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quarta-feira, 1 de maio de 2013
Eu li num livro 29
Livro: Carmen Miranda
Autor: Luiz Henrique Saia
Doses de sabedoria (e de muito amor):
* Ela possuía o impressionante poder de fascinar. Dizem que não tinha voz, que era até desafinada, mas que, mesmo assim, era gostoso ouvi-la cantar. Certa vez,alguém que escutava uma gravação sua comentou: "Que interessante! A gente não está ouvindo, está vendo. Parece que a cantora está dentro da vitrola!".
* Havia restrições quanto à voz de Carmen, fato que pouco importava por ser ótima intérprete. Clownesca, maliciosa, picante e contagiante, ela sabia dar seu recado com humor e muita bossa. (...) É verdade, sua voz não era lá maravilhosa, até ardida, diriam uns.
* Vestindo suas baianas e usando seus trejeitos extravagantes, Carmen atendeu às necessidades que tem o povo norte-americano de consumir o exótico.
* "Só uma cantora está no nível de Carmen Miranda: Elis Regina. As duas partilham uma vivacidade, verve, uma intensidade que me parecem entorpecidas sob baianismos e outras forças estranhas." (Paulo Francis)
* "Ela tinha muita presença, muita personalidade, apesar de desafinar." (Joubert de Carvalho)
* Carmen retornou várias vezes à Argentina e, em 1935, tem conhecimento de uma jovem atriz chamada Eva Duarte que, apaixonada pelas suas apresentações, ia todas as noites em seu camarim fazer eloquências e até descobriu o endereço do apartamento de Carmen, que muitas vezes ficava irritadíssima com tal presença constrangedora. A futura Eva Peron era tão fanática que tornava-se inconveniente.
* Sonja Henie (patinadora alemã importada por Hollywood) usa uma roupa de baiana que ganhou de presente de Carmen em uma festa a fantasia em um navio e turistas a aplaudem histericamente, gritando "Carmen", "Samba". Ela ganha o 1º prêmio no concurso de fantasias e o empresário americano Lee Schubert (amante de Sonja) contrata Carmen e a leva pros EUA.
* "Não estou entendendo nada. Como é que esses gringos gostam de uma coisa que não entendem? (Carmen, após seu 1º show na Broadway)
* Os diretores sempre a deixavam atuar como achasse necessário. Carmen não queria (e nem precisava) que ninguém a dirigisse.
* Oito meses após sua chegada, uma pesquisa realizada em Nova Iorque apontava-a como a terceira personalidade mais popular da cidade, fazendo frente até ao famoso prefeito Fiorello La Guardia. Em 1946, no apogeu da carreira, considerando todas suas atividades, foi a mulher mais bem paga nos EUA.
* No cinema, era sempre a coadjuvante que roubava a cena (teve até uma cena inteira cortada de "Scared Stiff", por ordem de Jerry Lewis, por causa disso).
* Lojas da 5ª Avenida começaram a vender trajes inspirados em seu visual: saias rodadas multicoloridas, balangandãs nos braços e pescoço, turbantes enormes enfeitados com frutas e flores, tamancos de saltos altíssimos, brilho fulgurante de lantejoulas e lamês e as unhas e os lábios vermelho-escarlate.
* "Aqueles decotezinhos... aquele busto aparecendo... a boca e tudo o mais... o pessoal dizia: 'Ih! Mas é real mesmo?'. Porque lá todo mundo é despeitado, né?! O sucesso que fez foi uma coisa impressionante porque eles perguntavam se era real ou postiço." (Aurora Miranda)
* "Posso ainda acrescentar que é muito maior do que se pensa e se tem escrito a influência de Carmen na moda feminina norte-americana." (Mme. Rosita)
* "Como mulher era comportada, séria. Tinha lá seus amores, mas nunca deu margens a disse-me-disse, porque era franca, dava respostas na cara de quem merecia. Daí, ser muito respeitada por todos. Nunca ouvi sequer um comentário a seu respeito, não tinha o comportamento escandaloso de outros artistas da época." (Braguinha)
* "Almirante, eu sou realmente brasileira. Apenas nasci em Portugal." (Carmen)
* Na lápide de sua sepultura foi escrito: "Taí, eu fiz tudo para o Brasil gostar de mim".
terça-feira, 17 de abril de 2012
Diário da Emília - 04/05

É a última vez que eu escrevo. Vou enterrar meu diário no quintal. O Aldo e a Tete acharam ele e leram tudo e ficaram implicando comigo. Eu odeio os dois! Mas eu vou perdoar eles, porque eu ainda vou ser santa. Não vou rasgar tudo, assim, quando eu for santa, vão achar meu diário e ver como eu sofri. E vão contar minha história pra todo mundo...
