Fátima vir parar na China.


Mas uma vez sem nada Fátima pensou: "Porque só comigo toda vez que estou feliz vem algo e destrói minha felicidade. " Mas sem desistir continua andando até chegar numa aldeia chinesa.


Mas acontece que na China havia uma profecia que chegaria uma mulher estrangeira que construiria uma grande tenda para o imperador.


Chegando a aldeia uma aldeã diz para Fátima marcar uma audiência com o imperador e assim ela o faz.
Chegando o dia o imperador pergunta:"você pode me construir uma tenda."


E Fátima diz que podia. E então começa a tarefa.


Mas para construir a tenda ela precisava de uma corda hiper-resistente, mas não havia este tipo de corda na China. E então relembrando o tempo que vivia com seu pai , o grande fiandeiro ela recolhe o material necessário e ela mesma fia a corda.


Para se construir a tenda ela precisava de um tecido muito resistente.Mas naquela época não existia tal tecido na China. Então relembrando o tempo que viveu com o casal de artesões recolheu o material necessário e ela mesma teceu o tecido de grande resistência.


A tenda precisaria de mastros para poder ser levantada. Mas nesse tempo não existiam mastros resistentes na China. Ela relembrou que sabia fazer tal mastros pois havia trabalhado com um grande serralheiro; e assim ela mesma os construiu.


Mas qual o formato da tenda. E então ela relembrou do formato das grandes tendas do mercado de escravos e assim ela por fim ergueu uma grande e imponente tenda para o imperador .


O imperador muito agradecido por ela ter cumprido a profecia perguntou-lhe o que queria; e esta respondeu que apenas queria viver na China.


Então ela encontrou um grande príncipe e casou-se com ele vindo então a encontrar a sua verdadeira e douradora felicidade.


Fátima então entendeu que todos os sofrimentos de sua vida lhe serviram para ela aprender e enfim levantar a grande tenda que era sua verdadeira felicidade.

terça-feira, 3 de junho de 2014

ano 7, seulyndo!




Anos leoninos são anos luminosos, Talita. Envolvem a percepção daquilo que lhe faz ser uma pessoa especial e diferente de todas as outras, reconhecendo seus talentos, seu brilho próprio, o que termina possibilitando de forma muito clara que você conquiste um lugar especial ao Sol. Nestes próximos doze meses, você desenvolverá muito mais consciência de si, procurando agir de forma criativa com o intuito de obter um senso de auto-realização e engrandecimento pessoal. Você estará irradiando sua personalidade com tamanho magnetismo e firmeza que as pessoas se sentirão atraídas por você. Há a possibilidade de atrair inveja, como efeito colateral, mas não se preocupe muito com isto - afinal de contas, as únicas pessoas que não são invejadas são as pessoas medíocres! 

Como Leão representa a criatividade, é esperado que você venha a conseguir tomar atitudes inusitadas e muito originais em seu campo de atuação, praticamente se destacando da média. Anos leoninos são anos em que a pessoa sai aplaudida, e mesmo que não deseje chamar atenção, termina chamando. Como Leão representa o princípio da vitalidade e do prazer, as situações de lazer são favoráveis, assim como as festas, os romances, as atividades sociais, em suma, toda e qualquer situação em que você possa exercer este brilho solar especial. 

Leão representa também, Talita, o resgate da criança interior. Quais as coisas que lhe divertem, que lhe dão prazer? Você descobrirá, este ano, que é possível viver a vida fazendo apenas as coisas de que gosta, divertindo-se até mesmo nas situações de obrigação. É como se tudo fosse motivo para festa, o que não representa - em absoluto - irresponsabilidade. Acontece apenas que você estará exercendo plenamente o seu direito de ser feliz. Cabe a você aceitar isso. Leão lhe convoca a abdicar de toda e qualquer situação de vítima, e a assumir as rédeas de comando de sua própria existência. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

