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terça-feira, 12 de novembro de 2013

amor é cortar tecido à noite.



é tão difícil, mas tão fácil definir o amor.

eu sinto, sempre, que eu não sigo o que ela sonhou pra mim. eu sinto que ela planejou um outro futuro pra mim. um que, pra ela, seria muito melhor. mas ela me deixou sair de dentro dela. teve isso. depois disso, depois que se corta o cordão... bom, as coisas vão piorando. até chegar naquele ponto em que ela deixou de escolher por mim, de planejar por mim, de sonhar por mim. e eu comecei a escolher, a planejar, a sonhar. a traçar. certamente não o que ela queria. talvez não o melhor pra mim. mas o único caminho que eu consigo seguir, minha estrada de tijolos amarelos. tortuoso? talvez. delicioso? sim. 

e, mesmo não sendo o que ela escolheria pra mim, ela apóia. ela se esforça pra entender (ok, nem sempre consegue.... mas, acredite, eu também não entendo muitas vezes). ela fica ao meu lado. ela me incentiva. e ela sonha comigo.

ela me ensina (e re-ensina, todo santo dia) que sonho que se sonha só é só um sonho e sonho que se sonha junto é realidade. ela sonha meu sonho. e me ajuda a ir, aos pouquinhos, transformando-o em realidade. 

e ela move mundos e fundos.

ela investe tempo e dinheiro.

ela gosta até quando não gosta.

ela reclama ("você nunca está aqui final de semana!", "só você trabalha nesse grupo, né?", "pq é sempre você que tem que se sacrificar?"). muito. mas não deixa de apoiar, incentivar, sonhar. e não me faz desistir. não me deixa desistir.

ela sai catando gente na rua, na maior cara de pau, pra vender rifa pra ajudar ao grupo.

ela fica a noite toda fazendo colar comigo, pra conseguir trocar os colares por doações pro grupo.

ela é a pessoa mais entusiasmada do grupo. e ela nem é do grupo, não oficialmente.

e, ontem, ela cortou tecido. à noite. eu riscava e ela cortava. pequeninos quadrados de tecido. que vão virar figurinos. figurinos que nem eu e nem ela vamos usar. que o grupo vai. 

ontem ela me provou, mais uma vez, que isso é amor. é cortar tecido, depois de trabalhar o dia todo e de fazer comida à noite. amor é sacrifício. sacro ofício. trabalho sagrado. sagrado. 

mãe, lembra quando a dani disse que eu dediquei minha peça pra minha professora da 1ª série e não pra você? a outra eu dediquei pra princesa estrela. não dediquei, mesmo, nenhuma pra você. e nem sei se vou dedicar alguma das que eu estou escrevendo e das muitas que eu pretendo escrever. pode parecer egoísmo, mãe, mas não é isso, não. pode parecer ingratidão, mas também não é isso. juro.

eu não dedico minhas peças a você, mãe. pq eu acho pouco, muito pouco, muito menos do que você merece.

eu dedico minha vida toda a você...

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A saudade ainda lateja...



Quando tudo aconteceu, meu maior medo era esquecer da Bruna. E se eu acordasse um dia e não lembrasse do rosto dela, da voz dela? Num rompante de uma loucura idiota, não só eu, mas todos nós, nos armamos de um arsenal de fotos, vídeos, gravações da voz dela. E esquecemos que nenhuma foto, nenhum vídeo, nenhuma gravação preservaria o mais importante, a única coisa que não poderia ser esquecida: o jeitinho da Bru. O cheiro dela. A textura do cabelo dela.

O medo persistiu até o dia em que eu senti o cheiro da minha vó na rua. Minha vó já se foi há um bom tempo e, não sei como, ela sempre continuou na minha vida. De um jeito diferente, claro. Ela já não me deixava brincar de comidinha na cozinha dela, mas era com ela que eu falava quase toda noite. Antes de dormir, era pra ela que eu contava o que me assustava, o que me perturbava, o que me confundia. Era pra ela que eu pedia ajuda. Minha avó era, mais ou menos, o meu deus. Na primeira noite sem a Bruna, eu não pedi a Deus que cuidasse dela, pedi pra minha vó fazer o bife maravilhoso dela e deixar a Bru brincar na cozinha dela. Pq a Bru teve minha vó por muito pouco tempo e não teve tempo de aproveitar coisas que, pra mim, a uma certa idade, eram o paraíso. Pedi pra minha vó proteger a Bru como ela me protegia e pra, até, catar piolho da Bru e, quando pegasse um grande (como se a Bruna tivesse piolhos....), dizer "Esse comeu Nescau!".

E, de repente, me veio o cheiro da minha vó na rua. E, com ele, veio a risada dela, a textura da pele dela, o ritmo da respiração dela enquanto dormia, a voz dela e uma enxurrada de sensações. E eu vi que tudo isso, assim como tudo relacionado à Bru, é meu e, nunca, ninguém vai me tirar.

Agora eu sinto o cheiro das duas, ouço a voz das duas e sinto as duas tão perto de mim que, às vezes, é como se elas estivessem dentro de mim. E talvez estejam, de alguma forma, transportadas por esse amor absurdo que sinto por ambas. À noite, eu continuo não pedindo nada a Deus. Mas peço sempre que elas continuem juntas, que uma cuide da outra, todas aquelas coisas que eu peço pra minha vó... E peço pra Bru ensinar a vó a dançar gafieira e thriller, a jogar STOP e pra Bru contar pra vó a minha versão da história da lagartixa que queria virar jacaré.

E, principalmente, peço que as duas estejam lá - seja lá onde for "lá" - quando eu chegar.

(texto de 08 de novembro de 2005... saudade de sempre...)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O Velho Machado - Parte 5




Lerni ou Lernini?

            Ainda jovem, com pouco mais de 18 anos, Machado decide se juntar ao Exército para ir à Itália, lutar na Segunda Guerra Mundial. Junto à FEB (Força Expedicionária Brasileira), conhece a Europa e o lado obscuro da humanidade: vê pela primeira vez uma pessoa morrer, embora não tenha chegado a matar ninguém durante sua participação no entrave. A inexperiência e o espírito brincalhão fazem com que seja o único de sua divisão a ser expulso.

            Lernini retorna ao Brasil, mas ainda não está satisfeito. Queima seus documentos e, em meio ao caos e a desorganização típicos do Brasil, consegue fingir que perdeu os mesmos e, assim, faz uma nova certidão de nascimento e outra cédula de identidade. E atinge seu objetivo: troca o Lernini por Lerni e muda a data de seu nascimento, se tornando, praticamente, uma nova pessoa.

            O novo Lerni oferece-se sorridente para ir (voltar) à Itália, com a FAB (Força Aérea Brasileira). Passa cerca de dois anos ainda em território europeu, meses decisivos para o resto de sua existência. A guerra o torna mais bruto, mais agressivo, mas a proximidade da morte faz com que perca totalmente o medo da mesma e encare a vida de maneira diferente, sempre disposto a aproveitar cada dia como se fosse o último, no melhor estilo “carpe diem”. Por isso, hoje o velho Machado lê muito, come muito, bebe muito, fala o que pensa e dorme pouco, sempre esperando o fatídico encontro com o fim de seus dias.