Adeus!
Emília
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
O deleite e a maldição

Colocar a saia de paetê preto, a que faz barulhinho.
Lembrar da paixão à primeira vista pelo texto, de pensar "meu deus, imagina os figurinos, eu quero"; de ver a paixão crescendo durante a leitura, junto com a vontade de fazer aquilo.
Colocar a blusa branca, com ombreiras.
Lembrar da empolgação inicial, do deslumbramento, de ser a peça que eu queria, de ter pessoas que eu amava na turma; de ter, de novo, minha comunhão.
Colocar a sandália, alta e linda, única.
Lembrar da frustração de ver que aquela peça não era pra mim, pras pessoas que não cantam nada. De entender que ia ser divertido, mas ia ser o semestre em que eu ia ter menos possibilidade de me destacar.
Colocar os brincos brancos. Os colares pretos e brancos. As muitas pulseiras. O anel.
Lembrar da dedicação, da entrega, da comunhão, da amizade, do amor, da paixão. E da raiva, do ódio, do desprezo, da preocupação, do medo, da decepção, do ciúme. De tudo que acompanhou a estrada de tijolos amarelos naqueles seis meses e me levou até ali.
Colocar o turbante. A sombra verde e amarela. Caprichar no batom vermelho. Entrar no palco...
E esquecer! Esquecer de tudo e, por 1 minuto e 11 segundos, ser olhos e bocas bem abertos, ser malícia e inocência, ser mãos e quadris, ser diva... ser Carmen Miranda!
Guardar a saia de paetê preto, a que faz barulhinho. Com a lembrança de, depois de ter desacreditado por tanto tempo e fazer só por diversão, ter feito o que eu fiz de melhor até hoje, ter superado medos e vergonha, ter feito o que eu nunca soube fazer e ter dado mais do que eu sabia que poderia dar.
Guardar a blusa branca, com ombreiras. Com a lembrança dos boatos, dos melhores boatos que ouvi nesse ano, dos boatos que eu não ligo a mínima se eram reais ou não, mas me fizeram crescer.
Guardar a sandália, alta e linda, única. Com a lembrança da aprovação pro festival, de conseguir fazer a cena que eu tanto queria, da minha foto em 5000 folhetos, das sábias palavras da minha querida amiga: "dai a César o que é de César", de ver meu nome e a mesma foto em tão famoso e reconhecido jornal.
Guardar os brincos brancos. Os colares, pulseiras, anéis... Todos os balangandãs. Com a lembrança daquele palco, daquele dia, daquela correria, daquela realização, daquela sensação de estar vivendo o melhor dia da minha vida.
Guardar o batom vermelho (a sombra nem era minha). Com a lembrança da reação de todas aquelas pessoas, em todas as nove sessões. Do brilho naqueles olhos, das lágrimas, dos sorrisos, dos aplausos tão enfáticos. E a certeza da aprovação da família que tanto amo, de amigos tão especiais, dos dois diretores divinos do semestre de formatura, de desconhecidos e até do gênio que escreveu peça tão linda e apaixonante. E a felicidade de ter dividido o palco com a maioria das melhores pessoas que conheci nos últimos cinco anos.
E não guardar o turbante. Deixar ele bem perto, bem visível, pra que eu possa vê-lo todos os dias. E não esquecer que eu posso dar adeus à batucada e me jogar - de joelhos - no melodrama, e continuar sendo - em algum cantinho - um pouco e sempre Carmen Miranda. E Poetisa, e Ponciana, e Maria Rita, e Noêmia, e Lisístrata, e Juliet, e Zabé, e Lindalva, e Sílvia, e Cyndi, e Emília, e Nina, e Luciana...
O deleite e a maldição...
