quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Princesa e o Menestrel

Tinha nascido uma princesa. Natural, pensando que seu pai era um rei e sua mãe, uma rainha. Só que as coisas nunca são simples no fantástico mundo dos contos de fadas. Sendo assim, por algum motivo muito mais mágico do que racional, um mago - daqueles bem maldosos, estilo Gargamel - através de um feitiço maligno, tomou conta daquele reino e obrigou seus monarcas a esquecerem suas origens nobres e viverem o resto da vida como camponeses. A princesa, nessa época, ainda não tinha completado um ano de vida e, portanto, não tinha consciência de que era uma princesa e do que isso representava. E cresceu achando que era uma camponesa...

As amigas camponesas da menina, em um determinado momento da existência, cansaram de suas bonecas de pano e começaram a sonhar com casamentos espetaculares, que elas chamariam de "casamentos de contos de fadas" se já não vivessem em um conto de fadas. E o que todas queriam, o melhor futuro que podiam sonhar, era um príncipe. Um príncipe que chegasse à aldeia, se apaixonasse por uma delas e a levasse pra um reino distante, cavalgando em um garboso cavalo branco. Tudo caminhando para o "felizes para sempre".

A princesa, por sua vez, era racional, avançada para a época. Sabia que, sendo uma camponesa, a possibilidade de casar com um príncipe era quase inexistente. E contentava-se com o futuro previsto, o que podia ter: o casamento com um dos rapazes da aldeia e os filhos que teriam. E era feliz...

Até o dia em que alguém diferente chegou à aldeia. Não o príncipe sonhado pelas solteiras, mas um andarilho. Na verdade, um menestrel, que vagava pelo mundo, levando sua arte - e vivendo dela. Tocava e cantava em troca de um pão, um abrigo, uma peça de roupa ou um sorriso. Sua música era divina, mas suas economias escassas não faziam com que ganhasse corações e nem com que fizesse as mocinhas suspirar.

A princesa, porém, com toda sua racionalidade, não era capaz de fazer análises econômicas. A alma nobre a deixava mais próxima ao intangível e mais suscetível aos mandos do coração. Ela não enxergou o futuro quando viu o menestrel, só viu o que era essencial - e, talvez, invisível à maioria dos olhos - a música que ritmava seus batimentos cardíacos, o olhar doce, o sorriso impetuoso. Sem nem entender desses mistérios humanos, a princesa que achava que era só camponesa - estava apaixonada pelo menestrel.

Ela passou a segui-lo: primeiro com os olhos; logo depois, descontroladamente, com os pés. Acordava com o primeiro acorde e só se entregava ao sono após ouvir a última nota.

Quando ele lhe perguntou seu nome, ela achou que morreria. Não morrera. E não entendia como era possível sobreviver a tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo dentro dela. Sua respiração se alterara, o coração disparara, o estômago congelara, as mãos suavam, a boca secara e o mundo se inundara de todos os sons e luzes e cores e sensações e gostos do universo. Ao mesmo tempo, teve a certeza de que trocaria o mais belo dos príncipes por aquele músico, mesmo que decepcionasse suas amigas.

Por um acaso ou por desígnio do destino, eles se aproximaram. Ele demonstrava uma simpatia maior por ela. E, com o tempo, ela até percebia um certo carinho, mas não sabia se era suficiente para se transformar em amor um dia. Os dois estavam sempre juntos, conversavam muito e ela, a todo momento, esperava que ele sentisse o mesmo que ela.

Um dia, diante de tantas manifestações positivas dele, criou coragem e lhe pediu que a levasse com ele, quando chegasse a hora de ir embora. "Você não sabe cantar. O que faria comigo?" Ela, com uma coragem que, até então, desconhecia, disse, baixdinho, sem conseguir encará-lo: "Eu seria sua mulher". O silêncio dele fez com que a princesa achasse que deveria falar mais e ela explicou como estariam sempre juntos e como ela faria tudo por ele e para que ele fosse sempre feliz. Sem sequer levantar a cabeça, que fitava os pés, ele disse "Vou me deitar". E saiu.

No dia seguinte, ela não o encontrou. E nem no outro. Até o dia em que ele parou ao seu lado e sussurrou "Estou indo embora". Ela se limitou ao silêncio e, ao perceber que ele não estava mais por perto, ao choro. Silencioso e sofrido.

Algum tempo depois - é difícil mesurar o tempo em contos de fadas - ele voltou. Animado. Quando se encontraram, ele disse que gostava muito daquela aldeia e que tinha sentido falta do lugar. E que tinha sentido falta dela. Ela reprimiu um sorriso e disse um pesado "Eu também".

E voltaram a se encontrar e a conversar. Ela voltou a definir o ritmo de sua vida pela música dele. E ele decidiu ensiná-la a cantar e a tocar. E, assim, eles passaram bons momentos juntos.