            Além disso, Lerni fez muitos amigos no Exército e na Força Aérea. Tornou-se mais comunicativo e popular. É presença constante nas reuniões de veteranos de guerra em Niterói, onde adora lembrar os casos engraçados – e também os escabrosos – do período. Sempre que pode, leva os netos para apresentar aos velhos amigos. Na saída, repete para cada um de seus familiares: “As reuniões aqui são chatas, sem emoção. Bom é no Rio, que os caras não têm pernas, não têm braços. Tem um que não tem um pedaço da cabeça!”.

(infelizmente, essa é a última parte do trabalho que eu ainda tenho... o resto se perdeu...)

sábado, 20 de abril de 2013

O melhor abraço



Um ano atrás eu tava voltando pra Niterói, depois de um final de semana ótimo com minha família. De manhã cedo, eu, a Bru e meu pai fomos pra uma padaria comer croissant e beber suco. Os dois ficaram me tirando horrores pq eu comecei a ficar enjoada e eles juraram q era o croissant de cheddar q só eu comi. O enjoo  a dor, tudo, continuou por quase duas semanas. Da padaria, a gente deixou a Bru na escola. Ela me deu um beijo e mandou o pai descer do carro pra dar tchau, já que eles iam ficar um bom tempo sem se ver. Eu desci tb, mesmo sem ter sido chamada. Dei um mega abraço nela. Disse que ia sentir saudade, enquanto ela ria e brigava comigo por estar pagando mico na frente da escola. Eu nem sabia que eu ia mesmo sentir a falta dela. Exato um ano atrás. 365 dias. O dia que eu nunca vou esquecer. Meu último abraço na minha pequena. Burra, burra, mil vezes burra. Eu não devia ter soltado ela nunca, devia ter continuado abraçada. Pra gente continuar assim pra sempre...

(texto de 12 de abril de 2006, saudade de sempre...)

terça-feira, 19 de março de 2013

O Velho Machado - Parte 4



Machado de Assis e outros Machados

            É difícil distinguir o que é real nos arquivos de Lerni. Se tudo que está escrito for verdade, “seu” Machado é a pessoa mais interessante de todo o mundo. Se for tudo mentira, ainda assim, ele continua sendo a pessoa mais interessante de todo o mundo.

            Sua história começa quando a avó vem, junto com a irmã mais nova, de Lisboa para o Rio de Janeiro. Na chegada, após a longa viagem de navio, as irmãs se separam. Maria acaba indo parar em Niterói. A outra irmã fica na capital mesmo, casa-se com um negro e tem um filho mulato e feio metido a saber demais, que fica conhecido pelo sobrenome: Machado de Assis.

            Maria, longe de amigos e familiares, vai trabalhar em uma fazenda em Niterói, propriedade de um senhor inglês e de sua esposa espanhola. O filho do casal se interessa pela portuguesinha e, de um relacionamento rápido e proibido nascerá uma menina. Maria é forçada a casar com um brasileiro, mas ainda terá uma segunda filha com o rico fazendeiro, Aracy. As duas, apesar de serem criadas apenas pelo pai postiço, levarão o sobrenome do pai biológico: de Mendonça. O clã Machado de Mendonça se inicia.

            Aracy se casa e tem apenas um filho, que nasce na virada do ano, em meio a fogos de artifício e muita dor, fruto de um longo trabalho de parto. O menino recebe o nome de Lernini e é criado com muito mimo pela mãe. O menino, sempre muito inteligente, se tornará o velho avô contador de histórias.

quinta-feira, 14 de março de 2013

VIVENDO NA TWILIGHT ZONE




Atualmente, um dos melhores momentos pra mim é quando todo mundo vai dormir e eu fico na sala do sítio vendo filme. É uma espécie de rotina, eu sempre fiz isso nos finais-de-semana. Sempre eu, deitada no chão, e a Bruna dormindo no sofá. Ainda hoje, eu posso criar essa idéia de que ela está lá. Claro, às vezes eu olho pra trás e não a vejo. Às vezes eu estico a mão e não toco no rosto dela, no cabelo dela e nem ouço ela dizendo "O que tá acontecendo? O que tá acontecendo?" no tom típico de desespero dela antes de cair no sono de novo em questão de segundos. Nessas horas eu percebo que a mãe e a Dani também não estão na sala. Conclusão óbvia: as três estão dormindo no quarto. 

Algumas vezes eu percebo que me enganei. Outras vezes eu vou dormir iludida e só percebo que a Brú não tá aqui de manhã (quando a única vontade que eu tenho é pular em cima dela e cantar "Todo mundo acordando já, o lindo sol irá brilhar, passarinhos a cantar, acordando, acordando já"). Nesse momento eu vejo que tudo que aconteceu era surreal demais pra ser inventado, até mesmo por uma mente bizarra como a minha. Mas, what the hell, não é surreal demais pra ser de verdade, pra ter realmente acontecido? Não é surreal demais saber que a foto da sua irmã de 15 anos está na conhecida mesa dos mortos da sala da casa da sua tia-avó de 70 anos? Se eu não tô vivendo na twilight zone, eu não sei o que é isso que está acontecendo... 

Pode ser que não seja de verdade verdadeira. Tenha sido inventado, como todo o resto desde os primórdios da existência humana, por um roteirista maluco mais conhecido como força que controla o Universo, Deus, destino ou algo do gênero. Um idiota que veja algum sentido em colocar mais tragédia e drama no seu filminho besta. Cena X - Bruna num churrasco, feliz; cena Y - carros se chocam; cena Z - familiares e amigos choram abraçados ao caixão. Seguidas de 347 milhões de cenas de dor e sofrimento. Esse cretino acha o quê, que isso vai ser sucesso de bilheteria, é? 

Se for assim... Não sei se imploro por uma mudança de roteirista - um que possibilite uma volta no tempo, algo meio Donnie Darko - ou desejo ardentemente a chegada, o mais rápido possível, dos créditos...

(texto de 29 de junho de 2005... saudade de sempre...)

segunda-feira, 11 de março de 2013

A quoi ça sert l'amour ?




Pra que serve o amor? Essa é uma pergunta que o menino Douglas deve ter se feito muitas vezes nos longos 8 anos em que viveu sua paixão não correspondida pela menina Daniela. Ele se esforçava tanto, eram tantos presentes, cartinhas e declarações, fazia de tudo por ela... e nada! Mais uma dessas histórias aparentemente insensatas que a gente ouve todo dia e que nos faz indagar pra que serve o amor. 

Mas o amor não se explica. É uma coisa que vem não se sabe de onde, faz chorar, faz sofrer e te arrebata de vez. Já houve até quem o chamasse de uma "triste maravilha", por nos deixar alegre e com lágrimas nos olhos de tanta dor. Um incrível paradoxo que nos faz voltar àquela mesma pergunta: pra que, então, serve esse tal de amor?

