sábado, 5 de janeiro de 2013

carta aberta a um passarinho




passarinho, meu passarinho...

tantas vezes tentei te explicar. muitas mais me esquivei de explicar, por achar que era sua obrigação saber. mas, agora, acho que você entende. entende isso que é assim, tão importante. e eu também começo a entender. quem disse que eu sei tudo? as mães nem sempre sabem tudo...

o que eu sei e sempre soube, passarinho, é que eu era única. sem a possibilidade de descendentes. uma pássara solitária, em seu ninho. mas, de repente, você apareceu. não um ovo, mas um bebê passarinho. não meu, mas tive, no exato momento em que te vi, a sensação de que eu deveria cuidar de você. te ensinar. te ajudar a virar pássaro adulto. 

e foi por isso, passarinho, que existiram - e talvez ainda existam - tantas diferenças. por você querer voar por onde eu já voei e sei que não é bom. queria te impedir de cometer os mesmos erros. e não percebi que o destino era o mesmo, mas os caminhos poderiam ser diferentes e o que, pra mim, havia sido uma péssima experiência, pra você poderia ser bom. não conseguia perceber que éramos pássaros diferentes, com destinos diferentes. por você se aproximar de pássaros de que eu nunca gostei. e de outros bichos também, alguns bem asquerosos, aliás. queria escolher quem formaria seu bando, por achar que, sendo mais velha, eu saberia quem deveria te acompanhar nos seus vôos. e sem perceber que você tinha que conhecer outros pássaros e bichos asquerosos pra saber quem são os pássaros bons, os que vale a pena manter por perto. e, também, por você voar pra longe de mim. por bater esse medo de você voar pra tão, mas tão longe, que eu não te visse mais. que você esquecesse de mim. e não percebia, meu filhote adotado e destinado, que longe é um lugar que não existe e que a gente estaria sempre perto, não importa pra onde você voasse.

hoje, você já não é mais um bebê passarinho. é um pássaro menino. e você já aprendeu tanto... já sabe que caminhos percorrer,que pássaros acompanhar. contrariando minhas expectativas - mas me fazendo imensamente feliz - escolheu estar no meu bando. comigo. e, agora, vejo a dedicatória do presente que me deu. "sabe quando você é passarinho e precisa de alguém que te ensine a voar? obrigado por ter me ensinado!". errado, passarinho! eu não te ensinei, eu só aprendi com você. a ser uma pássara melhor, a voar mais alto, a confiar. e a aceitar que nossos vôos não serão sempre os mesmos, mas, quando estivermos juntos, serão vôos inesquecíveis. os melhores.

obrigada, passarinho! te amo até quando você, com esse bico torto, cospe suco em mim.

mamãe pássara

Um comentário:

Leco Vilela disse...

da até para ouvir o passarinho