deus e a folia



último dia de folia. 
cansaço.
longa jornada noite adentro pra levar as pessoas.
rápido cochilo no carro.
pirulito de framboesa.
uma mistura que não é do brasil com o egito: de alegria e angústia.
aí a menina conceitual precisava desesperadamente de um banheiro.
e voltamos ao centro da folia. um boteco.
enquanto dri e katy bagunceira estavam na fila do banheiro, sento num banco, no balcão.
o dono do bar, um velhinho que me lembrou seu humberto, reclamando. reclamando com todos. ia fechar. tinha que fechar.
me pergunta: - vc vai ao banheiro também?
péssimo humor.
sorrio e digo que não, que estou só esperando.
ele reclama comigo também. vai fechar. precisa fechar. pq a prefeitura... ele tá só trabalhando, mas, nesse país, a gente nem pode trabalhar. péssimo humor.
ouço, concordo com a cabeça. sorrio.
pq esses caras todos na rua, ilegais, ninguém fiscaliza. mas ele, ali, caem em cima. humor ruim.
concordo. aceito o desabafo. sorrio.
ele suspira. como se tivesse se dado conta de que sua reclamação toda não vai levar a nada. e vai arrumar seu bar, seu reino, pra ir embora. ele e suas reclamações, seu péssimo humor.
adriana volta, senta ao meu lado. pego meu celular na bolsa dela. 
aí a angústia aumenta.
vontade de reclamar, que nem o velhinho.
vontade de reclamar com o cara lá de cima. 
pq a gente tinha um trato. se fosse assim, seria assim. se fosse assado, seria assado. os sinais dele, pautando meus rumos, minhas decisões.
e não foi assim, nem assado. talvez mais próximo do assado, se eu analisasse bem. mas.... sério? como pode ser mais próximo do assado, com todo esse cenário? olha, eu acho que vc errou no sinal. e você é deus, vc não deveria falhar.
suspiro. guardo o celular. torço a boca pro lado direito. sempre o meu eterno código da boca torcida. meu sinal de "tornado interno".
e, então, o velhinho surge na minha frente. com a mão fechada. abre, um bubaloo e um chiclete de caixinha. 
"pra você"
dois chicletes rosas. para uma rosa abandonada no b612.
"obrigada". sorriso diante do inesperado.
katy bagunceira volta, preguiça de levantar, overdose de folia.
e o velhinho já tá lá fora, fechando as portas. achamos que era melhor ir.
na porta, ele esperava nossa saída. 
um tchau pra dri.
katy deu tapinhas no ombro dele.
quando eu fui passar, ele sorriu. sem sinal do péssimo humor. sorri também e agradeci.
estendi a mão. ele apertou. e me puxou pra um abraço. abraço de vô. 
#bff de repente. blanche dubois, dependendo de estranhos.
a angústia ficou mais leve. essas formas que ele encontra de falar comigo, colocando essas aparições no meu caminho.
mas ainda não entendo seus sinais. 
e gostaria de entendê-los.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

carta aberta de uma rosa



essa carta não é endereçada a ninguém. sem destinatário. ou talvez seja uma carta pra mim. ou talvez seja uma carta pra humanidade. (ou talvez seja uma carta - outra - pra única pessoa que eu conheço, nessa vida de rosa, plantada no b612).

olha, é 2014. as pessoas fazem resoluções quando o ano muda. promessas, decisões. as rosas também fazem. e a minha resolução é não pedir mais desculpas por ser quem eu sou. qual é a coerência disso? é como se eu tivesse 1,05m e você me pedisse pra pegar algo que está a 2,50m de altura e eu pedisse desculpas por não conseguir. você não pode pedir desculpas por ser anão, entende?  você nasceu assim, que culpa você tem pra precisar se des-culpar?

eu nasci uma rosa. e eu não posso deixar de sê-la. e nem pedir desculpas por isso.

analisando 2013, tenho a sensação de que passei o ano pedindo desculpas por ser quem sou. "desculpa, eu errei", "desculpa, eu não deveria ser assim", "desculpa, eu não devia ter agido assim", "desculpa, eu não devia ter pensado isso", "desculpa, eu não devia ter me sentido assim"... devia, sim! pois essas ações, pensamentos, sentimentos, são o que eu sou. eu invento, eu suponho e acredito, eu me sinto excluída, eu me sinto trocada, eu quero ser única...e eu nasci assim, inventando, supondo, sentindo, querendo. é tudo parte do pacote. parte de quem eu sou.

uma vez eu ouvi: "você é chata, mas você não tem que mudar, pq você já era assim quando eu te conheci e eu te amei mesmo assim." (então, pq você exige que eu mude, sempre, como condição pra que nossa amizade exista? pq você não aceita que eu seja como sou? pq você age como se não gostasse mais de quem eu sou?) eu não quero mais pedir desculpas por ser chata! por ser eu!