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Diário da Emília - 26/04
A Laurinha mandou um convite pro aniversário dela. No convite tava "Para Tete, Aldinho e Silvinho". A mãe disse que ela deve ter esquecido meu nome, que era pra eu ir também. Mas eu não fui. Eu não gosto de aniversários. Fica todo mundo correndo e gritando e na outra festa da Laurinha tinha até música alta. Eu prefiro ficar em casa estudando, já que logo vão começar as provas e eu quero ter as melhores notas. Foi bom não ter ido na festa. Eu ouvi o pai contando uma coisa pra mãe e, no final, ele disse "Não comente com as crianças". Ele encontrou o pai do Sílvio na rua e ele disse que era pro pai ficar tranquilo que, no Natal, ele vinha buscar o Sílvio. E ia levar pra morar com ele. A mãe disse que ele não ia educar o sobrinho dela direito e o pai disse "Como você é boba. Ele nunca vai buscar o filho, ele não tem dinheiro e não quer trabalhar. E eu não dei nosso endereço pra ele. Eu vou criar esse menino e fazer dele um homem direito!". O pai devia ter dado o endereço. Mas não importa. Eu espero que o pai do Sílvio seja esperto e descubra onde a gente mora. E que ele ganhe dinheiro até dezembro, pra levar o filho dele embora. Vai ser muito legal quando ele vier e levar o Sílvio. É o melhor presente de Natal que eu posso ganhar! Vou rezar pra ele vir! Faltam só 8 meses praquele monstro ir embora! Eba!
Emília
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Diário da Emília - 10/04

Como é que o Sílvio, sendo tão pequeno, consegue ser tão maldoso? Eu acho que ele é mesmo filho do demônio. Hoje, eu e a Tete estávamos brincando e ele pediu pra brincar com a gente. Aí a Tete falou que ele ia ser filho dela e a boneca dela ia ser minha filha. Só que a boneca não faz nada e ele se mexe e finge que chora, aí a Tete ficou gostando dele. Odeio ele! Depois eu chamei a Tete pra brincar comigo e ela disse que preferia desenhar com o Sílvio. Burra! Ontem ela mostrou ele pras amigas dela na escola e elas falaram "Que bonitinho!". Ele engana todo mundo, menos eu. Eu sei que ele só finge que é bonzinho, ele gosta é de causar confusão. Eu só espero que ele não faça minha mãe morrer de desgosto que nem a mãe dele. Eu tirei 10 em redação. O tema era "A Importância da Família".
Emília
segunda-feira, 28 de março de 2011
Diário da Emília - 20/03
Hoje o Aldo me disse que eu era tão chata que era a única que ficava sozinha na escola no recreio. Burro! Eu fico sozinha porque eu quero, porque eu prefiro ficar lendo e escrevendo do que ficar com aquelas pessoas maldosas da escola. Eu vou perdoar o Aldo. A mãe diz que a gente tem que perdoar as pessoas quando elas erram. E eu vou perdoar porque eu sei que não é culpa dele, é do meu primo. Ele acha que só porque não tem família pode roubar minha mãe, meu irmão... Ele finge que é legal, só pro Aldo gostar dele. Ainda bem que a Tete é muito minha amiga. O Aldo também. Os dois me amam muito e o Aldo vai perceber a besteira que fez e me pedir desculpa.
Emília
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
O sonho da Poetisa

A peça era chata. Só pra ler já quase morri de tédio. Natural que não tivesse a menor vontade de fazer e natural que tenha lutado fervorosamente contra. Mas foi ela. Decidida pelo grupo. Destinada por eras. O Sonho. De Strindberg.
E, então, eu sonhei. Com aquela profusão de personagens e aquele elenco gigante, a definição do que eu seria me assustava. Ninguém, era minha única opção. Até o sonho... E eu sonhei. Sonhei que o Poeta era Poetisa. O que seria óbvio: toda a agressividade masculina não combinava com ele. O Poeta era leve, era suave, era alguém que enfrentou milênios de confrontos e ainda sorria, sem ter se rendido à força bruta, usando palavras como armas e a fé na humanidade como munição. Como na música que eu amo, o amor era sua arma mais forte.
E, então, o presente: a Poetisa. Era ela e era minha. Era eu. E, num caldeirão de criação, eu coloquei as duas, lá no fundo. As duas que são uma, que são a mesma. A eterna adolescente e a rainha do submundo. A alegria e a dor. A poesia e o pesar. O branco e o roxo. Uma saltitando, girando, com pés que se reduzem a pontas, conduzindo-a à elevação; outra, com o barro, a lama, com os pés fincados num mundo que é dela e que é belo até nos seus aspectos mais grotescos - simplesmente pq ela assim o enxerga. A menina poetisa e a poetisa menina, existente desde o sempre e renascendo a cada segundo. Coré e Perséfone.