Talvez fosse justamente por não saber pra que servia esse tal de amor, que a menina Daniela demorou 8 anos pra perceber o que os outros já sabiam. Pra perceber que, tal qual a poesia de Quintana, ela estava se portando como o avozinho infeliz: em vão, por toda parte, procurando os óculos que sempre estiveram na ponta do seu nariz. Procurando o tal do amor, pra descobrir pra que ele servia, sendo que ele estava sempre ali, ao seu lado, personificado no seu melhor amigo.

Piaf, a cantora francesa que cantou uma música cujo título traduzido significa justamente "Pra que serve o amor?", uma vez, foi entrevistada por uma jornalista americana que lhe perguntou que conselho ela daria para uma mulher, uma jovem e uma menina. Sua resposta foi a mesma para as três perguntas: "Ame!". E, de repente, a menina Daniela resolveu seguir o conselho da cantora, sem questionamentos, e simplesmente amar. Amar o menino Douglas, persistente e predestinado. Desse amor tão grande que foge a dicionários e a regulamentos vários, como disse Drummond. 

E, dessa entrega de ambos ao amor, surge um esboço de resposta pra tal pergunta. Pra que serve o amor? Pra que a gente ame. Intransitivamente. Só porque, sem amar, não vale a pena viver. 

"Cada vez mais eu acredito nisso
E eu acreditarei pra sempre...
Que é pra isso que serve o amor!
Mas você, você é o último,
Mas você, você é o primeiro!
Antes de você não havia nada
Com você eu estou bem
Era você quem eu queria
Era de você que eu precisava
Você que eu amarei pra sempre
Pra isso que serve o amor!..."

sexta-feira, 1 de março de 2013

O Velho Machado - Parte 3



Meus livros, seus livros

            Quando aprendeu a ler, a menina deu um passo em direção ao velho. Começou a entender o que o fascinava tanto naquelas letrinhas e se apaixonou profundamente pela mesma paixão de Lerni. A aproximação foi lenta e gradual e só se efetivou quando a menina foi aprovada para cursar História em uma das melhores faculdades do estado de São Paulo.
            O velho aproveitou que ela estava em Niterói, visitando uma tia-avó e foi dar os parabéns. Entrou na sala de estar repleta de enfeites e santos, usando camisa e calça social e com um embrulho grande debaixo dos braços, que entregou com um sorriso para a jovem. Dentro, um enorme livro vermelho, intitulado “Os grandes mistérios do passado”, com a dedicatória “Para minha primeira neta universitária, histórias para você contar no curso de História”.
            Era apenas o primeiro livro que ela receberia das mãos dele. Contudo, era mais que isso; era o início de tudo, da amizade, da aceitação, da admiração e da sensação de que um avô não precisa andar com chicletes e pirulitos nos bolsos.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O Velho Machado - Parte 2




O cachorro e a calcinha

            A relação entre o velho e a menina, que mais tarde seria a primeira neta a se formar, não foi sempre tão tranquila  Da parte dele, nunca houve nenhum interesse por crianças. Lerni, que se divorciou da esposa quando os filhos eram muito pequenos, nunca gostou de brincadeiras e coisas do gênero. Nunca foi um exemplo de vô, daqueles que levam ao parque, compram doces e contam histórias de fadas e princesas. Da parte dela, havia uma enorme desconfiança e um trauma.

            A menina sempre achou estranho ter um avô que não a levava para passear e nem fazia jogos com ela. Tão diferente do outro... Achava esquisito um velho que falava com ela, como se ela já fosse adulta. Não conseguia lembrar de um abraço, uma bala, um brinquedo, nada, vindo de Lerni. E não entendia como ele conseguia viver num quartinho, rodeado de livros apenas e sozinho. E estranhava – muito – o barulho que saía da casa do avô, terreno proibido e misterioso. Ninguém nunca entrou na casa de Lerni, até ele começar a apresentar sinais de velhice. Nem os filhos imaginavam como poderia ser o mágico quartinho. O barulho, descobriu mais tarde, era da antiga máquina de escrever que Machado usou durante toda a vida para registrar a história da família e escrever cartas e manifestos que jamais seriam publicados.

            O trauma, verdadeiramente, não surgiu por causa do avô. O culpado foi Yang, o imenso cachorro que o velho ganhou quando a menina ainda tinha uns 2 ou 3 anos. O monstro amarelo de mais de dois metros – um simples filhote de fila – cresceu junto com a primeira neta e, quando eles ainda eram pequenos, se encantou pelas calcinhas coloridas e enfeitadas com bichinhos que o pedacinho de gente usava no calor infernal do verão carioca. O pobre cão não teve escolha, depois de muito resistir, mordeu a parte traseira da criaturinha esquisita que andava em duas patas. E continuou mordendo, todos os dias, em todos os anos, até que ele cresceu e ela nem tanto. E então, a mordida doeu.

            Nesse dia surgiu o trauma, pois, em meio a lágrimas de dor, a menina viu que o velho ria e acariciava a cabeça de Yang. O cachorro acabou preso até o fim da vida, quase 17 anos depois do incidente. O velho continuou nutrindo um amor incontrolável pelo cão. E a menina achou melhor se manter afastada de ambos por um bom tempo...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Velho Machado - Parte 1




O velho e as pastas

- ... e o padre disse “Droga, lá vem aquele moleque fanho outra vez me vender o raio da galinha!”.

            Todos na mesa começam a rir. No exato momento em que o velho acaba a piada, todos – desde a menina mais nova até a senhora – estão rindo. Simples explicar o motivo do riso vir ainda antes do entendimento da anedota: não é a primeira vez que ela é contada pela mesma pessoa. Mas toda vez que Lerni Machado de Mendonça – o Machado – repete esse clássico de seu repertório, não tem como não se entregar. Por mais que você conheça a piada e já saiba o final, o jeito loucamente estúpido e ternamente agressivo de Machado é o que te leva a rir.

            Aquela era só mais um dos inúmeros jantares que reuniu aquele grupo. Não que seja fácil ter a família junto, afinal apenas uma vez por ano a parte paulista se junta ao grande clã niteroiense. Mesmo assim, toda visita é sinal de um belo jantar na pizzaria que há anos é o ponto de encontro dos Machado de Mendonça. A “Las Lenas” (o nome surgiu depois que um argentino se agregou à famíla) é um ambiente rústico, toda construída em madeira, com toldos verdes e uma vista para a Serra da Tiririca, localizada na região oceânica de Niterói, Rio de Janeiro, que faz com que até se esqueça a proximidade da praia.

É em uma das muitas mesas de madeira cobertas com toalhinhas brancas que, mais uma vez, o patriarca conta suas histórias, sob o olhar atento da ex-mulher Enaura (uma senhora pequenina de olhos muito vivos), do filho mais velho Álvaro, da ex-nora Denise e de alguns de seus 13 netos. Seu Machado, apesar de proibido pelo médico, enche pela terceira vez o copo com vinho tinto, logo depois que termina a piada. Bebe um gole, limpa os olhos que já não enxergam muito e se cala.