sabe, existem muitos que não me pedem (induzem?) mudanças. existem passarinhos e margaridas que aceitam a minha chatice e fazem com que eu me sinta única.

uma vez eu ouvi "quando a gente gosta de alguém, quer estar junto, faz de tudo pra ter um tempo junto". eu não vou pedir desculpas por querer estar junto de quem eu gosto. (e nem por entender que o "não fazer de tudo" implica em "não gostar")

sabe, eu sou única. eu sei que sou. e não vou pedir desculpas por querer ser tratada como tal, por exigir valor.

e não vou mais me esforçar pra mudar quem eu sou pra manter perto quem não se preocupa em ceder, em se aproximar da fronteira. quem diz "mas eu não me comporto assim pq não é importante pra mim". "pra mim". (é sempre sobre você, é sempre sobre eu pedindo desculpas por querer o que é importante pra mim e aceitando o que é importante pra você e deixando que isso paute nossa amizade. qual a coerência de você me dizer que eu tenho que fazer coisas por mim, quando é o primeiro a me impedir nisso?)

eu sou uma rosa. alguns gostam de rosas, alguns não. alguns deixam de gostar, com o tempo. nada disso muda quem eu sou. e eu não tenho que me desculpar por isso.

nós sempre teremos o b612...

rosa

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Você trabalha ou só faz teatro?


Véspera do primeiro dia de aula, dia de faxina. Achei que levaria meia hora. Depois de 2 horas e meia limpando, totalmente suja e suada, acabei. Lembrei que isso faz parte do pacote. Se você resolve alugar um espaço pra dar aulas de teatro, precisa mantê-lo limpo. E se você não tem verba pra pagar alguém pra limpar, precisa fazer você mesma. E, mesmo cansada, eu gostei de fazer justamente por fazer parte do pacote. Do pacote de "só" fazer teatro.

A coisa de "trabalhar ou só fazer teatro" virou piada. Motivo de zueira infinita. Fato: pessoas que não são de teatro não conseguem enxergar o quanto é trabalhoso fazer teatro. Surpreendentemente, a gente não sobe no palco e se diverte só. Só o trabalho mental que é decorar um texto e construir um personagem e o tempo que se investe nisso já invalidaria o "só".

Teatro, na maioria das vezes, se faz 24 horas por dia, 7 dias por semana. Primeiro, pq você nunca tá pronto. Tem sempre que estudar, que aprender, que agregar conhecimentos. Segundo, que teatro você não deixa no escritório às 18h e vai viver sua vida pessoal. (Muitas vezes você nem tem uma vida pessoal quando faz teatro.) Você sai do ensaio e ainda fica trabalhando mentalmente na peça, ou no que for.

Eu tenho certeza que minha mãe acha que eu passo horas e horas lendo ou no facebook. E ela não está errada nisso. O que ela não consegue entender é que isso é trabalho. É muito estudo, é muita pesquisa. Como eu vou escrever bem sem ler muito? E eu escrevo peças. Como eu vou construir personagens críveis sem a observação constante da humanidade? Como eu vou ser atriz sem estudar texto, sem pensar muito em possibilidades, sem ficar testando-as no meu quarto? Como eu vou dirigir sem pesquisar muito? E o pior: como ser produtora e tocar um grupo sem passar muito tempo na internet? Fazendo contatos, organizando, administrando, pesquisando, montando projetos, aprendendo, estudando dados para melhorar a página e a imagem do grupo, entendendo pessoas para lidar com elas? Como não pesquisar e estudar, sendo que eu dou aulas, que eu transmito conhecimentos?

E outra coisa, humanidade: não é pq algo é divertido que não é trabalhoso e cansativo. Dar aulas pra crianças é uma delícia! E cansa. Ensaiar é maravilhoso! E cansa. Apresentar uma peça é a representação máxima do entusiasmo, do "estar em Deus". E - surpresa - cansa. É trabalho, como todos os outros. Também enobrece/dignifica o homem, acreditem ou não.

Talvez, pras pessoas com empregos tediosos, o universo mágico do teatro pareça injustamente divertido demais. E, talvez por isso, não o considerem trabalho. E talvez não seja mesmo... Pq teatro só se faz com paixão. Teatro cansa e dá trabalho, mas o retorno, a recompensa, é infinitamente maior. É mais do que escolha, é destino. Não é trabalho, é sacro ofício. É sagrado. Como tudo que se faz por amor...