Até a noite em que, sentados próximo à fogueira, ele lhe perguntou: "Você ainda iria embora comigo?". Ela sabia a resposta que ele esperava: que, sim, ela iria, como amiga e companheira musical. Mas ela precisava ser sincera com sua alma e disse "Sim. Como sua mulher." Ele disse, tão baixo que ela quase não ouviu:"Eu jamais a levaria, nessas condições". "Eu sei", ela respondeu, "Como sei que você nunca vai me levar". O silêncio já parecia durar horas, quando ela disse "É porque eu sou uma camponesa. Se eu fosse uma princesa, importante e nobre, você me levaria. Todo mundo tem seu sonho. Quer seu príncipe ou princesa encantada. Eu errei, por querer o menestrel". E, em um rompante, se levantou, sem dar tempo para uma resposta dele.

No dia seguinte, ele não estava lá. E nunca mais voltou...

Tempos se passaram até que um visitante diferente aparecesse. Dessa vez, um príncipe. De cavalo branco e tudo. Imponente, mas sensato: recusou o convite para se hospedar no castelo do malévolo mago-rei, outrora o castelo dos pais da princesa, e montou acampamento no centro da aldeia.

As moçoilas casadoiras estavam eufóricas: uma delas poderia ter a chance de ter o futuro tantas vezes desejado, sonhado e planejado.

A princesa não viu graça no príncipe. Ele nem era tão bonito. E não sabia fazer música...

Só que, de novo, o acaso - ou o destino - agia e, talvez por um reconhecimento de sangues azuis correndo nas veias, o príncipe se apaixonou pela camponesa que era, na verdade, uma princesa. Ele sabia que ela era só mais uma moça da aldeia, mas enxergava diferenças: seu porte era diferente, seus olhos eram diferentes, sua aura era diferente. Ela era uma camponesa, mas com a graça e a leveza de uma nobre. E ele se encantou...

Vagarosamente, se aproximou. Respeitoso e educado, cortejou-a aos poucos. Sem pressa, mas com muito afeto. E, após algum tempo, as doces palavras do príncipe já soavam como música para a princesa. Ele não provocava todos aqueles efeitos internos - e, talvez, ela nem queria que ele provocasse, pois aquilo parecia uma doença -, mas ele fazia com que seus olhos brilhassem e sua alma dançasse. Ele fazia com que ela se sentisse feliz.

Quando ele decidiu voltar ao seu reino, a convidou para acompanhá-lo. "Eu sou uma camponesa. O que eu faria?"; "Seria minha mulher", ele disse. E, como ela parecia em choque, completou dizendo como eles sempre estariam juntos ele faria tudo por ela e tudo pra que ela fosse sempre feliz. Ela lembrou que, um dia, fizera essa mesma proposta a alguém. E ela percebeu que era muito melhor estar desse lado. Sem hesitar, disse "Eu vou".

No dia seguinte, ele não estava lá. E nem ela e nem os pais dela. Em um reino distante, casaram-se. E ela resgatou o que era seu por direito: tornou-se princesa. E eles viveram felizes para sempre...

EPÍLOGO

O que acontece depois do felizes para sempre? Quem quer saber? Tão bom chegar à felicidade eterna...

Só que, em algum momento, eles se rencontraram: a princesa e o menestrel. Obra do acaso. Ou do destino. Talvez isso tenha ocorrido alguns meses depois. Ou anos. Ou séculos. Talvez o príncipe ainda estivesse vivo, talvez não. Talvez, quando aconteceu, eles já fosssem rei e rainha. Eles foram felizes para sempre e é só o que importa. Mas, em algum momento, eles se encontraram.

E, então, o menestrel disse "Vejo que agora você é uma princesa". E ela respondeu: "Sempre fui. Apenas faltava que alguém - nobre, bom e justo - percebesse isso. Alguém apto a me amar. E alguém digno de receber o meu amor". Ela sorriu, enquanto dizia isso. Parados frente a frente, ela continuou sorrindo. Acariciou os cabelos do homem que lhe parecera tão especial. E percebeu o que ele era: um menestrel. Só um menestrel. Nunca - jamais - um príncipe. Afastou-se, nunca mais o viu, e continuou vivendo feliz para sempre.

4 comentários:

Milene Mondek disse...

Adorei o texto, mas o q mais gostei foi o fato de mesmo ter encontrado o alguém que mais amou, ela decidir por quem quis ficar com ela por quem ela é como pessoal e apenas quer ficar com ela quando ela se transforma em alguém que o outro quer.

Muito bom!!!

Beijos

Michele Andrea Mondek disse...

Concordo com minha irmãzinha acima... O texto é muito bom Tally!
è muito melhor estar do lado do outro lado. Ser amada e ser desejada!
A princesa aprendeu amar quem a ama. Isso é muito importante!

Parabéns

Beijos

Karina Zichelle disse...

que bom que ela conseguiu seguir feliz para sempre... ando encontrando muitos menestréis pelo caminho.. mas até agora nenhum príncipe...

Beijos, linda^^

Flávia, Maria-Flávia disse...

Ótimo texto (mas ainda continuo a achar que em essência todos os princípes são uns sapos nojentos) ;)

Tally vc é demais!

Bjos