Lerni já deve beirar os 75. A idade real, ninguém sabe, é praticamente um segredo de estado. A única coisa que se arranca do velho quando se toca no assunto é que ele tem muitos anos. E completa: “Desse ano, não passo!”. Se a família fosse se desesperar cada vez que Lerni previu a proximidade de sua morte, já estaria fora de controle. “Ele sempre acha que vai morrer!”, diz Miguel, o neto de 16 anos, apaixonado por culinária e pelo avô. De Lerni não se arranca nem a data de aniversário, pelas estimativas de parentes é alguma data entre outubro e janeiro. E tente perguntar ao velho qual o signo dele, para ter pelo menos uma pista. A resposta será “Elefante!”, sempre. E, como é inevitável que se pergunte depois “Em que horóscopo?”, esteja preparado para ouvir um “No meu!”.

Sentado na cadeira, segura o copo de vinho e acaricia a barriga protuberante escondida por uma velha camiseta. Lerni sempre está de bermuda e camiseta; tem apenas duas camisas que costumava usar nas viagens pela Europa e, hoje, usa apenas para levar as netas “paulistas” – como ele insiste em dizer, mesmo sabendo que uma delas é niteroiense e a outra mato-grossense – para almoçar nos restaurantes mais finos do Centro de Niterói. Num repente, abaixa-se e começa a mexer em umas sacolas que havia trazido para o jantar. Coloca três pastas em cima da mesa, encara a neta mais velha e diz: “Você é a filha mais velha do meu filho mais velho. Ele, foi o único dos meus filhos que fez faculdade e você vai ser a primeira da sua geração a se formar. Pra você, que gosta tanto de ler e escrever quanto eu, pra você que será a primeira jornalista na família – e provavelmente a única -, pra você que adora ouvir umas estórias e histórias, eu trouxe aqui parte da minha vida”. Ela abre a primeira página da pasta empoeirada e lê “A história dos Machado de Mendonça começa quando minha avó veio de Portugal para o Brasil...”. Ela pára, ajeita o óculos, olha com admiração para o avô e pergunta: “Posso ficar com eles? Só pra ler, te devolvo amanhã?”. O velho aceita e ainda diz que trará o resto das pastas no dia seguinte. Em questão de horas, ela terá em suas mãos toda a vida do avô e a história real da família.

(penúltimo semestre da faculdade, trabalho de jornalismo literário, fazer o perfil de alguma pessoa muito interessante... "posso fazer sobre o meu avô?", "pode, mas vou ser muito mais rigoroso com vc... vai precisar fazer algo muito bom pra conseguir um 8 ou 9". tirei 10.)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A dor maior do mundo


Desde muito pequena eu tenho dores de cabeça. Muito fortes. Fortes mesmo. Lembro de ter uns 12 anos e chorar de tanto que minha cabeça doía. Quando rolam as crises eu choro de dor, eu não consigo ver nenhuma luz, sentir nenhum cheiro, ouvir nenhum barulho. Tem dias que é tão forte que eu durmo e acordo de tanto que minha cabeça dói. Tem vezes que ela só passa depois que eu durmo. Tem vezes que eu preciso vomitar até colocar meu estômago pra fora pra dor ir embora. Tem dias que eu sento no chuveiro e deixo a água fervendo bater na minha nuca. E tem vezes que mesmo com tudo isso ela não passa. Uma vez vi no Globo Repórter que cientistas e médicos comprovaram que a maior dor que vc pode ter é uma dor num tal nervo do rosto. Duvidei. Nada pra mim poderia ser pior que minhas dores de cabeça. 

Aí eu descobri que estava enganada. Senhoras e senhores, eis que eu conheço a dor maior do mundo. E descubro que a dor maior do mundo não dói num lugar específico. Dói em tudo, na cabeça, no corpo, na ponta do dedão do pé e muito mais. Dói no coração, dói na alma, dói nas lembranças, dói até em cada fio de cabelo. E dói sem parar um minuto. A dor maior do mundo não deveria ser vivida por ninguém. Mesmo. Pq é algo insuportavelmente suportável. É algo que vc sabe que vai doer pra sempre e que, infelizmente, não vai te matar. A dor maior do munto não é letal. E não surge de um tombo, um corte, uma batida, algum problema interno. Surge do nada. E não manda aviso. Às 2h15 você não sente nada e, de repente, são 2h16 e você está tomada pela dor maior do mundo. 

Como identificar a dor maior do mundo? Não sei... É algo que se sente e que não se consegue explicar. Só sentindo pra saber que aquela é a dor do mundo. Mas se é necessária uma explicação, a dor maior do mundo surge logo depois que você fica sabendo que sua irmã linda e fofa e que vc ama loucamente, de apenas 15 aninhos, não vive mais. Tão difícil usar o verbo morrer.... A dor maior do mundo é ter que passar o dia num velório, ter que ver um caixão entrar na sala e saber que é ela lá dentro, ter que ver o mesmo caixão descer na terra e ser coberto e ter que se controlar pra não se jogar junto. A dor maior do mundo é isso: é ouvir a voz dela na minha cabeça 24h por dia e saber que nunca mais vou ouvir essa voz nos meus ouvidos; é não poder abraçar ela, beijar ela, bater na bunda dela, apertar o nariz dela; é dormir e descobrir que a minha cama (nossa cama) é enooorme sem ela e que é horrível não levar nenhum tapa, nenhum chute e não ouvir nenhuma fungada durante a noite; é colocar o porta retrato dela pra dormir; é colocar só 4 lugares na mesa; é assistir um filme e ter uma crise de choro pq ela não viu e não vai poder ver; é lembrar dela em tudo e ver que não existe um futuro para nós; é não ter com quem dançar gafieira e thriller, não ter com quem jogar stop, pega-varetas, adedanha; é não ter com quem ser criança; é não ter graça pra mais ninguém e perceber que só ela ria das minhas besteiras; é não ter quem sente na minha barriga qdo a cólica é forte; é não ter quem tente me ensinar a dançar axé.... É tudo isso e muito mais. 

Cura? Não há. Não tem remédio, tratamento, cirurgia, nada. A dor maior do mundo é pra sempre, te acompanha, diminui e aumenta, mas vai estar sempre em você.

(texto de 16 de maio de 2005... dor de sempre...)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Eu vejo flores em você...




Eu espero que, como boa irmã mais velha, eu tenha ensinado algo pra Bruna. Eu sei que aprendemos muitas coisas juntas - dessas, a mais divertida, foi dançar Thriller. E eu sei, tb, que eu aprendi muito com ela. 

Uma das coisas mais legais que eu aprendi com ela, tem a ver com flores. Eu sempre achei flores um troço inútil. Pra que dar flores, ganhar flores, etc? Flores murcham e vc tem que jogar no lixo. Só que, com a Bru, eu aprendi que as coisas não precisam durar pra sempre pra serem especiais. Eu aprendi que as flores são legais, pq são lindas, independente do tempo em que elas serão lindas. E aprendi que não importa se elas vão murchar, pq você sempre pode tirá-las do vaso, plantar em algum lugar e vê-las renascendo e crescendo. Como a força e a esperança das pessoas. Sempre renascendo e crescendo. 

E hoje, eu até compro flores, sem pensar em momento algum o quanto elas vão durar.

Thanks por mais essa lição, little flower!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

a saudade é um troço horrorível




São as coisas bem pequenas, que a gente nem imagina que possam fazer tanta falta, que deixam mais saudade...