Talvez não seja trabalho, seja religião. Fé.

Talvez seja linda a sacralidade do "só" fazer teatro.

Talvez devêssemos abandonar a piada e aceitar que, sim, graças a Deus, não trabalhamos. Fazemos teatro. (Sem o "só".)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

WonderDory - Parte 2


A porta se abriu.

- Dory?

Não, a Mestra não. Era o pior dia da sua vida e tudo que ela não queria era a Mestra em seu quarto. Fingiu dormir.

- Dory? Me responda.

Era impossível enganá-la.

- Sim, Diana.
- Você não apareceu para o jantar.
- Eu não estou com fome.
- Nós temos que seguir regras. Temos que ter disciplina. 22 anos na ilha e você não aprendeu? Você sempre foi minha melhor pupila; o que está acontecendo?

Ela jamais entenderia o que estava acontecendo. Não adiantava contar. Era fria e calculista e não daria importância alguma.

- Eu só não estou com fome.
- A fome não importa. Com fome ou não você sempre soube que teria que estar na sala de jantar às 19h. Pontualmente.
- Eu sei.
- E que voz é essa? - ela estava alterada. Acendeu a luz. Na hora em que seus olhos verdes repletos de lágrimas encontraram os olhos azuis da Mestra, soube que estava encrencada. Lembrou de uma poesia, lida há muitos anos, sobre os fantasmas terem olhos verdes e serem inofensivos e só atravessarem paredes, enquanto os monstros tinham olhos azuis e deviam ser temidos, pois eles, sim, eram maldosos.
- Dory, você está chorando?
- Diana, eu...
- Chorando? Você está doente? Não admito qualquer outra explicação!
- Eu... eu... - indefesa diante dela. Dory podia liderar todas as outras meninas na ausência da Mestra, mas, diante dela, se sentia sempre como no dia em que, com apenas dois anos, chegara à ilha.
- Vamos. Fale.
- A raposa.
- A raposa que você criava?
- Isso. Ela... Ela... Ela morreu hoje.
- Sim. Essa é a ordem natural. Todo ser vivo nasce, cresce e morre.

Ela não entendia. Como previsto.

- Você está chorando por causa da raposa? Eu sabia! Jamais deveria ter permitido que você trouxesse ela pra cá. Bichos de estimação só causam problemas.
- Mestra...
- Quando teus pais te trouxeram pra cá, depois do acidente dos brinquedos se desintegrando, quando eles perceberam que você tinha dons especiais e precisava treiná-los, eu lhes disse que esse treinamento seria longo e doloroso, que eu te faria passar pelas maiores provações e sofrimentos. Eles aceitaram, pois sabiam que isso te faria uma pessoa melhor.

Não, eles aceitaram pois assim poderiam exibi-la. Tudo que eles queriam era ter a melhor filha, era impressionar seus amigos. Já estava cansada das festas de final de ano, única ocasião em que podia deixar a ilha e ir pra casa. Eram todas iguais: os pais sempre a exibiam. "Essa é a Dory, nossa filha, ela é a mais inteligente, a melhor". Ela era? Sempre tinha se destacado em todos os treinamentos, mas isso a tornava melhor?

- E eu cumpri minha promessa. Te fiz passar frio, fome, medo. Exigi o máximo de você. Você acha que eu me senti bem quando te larguei com apenas 8 anos de idade para passar a noite na floresta sozinha? Não, mas era necessário, era parte do treinamento. Eu te fiz passar pelo pior e nunca te vi chorar; eu provoquei as piores dores em você e nunca te vi chorar.

Piores dores? O que ela entendia de piores dores? Quando Beatrix quebrara sua perna durante uma luta de treino, quando Scarlet a esfaqueara... Nada tinha doído tanto quanto ver sua raposa fechando os olhos para sempre.

