quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O deleite e a maldição



Colocar a saia de paetê preto, a que faz barulhinho.
Lembrar da paixão à primeira vista pelo texto, de pensar "meu deus, imagina os figurinos, eu quero"; de ver a paixão crescendo durante a leitura, junto com a vontade de fazer aquilo.
Colocar a blusa branca, com ombreiras.
Lembrar da empolgação inicial, do deslumbramento, de ser a peça que eu queria, de ter pessoas que eu amava na turma; de ter, de novo, minha comunhão.
Colocar a sandália, alta e linda, única.
Lembrar da frustração de ver que aquela peça não era pra mim, pras pessoas que não cantam nada. De entender que ia ser divertido, mas ia ser o semestre em que eu ia ter menos possibilidade de me destacar.
Colocar os brincos brancos. Os colares pretos e brancos. As muitas pulseiras. O anel.
Lembrar da dedicação, da entrega, da comunhão, da amizade, do amor, da paixão. E da raiva, do ódio, do desprezo, da preocupação, do medo, da decepção, do ciúme. De tudo que acompanhou a estrada de tijolos amarelos naqueles seis meses e me levou até ali.
Colocar o turbante. A sombra verde e amarela. Caprichar no batom vermelho. Entrar no palco...
E esquecer! Esquecer de tudo e, por 1 minuto e 11 segundos, ser olhos e bocas bem abertos, ser malícia e inocência, ser mãos e quadris, ser diva... ser Carmen Miranda!

Guardar a saia de paetê preto, a que faz barulhinho. Com a lembrança de, depois de ter desacreditado por tanto tempo e fazer só por diversão, ter feito o que eu fiz de melhor até hoje, ter superado medos e vergonha, ter feito o que eu nunca soube fazer e ter dado mais do que eu sabia que poderia dar.
Guardar a blusa branca, com ombreiras. Com a lembrança dos boatos, dos melhores boatos que ouvi nesse ano, dos boatos que eu não ligo a mínima se eram reais ou não, mas me fizeram crescer.
Guardar a sandália, alta e linda, única. Com a lembrança da aprovação pro festival, de conseguir fazer a cena que eu tanto queria, da minha foto em 5000 folhetos, das sábias palavras da minha querida amiga: "dai a César o que é de César", de ver meu nome e a mesma foto em tão famoso e reconhecido jornal.
Guardar os brincos brancos. Os colares, pulseiras, anéis... Todos os balangandãs. Com a lembrança daquele palco, daquele dia, daquela correria, daquela realização, daquela sensação de estar vivendo o melhor dia da minha vida.
Guardar o batom vermelho (a sombra nem era minha). Com a lembrança da reação de todas aquelas pessoas, em todas as nove sessões. Do brilho naqueles olhos, das lágrimas, dos sorrisos, dos aplausos tão enfáticos. E a certeza da aprovação da família que tanto amo, de amigos tão especiais, dos dois diretores divinos do semestre de formatura, de desconhecidos e até do gênio que escreveu peça tão linda e apaixonante. E a felicidade de ter dividido o palco com a maioria das melhores pessoas que conheci nos últimos cinco anos.
E não guardar o turbante. Deixar ele bem perto, bem visível, pra que eu possa vê-lo todos os dias. E não esquecer que eu posso dar adeus à batucada e me jogar - de joelhos - no melodrama, e continuar sendo - em algum cantinho - um pouco e sempre Carmen Miranda. E Poetisa, e Ponciana, e Maria Rita, e Noêmia, e Lisístrata, e Juliet, e Zabé, e Lindalva, e Sílvia, e Cyndi, e Emília, e Nina, e Luciana...

O deleite e a maldição...

5 comentários:

Blower's Daughter disse...

Ô, minha nossa, que texto mais lindoooooo!!!
Até emocionei aqui! Essa é a maravilha do teatro: poder ser tantos!!! E se superar cada vez que pisar no palco! E cada história contada nele e vidas que damos é uma fruta a mais no turbante (tive que fazer uma metáfora com o turbante da Carmen, hahahaha). O teatro é um turbantão!!! Cheio de frutas, flores, balangandãs!^^

Bjokas, linda!!!
Te adoro de montão!!!

Sentir disse...

Guardar tudo é sempre terrível. É assumir a passagem do tempo qeu não volta. Tão melancólico...saudades do teatro, saudades de vcs....

Ricardo Lauricella disse...

Sempre inspirado em você. Sinto saudades. Vou te ver ser feliz este final de semana! bjs

Rufus disse...

E lembrar que ontem eu pensei: Nossa! Falta menos de um mês pra Tally... e daí, respirar fundo, olhar pro céu, ver uma nuvem e tentar esquecer; que daqui a menos de um mês eu já vou morrer de saudade.

"Saudade é ser, depois de ter."

Karina Zichelle disse...

Ser todo e ser um! Compartilho dessa sensação. Beijos, linda!!!