O formato exato do nariz dela, que eu ainda sinto na minha mão...

O barulho irritante que ela faz com o nariz e me deixa louca...

A textura do cabelo dela...

O peso do corpo dela quando ela se joga em cima de mim no sofá...

A cara de pedinte que ela faz quando quer brincar de alguma coisa...

O jeito como só ela sabe conversar sobre música pop...

O modo que só ela imita a tal da avaiana de pau...

A posição dela dormindo...

A cara de sono, com um olho só aberto...

A cara de interesse que só ela faz quando eu conto alguma coisa nada a ver que aprendi num livro...

As risadas que só ela dá ouvindo a história da lagartixa que queria virar jacaré pela centésima trigésima vez...

O fato de só ela saber que poder, pode, mas tem que se comportar...

A cara de passada que só ela sabe fazer, com olhão arregalado e tudo...

A voz dela dizendo "Ah, muleeeeeeeque!"...

O sorriso dela...

A risada dela...

O modo como ela ri e fala, tudo ao mesmo tempo e, de repente, solta um "que tadinho(a)!"...

As batidas na madeira quando alguém diz L-Ú-C-I-F-E-R....

O jeitinho que só ela sabe dizer Tata....


(originalmente publicado em 17 de julho de 2005. mas a saudade não muda...)

domingo, 9 de dezembro de 2012

Eu acredito em amor a primeira vista




Eu acredito em amor a primeira vista. Pq, certeza absoluta, já aconteceu duas vezes comigo.

A primeira em outubro de 1985, quando eu pequena e magrela (e de vestidinho e laço no cabelo) entrei no hospital de Alta Floresta segurando na mão do meu vô. Lembro da minha mãe na cama, segurando um embrulhinho. E lembro que eu pedi pra segurar o embrulhinho. Aí meu avô me mandou sentar e colocou o embrulhinho no meu colo dizendo "Ela não é boneca, hein, Tata. Cuidado!". E eu segurei o embrulhinho e vi o que tinha dentro. E, na hora que eu vi – bang! – me apaixonei perdidamente. 

A segunda vez foi em maio de 1989, quando minha mãe sumiu barrigudona e demorou pra voltar. Eu fiquei na casa do meus avós, estressada pq ela não chegava. E aí ela chegou. Lembro de eu e da Dani esperando o elevador subir – e aquele elevador nunca demorou tanto. E de repente a porta abriu. E minha mãe trazia um embrulhinho. Outro! E todo mundo se jogou em cima, louca pra ver o que tinha dentro. Quando eu finalmente consegui ver o embrulhinho, vi que era igual ao que eu tinha visto há 4 anos: uma coisinha pequena e feiosa. A única diferença é que essa coisinha tinha um triângulo na testa. E, por mais absurdo que pareça, - bang! – eu me apaixonei por outro embrulhinho. 

No fundo, eu acho que eu tenho uma queda por embrulhinhos....

Fora isso, eu acho que logo que cheguei no mundo, quando, suspeito, eu tb era um embrulhinho, também rolou esse amor eterno a primeira vista. Mas minha memória tb não é tão incrível e eu não lembro dessa parte... 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Eu sou prosa, ela é poesia




Por muitas vezes tento fazer poesias sobre (e para) a Brú. Mas elas não saem! Já fiz muitas poesias em minha vida, todas falsas e medíocres. Sou a vergonha de Drummond, Quintana, Pessoa. Cada verso, cada rima é uma mentira e não tem um pingo de mim. E por isso eu não consigo escrever! Pq, por mais que a Bruna seja pura poesia, eu não sou. A Bruna é um todo poético, um universo de hipérboles e eufemismos, um emaranhado de clichês e beleza. Ela é o cabelo da cor da noite, os olhos que brilham, o sorriso que ofusca. Ela é todo o exagero romântico dos poetas, o oito ou oitenta, o tudo ou nada. Ela é a profusão de sentimentos e qualidades: o amor, a felicidade, a alegria, a simplicidade, a autenticidade e tudo mais. Ela é todas as palavras encontradas em montes de versos pelo mundo inteiro: princesa, anjo, lua, sol, estrela, sonho, saudade... A Bruna, pra mim, é um verso de Quintana: simples, quase infantil, pleno, puro, ingênuo, forte e lindo. E a Bruna é parte de mim... E, como eu disse antes, minhas poesias não têm um pingo de mim. E eu sei que ela entende isso...

Eu? Eu sou prosa...

(originalmente publicado em 08 de setembro de 2005. continuo sendo prosa.)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O joystick divino


O grande problema de viver é que não vem com manual de instruções. Deveria. Pq atualmente eu tô achando que tudo é um enorme vídeo-game e nós somos os Alex Kids daquele cara (Deus, destino, a Força, Alá, chame como preferir). Não sei se a gente já veio de uma fase anterior ou essa é a primeira. Imagino que o objetivo seja acumular pontos. Obstáculos e o modo como você os encara geram tantos pontos. Positivos ou negativos. Se alguém te sacaneia e você manda matar essa pessoa, vc perde milhões de pontos. Se vc tem uma conversa sincera com a pessoa, dizendo como se sente, ganha pontos. Se vc perdoa essa pessoa de coração ganha infinitos pontos (mas eu acredito que poucas pessoas consigam desempenhar essa tarefa). E assim vai... Ações espontâneas tb podem te garantir ou te tirar pontos. Se vc chuta um gato do nada - bam! - menos pontos. Se vc dá um presente só pra ver a felicidade de outra pessoa - pim!! - mais pontos. 

Pode ser também que tenham existido fases anteriores e que a gente já venha delas com um número X de pontos, que varia de acordo com a pessoa.

De qualquer modo, existe uma hora da nossa vida nessa fase que a gente junta um número absurdo de pontos. E aí acabou. Não tem mais o que juntar. E você pode e deve passar pra outra fase; talvez zerar o jogo e chegar a um estágio estilão paraíso (ou castelo do Mickey com direito a encontro com a Minnie). É nessa hora que você fica doente. Sofre um acidente. Alguém muito do mal te dá um tiro. E seu coração pára. 

E aí eu fico me perguntando como é que a Bruna conseguiu juntar esses pontos tão rápido....

(texto de agosto de 2005)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

R-E-S-P-E-C-T 2




Sete dias se passaram desde a última posição que tivemos sobre meu post anterior. Sete dias que poderiam parecer pouco, diante de sete anos de dor e saudade, mas que são uma eternidade. Ou sete eternidades, se existe algo assim.


Há sete dias, o que tínhamos era: o caixão da minha irmã continuava no mesmo lugar de sempre - mesmo com várias pessoas que trabalham no cemitério e na administração dos cemitérios da cidade afirmando o contrário, mesmo com documentação afirmando o contrário - , mas haviam colocado outro caixão em cima, há cerca de 2 meses. O tal procedimento que pro cara que manda nos cemitérios da cidade é normal, pra minha família toda e pras pessoas todas que conhecemos é surreal, pra mim é um absurdo e a gente pode chamar de "puxadinho de túmulo".  Algo que parece saído de um livro do Garcia Marquez, mas está acontecendo DE VERDADE numa cidade do interior paulista. 