- E agora você me desafia, não aparece pra jantar e fica aqui chorando por causa de uma raposa? É muita ingratidão. Eu te ensinei tudo que você sabe, te fiz a melhor lutadora, te ensinei a controlar seus poderes...
- Mas nunca me ensinou a controlar meus sentimentos.
- O que? Sentimentos são para pessoas fracas.
- Ela era minha amiga. Minha única amiga.
- Você não precisa de amigos, você precisa de poder, de força, de bravura.
- Eu só me sentia forte e poderosa perto dela.
- Chega! Eu não aguento mais ouvir tanta besteira. Vou avisar a Beatrix que ela assumirá suas turmas de luta por tempo indeterminado. Quero você longe das novatas por um tempo. E vamos ter um treinamento intensivo, só eu e você, pra que eu possa tirar essas ideias absurdas da sua cabeça.

Saiu, batendo a porta.

E, naquele momento, todo o sentimento represado durante anos se libertara. A dor pela separação dos pais, a solidão, a sensação de que estava perdendo sua vida na ilha, a exibição dos pais, a ausência de palavras de carinho deles, os anos e anos de destaque na ilha e a ausência de reconhecimento por parte da Mestra... a perda da única amiga que tivera, da única criatura que despertara seu amor...

O choro, até então contido, perdeu o controle. E ela chorou como uma criança, durante toda a noite. Nunca experimentara tamanha dor.

***

Não sabia de onde viera a coragem. Mas desconfiava... A raposa não lhe ensinara que amar alguém profundamente nos dá força, mas ser profundamente amado por alguém nos dá coragem?

Bateu na porta.

- Entre, Dory.

Ela sabia pela batida na porta que era ela. Desde sempre. Entrou devagar no gabinete da Mestra. Sempre ficara espantada com o lugar, com o passado de glorias daquela que tinha sido sua treinadora, o passado estampado na parede, em quadros, recortes de revistas e jornais.

- Mestra, eu vou deixar a ilha.
- Eu já sabia.
- Você...? Como?
- Desde o momento em que eu te vi correndo pelos jardins com a raposa pela primeira vez, eu já sabia. Eu percebi que eu não conseguiria te privar do sofrimento.

Silêncio.

As lágrimas começavam a lotar os olhinhos da moça.

- Dory, você sempre foi a melhor. Mas eu sempre soube que isso aqui não seria o bastante pra você. Eu desenvolvi um carinho diferente por você. Eu posso ser muito dura, até mesmo agressiva contigo, mas faço tudo por saber que você é minha preferida. Se às vezes eu te trato pior do que as outras, é porque eu sei que, no fundo, eu nunca vou sentir por elas o que eu sinto por você. Eu sinto carinho de mãe por você.
- Obrigada, Diana.
- Eu te ensinei a lidar com o sofrimento físico, pois achei que conseguiria te poupar do sofrimento emocional. Como eu fui boba... As mães se enganam muito. Você é toda sentimento. Inteirinha. Da cabeça aos pés. Eu jamais conseguiria te poupar da dor. Jamais.

Silêncio.

Depois de ouvir tudo aquilo, já não sentia a mesma vontade de ir embora que sentia antes.

- O mundo lá fora te espera, querida. E, nesse exato momento, eu me sinto a pior treinadora do mundo, pois eu não soube te ensinar a lidar com a dor de perder alguém, de se sentir sozinha, incapaz, fraca,de não ser a melhor, de fracassar, de não ser correspondida quando se ama alguém, de lidar com a distância, com a injustiça, com a ingratidão. Tanta coisa que eu poderia ter te ensinado... Mas talvez eu mesma não soubesse como lidar com essas coisas...
- Diana, você foi a melhor Mestra que eu poderia ter. Mas, talvez, essas lições eu tenha que aprender sozinha.
- Talvez... Quem sabe? Como você está lidando com a morte de sua amiga?
- Ainda dói muito... Desconfio que nunca deixe de doer.
- Me perdoe por ontem. Fui insensível. Eu sei que você sempre me achou fria e sem sentimentos. Mas, ontem, eu fraquejei. Minha reação exagerada foi justamente causada por um sentimento, por um enorme sentimento. Por medo de te perder. É extremamente egoísta, eu sei, mas eu queria ser sua única amiga.
- Você é minha única Mestra.
- Acho que isso está bom... Me promete que viverá tudo que tiver pra viver, tudo de que eu te privei aqui?
- Eu prometo.
- E não mostre seus poderes. As pessoas não estão preparadas.
- Certo.
- E cuidado com rapazes. Há uma razão para só admitirmos moças na ilha.
- Eu sei.
- E faça amigos. Muitos. E se entregue a eles, faça tudo por eles, demonstre todo o seu amor. Você só vai viver uma vez.
- Eu o farei.
- E... Bom... Eu sempre estarei aqui. Quando precisar de mim, já sabe onde me encontrar. E você sempre será bem-vinda aqui.
- Obrigada, Mestra. Por tudo. Sempre.
- Eu que tenho que te agradecer. Você me fez ver coisas que eu não via há tempos. Rever conceitos... Agora vá! Não prolongue as despedidas. Saia cedo, eu comunico às meninas.
- Até mais, Diana!
- Adeus, WonderDory!
- Que?
- Você entenderá... Na hora certa...