A solução? Já tínhamos! Ou melhor, a administração do cemitério já tinha. Iam tirar o caixão da minha irmã pela lateral. Uma gambiarra no puxadinho! Genial, só que ao contrário. Aposto que quem leu pensou a mesma coisa que todos nós pensamos: mas o caixão de cima não vai desabar com tudo? Só que, óbvio, isso não era problema pra administração do cemitério. Ninguém da administração do cemitério  é da família do morto do caixão de cima, então, ninguém estava se importando com a possibilidade do caixão dele desabar. Tenho, aliás, algumas hipóteses em relação à galera da administração do cemitério...  1. Eles não têm família; são todos órfãos abandonados ao nascer e que cresceram sem amor, atenção e afeto e, por isso, não entendem nada sobre o processo de luto de uma família (o que não os qualificaria como as pessoas mais indicadas pra trabalhar nessa área, não?); 2. Eles e todos os familiares deles são imortais, então, não aprenderam a lidar com a morte (e, de novo, esse é o tipo de gente certa pra cuidar de cemitérios?) e 3. Eles são todos da família da Marlene e não têm coração, como ela (e, aqui, não vou repetir a pergunta, pois já concluímos que seja lá quem está administrando o cemitério, não deveria estar fazendo isso).


Então, passaram-se sete dias em que NINGUÉM - repito: NINGUÉM - entrou em contato conosco, para nos posicionar. A única coisa que sabíamos era que a família do vizinho - a tal lateral por onde eles tirariam o caixão - havia pedido 10 dias para fazer a exumação e, assim, liberar o espaço pra que o procedimento escolhido fosse adotado. Mas a gente podia ficar tranquilo, pois eles estavam pressionando a família pra exumar logo, pra gente não esperar 10 dias. Como, galerinha do cemitério, como a gente pode ficar tranquilo sabendo que, na tentativa de amenizar nossa dor, vocês estão causando tamanha dor à família do vizinho? Tudo que estamos fazendo, agora, é no intuito de que nenhuma outra família passe pelo que estamos passando e é justamente o que vocês fazem?


Aí, cansada de esperar, a Sra. Melhor Mãe do Mundo (que é a minha mãe, no caso) entrou em contato com eles. Pra ouvir que eles entraram em contato com engenheiros da Prefeitura que, após análise, concluíram exatamente o que a gente falou logo no início: o caixão de cima ia desabar e a família do morto de cima não ia gostar disso. Então, após conversar com o Jurídico, eles tinham duas opções maravilhosas - só que não - para nos oferecer: pedir judicialmente que a família de cima - enlutada há dois meses, ressalto - autorize a retirada do caixão de cima -sendo que essa solicitação estaria em nome da minha mãe e, a partir daí, ela se tornaria a responsável total e teria que responder judicialmente caso a outra família reclamasse, enquanto a Prefeitura se isentava por completo - ou aguardar 3 anos pra que o morto que supostamente está em cima seja exumado. E o que eu me pergunto é que espécie de idiota eles acham que a gente é pra imaginar que a gente ia ficar super satisfeito com essa resolução. 


Erro em cima de erro em cima de erro em cima de erro...


O que eles devem imaginar, já que não têm coração e vivem de procedimentos,  é "Ah, o que são três anos pra quem já está lidando com essa dor há sete?". Quem, tendo um coração, conseguiria viver três anos carregando essa dúvida? E quem vai conseguir dormir tranquilo sabendo que outra família vai ter que lidar com essa dor?


O que eles querem é que a gente aguarde 3 anos. Por um motivo bem simples. A "responsabilidade" é da Prefeitura. Em 3 anos, teremos outro Prefeito e uma equipe inteira nova. Ou seja, quem tá aqui agora, quem errou agora, vai se isentar da responsabilidade sobre o caso. E, aliás, estamos em um ano político e ninguém quer nenhum bafafá em torno disso agora, podendo prejudicar quem quer o poder, podendo interferir na opinião pública. 


Só que eu tenho um coração e ele é como o do Saramago: de carne e sangra todos os dias. Por isso, não aguento os três anos. Por isso, não tô ligando a mínima pro ano político (aliás, eu anulo meu voto todo ano mesmo, esperando que, um dia, o que Saramago descreve em "Ensaio sobre a Lucidez" se torne a realidade). Por isso, eu não quero que ninguém mais precise passar pelo que estamos passando e, pra isso, não me importo em prejudicar quem quer o poder e nem em interferir na opinião pública. Por isso, quero o bafafá. Quero mais é que saibam, que comentem. Por isso, exponho aqui, novamente, o que está acontecendo e, mais uma vez, peço que leiam e, se seus corações forem também de carne, compartilhem. 

terça-feira, 29 de maio de 2012

R-E-S-P-E-C-T


Até bem pouco tempo eu era professora de teatro. Uma das minhas turmas tinha um número que variava entre 16 e 25 crianças e adolescentes entre 10 e 16 anos. Entre uma série de atividades que eu planejara e diversos conceitos que constavam do meu planejamento, todo voltado para uma investigação sobre o mundo que eles queriam, me vi tendo que lidar com algo que não era previsto. Falamos sobre respeito em uma das primeiras aulas e, depois, voltamos ao tema e tivemos 3 longas aulas girando em torno do ato de respeitar aos outros e a si mesmo - que acabaram sendo as 3 últimas aulas. E, sim, minha saída do lugar onde era professora tem, também, a ver com respeito; mas, não, nenhum problema com as crianças.


Se tem uma coisa que eu acredito é que as coisas não acontecem por acaso, que esse mundo aqui não é bagunçado. Tudo que acontece tem um motivo, que a gente pode demorar séculos pra saber qual é - ou até nunca saber. Não nessa vida, pelo menos. E, pra mim, o fato de eu ter falado tanto de respeito no último mês estava me preparando pra lidar com uma imensa - IMENSA, com letras garrafais - falta de respeito. Logo vou explicar tudo, mas queria começar dizendo que na sexta, dia 25 de maio, fiz um B.O., coisa que eu nunca fiz antes. E tinha lá os artigos infringidos e tinham a ver, conforme está lá registrado, com "sentimentos religiosos e respeito aos mortos". E é disso que eu sou, agora, obrigada a falar: da falta de respeito aos mortos e aos vivos. Da falta de respeito que chega a ser falta de humanidade. Da falta de respeito que faz a gente acreditar que tá vivendo num filme bizarro com um roteiro muito ruim, pois não é possível que isso seja a realidade.


Há 7 anos publiquei um post, em um outro blog, sobre a dor maior do mundo. Há 7 anos eu fui obrigada a me separar da minha irmãzinha, de uma das criaturas que mais amo, da nossa princesinha que - cedo demais, ao menos pra nós - chegou ao castelo e virou estrela. Ela tinha 15 anos. Era sábado e a gente estava correndo na chuva e dançando gafieira. Eram só duas semanas depois e eu estava num avião que parecia não chegar nunca ao seu destino, sentada ao lado do meu pai, lembrando desse sábado e sem coragem pra perguntar o que eu já sabia: se realmente não dava mais pra gente fazer nada. Se já tinha acontecido. Se ela já era estrela...


7 anos que são 7 milênios de tanta saudade. 


Na época do acidente, acreditem ou não, já tivemos que lidar com muita falta de respeito. Mas a dor maior do mundo faz com que desrespeito pareça algo menor. Ia passar. A raiva em relação a pessoas que queriam se aproveitar da situação, o não acreditar que algumas pessoas possam ser tão baixas e cruéis, a decepção em ver que falta muita humanidade no mundo... Tudo isso passa. Não passa a saudade. 


E, então, foram 7 anos longe dela. 7 anos em que a luta diária era acreditar que longe é um lugar que não existe. 7 anos em que dormir, às vezes, era um ato tão doce, por ser a possibilidade de encontrá-la nos sonhos. 7 anos em que fotos, vídeos, lembranças foram companhia constante de todos que a amam. 7 anos em que uma coisa tão boba quanto um pedacinho de terra adquiriu uma importância enorme. 7 palmos, em 7 anos.


Ela havia manifestado a vontade de ser enterrada em um cemitério desses que são um longo campo. Vontade besta! Tão nova, pra que pensar nisso? Pra que, pouco depois, fosse feita a sua vontade. Pra que, aos prantos, víssemos aquela "coisa", que continha seu corpo - seus longos cabelos, seus olhos de vírgula, seu nariz mais lindo do mundo, sua pinta do ladinho do dedo da mão - descer 7 palmos e ser coberta de terra. 


Coisa triste visitar alguém num cemitério. Nem todos os anos limpando com limão os túmulos da minha vó e da minha madrinha me prepararam pra isso. E, certamente, era o que toda minha família sentia. Falta de preparo. Na busca por uma forma de conseguir lidar com aquilo, buscamos inspiração na nossa florzinha pra saber o que fazer: transformar num grande jardim. Um jardim praticamente encantado. Flores, muitas flores! E anjinhos, bonequinhas, pedrinhas, fitinhas, lembranças... até o Harry Potter estava lá. E uma placa linda, com o nome tão lindo, com a data em que a gente ganhou ela de presente e - capricho nosso - ocultando a data em que as estrelas ganharam sua Princesa. Princesa Estrela. Um jardinzinho cuidado com muita dedicação e amor pela melhor das jardineiras: minha mãe. Que também é - não canso de repetir - a melhor mãe do mundo.


Foi essa mesma jardineira que, prevendo o momento em que o que lá estava deveria ser retirado, foi até à Administração do Cemitério. A gente acha que o pior momento é o em que a terra cobre, mas esquece que vem um ainda pior depois... Quando a terra precisa ser retirada. Exumação. Palavra que assombra. Que assusta. A moça da Administração, sabendo respeitar a dor de uma mãe, disse que ela podia ficar tranquila, pois seria avisada com bastante antecedência da exumação, teria tempo de se preparar. Não seria ela a fazer? Algum membro da família que mora longe, em outro Estado? Não, não se preocupe... O aviso é feito com muita antecedência. Ela ia confirmar todos os dados, pra não ter problema. Endereço, telefone, celular, o celular da filha - o meu celular. Ela não queria comprar um jazigo, ali, no mesmo cemitério, para ser feita a transferência do caixão? Ela teria o jazigo até 2018 e ainda era duplo! Era uma garantia a mais... E, assim, ela pagou em 10 parcelas os quase R$1700,00 que garantiriam a sua segurança. Era 2008, 3 anos haviam se passado e ela estava comprando mais 10 anos de uma suposta tranquilidade.


O medo do depois continuava rondando a família. Foi por causa dele que perguntamos a um dos homens que trabalhava no cemitério o que aconteceria se a família não aparecesse pra exumação. "Aí a gente não faz. Não pode fazer sem familiar." Insistimos: mas e se, sei lá, a família toda tivesse desaparecido? "Aí a gente tira, coloca tudo num saco, numa daquelas gavetas. Mas marca de quem é, né? Vai que a família volta, procurando!".


Parecia um procedimento tranquilo; se é que se pode chamar de tranquilo algo que te obriga a ver os ossos de alguém que você ama muito e reconhecer, ali, o que restou da pessoa maravilhosa. Mesmo assim, a gente não deixava de temer esse momento. De tentar se preparar, se organizar. E minha mãe, incansável, buscava uma confirmação constante de que seria assim, como lhe garantiam. Ia frequentemente à tal Administração dos Cemitérios, na Prefeitura. Atualizava dados. Perguntava se a data estava se aproximando. A resposta era sempre a mesma: "Nós vamos avisar!".


Na Páscoa desse ano, depois de levarmos flores novas e arrumarmos o jardinzinho, voltando para o carro, falamos de novo na tal da exumação. Eles iam avisar. A gente teria como se preparar. Uma tia viria fazer, ela se ofereceu. Mas, em algum cantinho de mim, eu sabia que não. Eu sentia que teria que passar por isso um dia. E, surpreendentemente, não me causava pânico. Eu estava me preparando pra isso. Há 7 anos.Com a certeza de que, a Princesa, não tinha mais absolutamente nada a ver com o que estava sob a terra. Ela estava muito acima da terra. Acima da Terra, até. Reinando entre as estrelas, todas brilhando menos que ela, Princesa-Rainha.


E foi logo depois que minha mãe comentou. Tinha ido lá. Parecia mexido. Tinham até tirado todas as coisinhas que a gente levou. A placa estava caída, ela teve que levantar e arrumar tudo. Será que era por causa da chuva? A terra parecia fofa... Eles sempre mexem ali sem avisar, não respeitam o que a gente faz. Já tiraram todas as pedrinhas que arrumamos numa decoração tão linda, já arrancaram a grama e plantaram outra, já sumiram com tanta coisa que deixamos ali.. até com o Harry Potter! Era uma enorme falta de respeito... Mas ela reclamaria. 


Voltou e tinham mexido de novo. Tiraram mais uma vez a placa. Ela colocou de novo. Arrumou de novo. Eles não respeitavam, mas ela não desistia. Aí, meu pai foi lá... Encontrou todas as coisas do jardinzinho no lixo. Um absurdo! Ela voltou lá pra arrumar. Não achou nada. Nem a placa com o número do túmulo. Não que ela fosse lembrar disso, óbvio. Era sua filha ali. Não era um número. Enfurecida e cheia de razão, foi reclamar com o homenzinho que estava sempre por lá, que já a conhecia, já sabia da sua história toda. "É melhor a senhora reclamar na Prefeitura...", ele disse. E ela foi. Já era maio, já estava chegando o dia do aniversário dela, os 23 anos da Princesa Estrela e era inadmissível que o jardim dela não estivesse impecável nessa data!


Na Prefeitura, conseguiu chegar à Chefe de Gabinete. Também mulher, também mãe. Ouviu tudo, se emocionou, chorou junto com a minha mãe. E prometeu que cuidaria pessoalmente do caso. Mandou emails, exigindo que arrumassem tudo, exigindo um mínimo de respeito. Copiou minha mãe, mostrando que o responsável estava ciente e seria cobrado.