Quando ela fechou a porta e sentiu o ar gélido da ilha, se lembrou das palavras. Adeus?  Mas, ela voltaria... Ou ela já sabia que não? E do que a Mestra lhe chamou? Um dia ela entenderia?

Pensou em voltar, mas lembrou que os olhos da Mestra estavam brilhando quando ela saíra. Jamais seria perdoada por vê-la chorar.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Letra e Música



Ela escrevia. Músicas. Algo que ela nem sabia como havia aprendido a fazer. Sabia, apenas. Sabia escrever músicas. Variadas. Boas. Bonitas.

Ela escrevia músicas pra ele. Pra ele cantar. Sua voz preferida. A voz que ela mais gostava de ouvir. Não que ele pedisse pra ela escrever. Não... Era a voz dele que a inspirava. Cada vez que ela o ouvia cantar - músicas que ela não havia composto - mais tinha vontade (necessidade?) de escrever. Pra ele.

Ele era bom... O melhor, provavelmente. Como segurar a ânsia de vê-lo cantando o que ela escrevia? De vê-lo dar vida às suas palavras?

"Palavras são poderosas", ela sempre dizia.

Ela também cantava. Não tão bem quanto ele, claro. Ele tinha algo de mágico. De predestinação. Ela era uma soma de esforço, dedicação e estudo. E vontade. Ele era bom. Ela fazia de tudo pra ser boa (e dizem, até, que ela já havia conseguido, que ela já era muito boa... mas ela ainda duvidava... e isso talvez fosse porque ele não a achava boa...) (e era muito importante, pra ela, que ele a achasse).

Ela tinha um sonho. Um dueto - cantar junto com ele. Um sonho vindo do passado, quando - imaturidade ou sabedoria? - eles planejavam cantar juntos. Um futuro em que levariam a vida cantando, sempre juntos.

"O futuro não existe", ela dizia. "Quando ele existe, ele já é presente".

E o futuro não existiu. Ela continuava escrevendo músicas para ele. (Que ele não cantava) Ela continuava sonhando com o dueto. (Que não aconteceria) Ela continuava se angustiando, enquanto o via desperdiçar o talento mágico em músicas ruins, de péssimos autores. (Que nem sabiam escrever... como ousavam realizar tarefa tão sublime sem o saber?)

Sem a voz dele, o que ela escrevia não ganhava vida. (E ela conseguia deixar outra voz cantar?) Sem o que ela escrevia, tudo o que ele cantava era pouco, era menos, era menor, era sem vida.

(Mas ele parecia não perceber. Ou não se importar. Ou manter e alimentar uma esperança cega de que as melhores músicas ainda estavam por vir. E que não viriam dela. Apostava em todo mundo.... menos nela...)

Juntos, eles podiam ser tanto... Era tanta coisa boa em cada um que, juntando tudo, sairía algo gigante. Um oceano de possibilidades. Um vislumbre de realizações, concretizações. Felicidade. E sucesso...

Complementares. Indestrutíveis.

Letra e música...

(Um dia, quem sabe, seriam uma linda canção...)
(Ela continuaria esperando por isso...)
(... e se o futuro existir?)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Medo



Maldito medo!
Que me faz fugir de tudo,
Torna meus olhos cegos,
E meu diálogo, mudo.

Maldito medo!
Que me consome a dignidade.
E me faz morrer em chamas,
E me perder na eternidade.

Maldito medo!
Que corrompe meu ser,
Entope minhas artérias e veias,
E me faz enlouquecer!

Maldito medo!
Que me nega toda a sorte,
E me afasta aos poucos do mundo,
Querendo me carregar pra morte.

Maldito medo!
Maldição sem fim...
Faça-me o favor:
Afaste-se de mim!