24 de maio. Quinta-feira. Compramos flores lindas pra nossa Princesa. E fomos para o Cemitério. Na entrada, enquanto eu segurava as flores, minha mãe procurava alguém que lhe informasse sobre as providências que haviam sido tomadas, queria saber como estavam as coisas, pra não ter nenhuma surpresa desagradável. Surpresas desagradáveis é tudo o que temos, desde então. Minha mãe perguntou para um senhor como estava, ele confirmou quem era ela - "a de Alumínio, né?" - e disse "ah, foi exumado!". Exumado. Vi minha mãe indo falar com alguém responsável no telefone, enquanto dois vasinhos de flores caíam no chão, vítimas da minha mão que amolecia.


A responsável, uma tal de Marlene - que não deve ter filhos e nem mãe, pra agir como agiu - confirmou a exumação e começou a explicar mecanicamente procedimentos que não interessavam em nada a minha mãe. Só o que interessava era saber como eles garantiam que avisariam com antecedência e, agora, ela descobria isso, do nada, e bem no dia do aniversário da minha irmã. Isso, óbvio, a Marlene não sabia, mas "se a senhora me deixasse falar, eu estou tentando explicar o procedimento". Minha mãe não a deixou falar, claro. Quem se importa com o procedimento? Ainda mais quando, seja lá qual for o procedimento, ele está contra o procedimento que sempre foi informado: notificar a família e jamais fazer a exumação sem a presença de um familiar.


Não sei como conseguimos chegar na Prefeitura, no estado em que minha mãe estava. Choque, raiva, medo, choro, pressão subindo. Lá, a Chefe de Gabinete entrou em contato com a tal Marlene. Foi exumado, mas não sabe onde está a documentação. Não sabe quando foi. Sim, foi notificado. Ela mandou carta. Não receberam a carta? Mas saiu edital no jornal. No jornal que nunca compramos. Não, ela não ligou. Eles não ligam. É o procedimento. Ela não sabe mais nada, não está anotado no caderninho. Caderninho. Marlene, já te avisaram que estamos em 2012 e os computadores já foram inventados? A ossada? Ela não sabe onde está. Eles não deveriam separar, identificar?... Não era esse o procedimento? Ela não sabe. Tenho a impressão de que Marlene - que não tem filhos, nem mãe, nem coração - estava odiando essa conversa boba, atrapalhando seu jogo de paciência. Com um baralho, mesmo, pois não dá pra jogar paciência no caderninho.


Então, surge um vereador, que conheceu minha irmã. E que acabou se envolvendo na história, do nada. Por, talvez, ser um dos poucos que respeitam a dor maior do mundo que a gente sente. E, juntos - ele, a Chefe de Gabinete, minha mãe e eu - esperamos o tal responsável por tudo isso. Que chega e, além de não apresentar posição e nem solução nenhuma, ainda deixa escapar que, como a gente comprou o jazigo, nem deveria ser feita a exumação, apenas a tranferência do caixão, com a presença de um familiar. Saímos de lá acabados e com apenas uma posição: eles irão verificar. Os procedimentos, os malditos procedimentos!


Toda a família, óbvio, fica abalada. Mexe com a estrutura emocional de toda uma família: eu, mãe, irmã, cunhado, tias, tio, pai... Amigos e conhecidos, quando sabem de tudo, não conseguem nem acreditar que algo tão absurdo possa realmente estar acontecendo. Processo e mídia, é o que todos dizem. E a gente vai revivendo a dor, vai vendo a água que tava quase parando, correndo tranquila com algumas turbulências, virando redemoinho. O pior já aconteceu - há 7 anos; a gente só queria ter nossa dor respeitada. Só queria que procedimentos burocráticos vissem pessoas onde estão vendo só corpos. Soubessem que cada um daqueles "corpos" tem uma família, uma história, uma crença. Sentimento religioso e respeito aos mortos. Pra mim, ela não está ali, aquilo que ali resta não é ela. Mas e as famílias que acreditam piamente que ali está o ente querido? E se fosse com elas? 


E é, também, com elas. É só pesquisar na internet um pouco, conversar com algumas pessoas e lá vêm as histórias: a mulher que foi exumar o pai e encontrou um corpo de mulher, os coveiros que começaram a abrir vários caixões na frente do familiar que procurava alguém, o jazigo que está a venda quando ainda abriga a avó de alguém... Tá tudo errado. O procedimento está sendo seguido, mas será que só a gente vê que o procedimento - que todos os procedimentos, aliás,estão errados?


E eles nos pedem pra não processar, pra não abrir pra mídia... É ano político, pode prejudicar, vão explorar nosso caso e usar como ferramenta política... Caso? Ferramenta? Política? As pessoas precisam saber o que está acontecendo. Precisam saber o caos que reina nesses cemitérios. Pra que ninguém mais tenha que enfrentar o que nós estamos enfrentando. Pra que procedimentos corretos e respeitosos sejam adotados.


Meu cunhado foi na sexta (26/05) até o cemitério. Viu a documentação da exumação. Orientados por uma advogada, fizemos um B.O. O tal que falei logo no início. Conversamos muito, tentando definir o que faríamos. E estávamos nesse ponto quando apareceu a novidade: mesmo com todos os indícios dizendo o contrário, a exumação não ocorreu. 80% de chance de não ter ocorrido. Aliás, 90%. O que aconteceu é que, realmente, era pra terem exumado - mesmo sem a presença de familiar e sem notificar a família - mas, aí, só colocaram um outro caixão em cima. Isso é normal, hoje em dia. Não existe mais a coisa de 7 palmos, que tinha antigamente. É um procedimento normal. Ok, que mundo surreal é esse em que viemos parar que fazer um puxadinho no túmulo de alguém é considerado um procedimento normal? Cadê o respeito? A suposta exumação data de 20 de março. Ou seja, há mais de 2 meses minha mãe está levando flores pra um desconhecido, enquanto uma outra família visita seu morto e a minha irmã junto? Duas famílias desrespeitadas, duas dores desrespeitadas. E a gente se vê obrigado a torcer muito pela hipótese do puxadinho, pelo simples fato de parecer menos pior do que imaginar que os restos mortais da nossa Princesa estejam em um lugar desconhecido e nunca mais sejam encontrados. E a gente se vê obrigado a perder o sono, a chorar, a sofrer, a reviver o passado e a se preparar de forma absurdamente rápida para uma exumação às pressas, que - talvez - ponha fim a esse pesadelo. 


E a gente se vê desrespeitado. Completamente desrespeitado. 


E eu, ao menos, me fortaleço lembrando que, pelo menos pra 25 crianças, eu consegui ensinar o que é respeito. Pois o mundo que eu quero pra mim é um lugar onde as pessoas se respeitam. Onde a dor é respeitada. Onde a memória é respeitada. E onde os procedimentos são substituídos por humanidade.

sábado, 8 de janeiro de 2011

I carry your heart with me

I carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

(I carry your heart with me - e e cummings)

(pq eu carrego muitos corações no meu.)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Mãe é mãe


- tira a mão da boca!
- a mão é minha e a boca é minha!
- você é minha filha e eu mando em você.

(fim de discussão; tiro a mão da boca)