E, no caldeirão, eu joguei bolinhas de sabão. E guizos, e tule, e purpurina, e glitter, e brocal, e marshmallow, e jujubas, e pirulito, e folhas de papel. Dei uma misturadinha e taquei angústia, inquietação, repulsa, aversão. E completei com paixão, com fé, com admiração, com encantamento. E, de lá, surgiu a Poetisa. A minha Poetisa.
E, sem querer, por puro capricho do destino, ela se olhou no pequeno espelho quadrado e viu a maquiagem borrada. E, nesse instante, sob o calor das luzes do camarim, ela se encontrou. A maquiagem borrada, a roupa se esfarrapando, os pés sujos de lama, a sujeira em cada mílimetro de seu corpo. Ela estava destruída por séculos de luta pelo que acreditava, por milênios em que vagou pela terra, querendo que a humanidade entendesse que o amor triunfa a tudo. Olheiras fundas por cada vez que os filhos dos homens julgavam que os poetas nada mais fazem do que fingir e inventar. Olhos de quem chorou por cada injustiça que viu. Mas, ainda maior, o sorriso, o deslumbramento diante do existir, o encantamento em cada banho de purpurina, a paixão pela humanidade.
O Deus criou o homem em uma roda de oleiro - ou em outra coisa qualquer - e eu criei a Poetisa no cantinho mais purpurinado do meu coração.
Sweet dreams are made of this...
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Diário da Emília - 05/03
Eu sabia que o Aldo ia virar amigo do Sílvio. Meninos bobos ficam juntos. Eu falei pro Aldo que o Sílvio não presta, mas ele é burro. Sabe o que ele diz na escola? "Esse é o meu irmão". Aí eu digo "Ele não é nosso irmão. O pai dele é cafajeste e a mãe dele morreu de desgosto" e todo mundo ri. Ri do Sílvio. Hoje o Aldo olhou pra mim e disse baixinho "Você me mata de vergonha. Eu queria que você não fosse minha irmã". Eu contei tudo pro pai à noite e ele bateu no Aldo. Bem feito! E o pai disse que o Aldo tava mudando muito desde que o Sílvio veio pra cá. O pai é o único homem que presta em todo o mundo, tão inteligente... Ah, e os santos também prestam. E os padres. E o Papa.
Emília
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Diário da Emília - 20/02
O Sílvio é muito chato. Ele chora o tempo todo. A mãe colocou um colchão pra ele no nosso quarto e, de noite, ele acorda e fica chorando. Eu falei pra ele que ele é folgado, que ele só faz isso porque ele não vai pra aula e não acorda cedo que nem eu e meus irmãos. Falei pra mãe mandar ele pra escola. Lá, se ele chorar, os meninos batem nele e aí sim ele vai ter motivo pra chorar. Mas a mãe não quer que ele vá ainda, disse que é bom ele ficar mais um pouco em casa e que as crianças podem machucar ele. Acho bonito a mãe ser tão boa. Eu também não quero machucar ele. Ele é menor e não tem culpa de ser quase o filho do demo. Eu até falei pra ele "Não chora, não. Sua mãe tá melhor morta do que aqui, onde seu pai trouxe desgraça pra vocês". Eu sou boazinha com ele, porque eu vou ser santa. Mas eu queria que ele fosse morar com o pai dele que é igual ele. Ele é pervertido. Saiu do banho sem roupa, na frente da mãe e da Tete. E ele diz que a comida da mãe é ruim, que a da mãe dele que era gostosa. E ele não reza antes de dormir. E ele fez xixi na cama, ficou um cheiro horrível e ele chorou de novo. Ele tinha que ir prum orfanato, onde fica criança que não tem família. Mas a mãe disse que nós somos a família dele. E que, não importa como, ela vai fazer ele aprender e obedecer. O pai disse que, se precisar, bate nele pra ele aprender. Bem feito! Tomara que ele apanhe tanto que aprenda a não chorar e deixe a gente dormir. E tomara que o pai dele venha buscar ele! O Aldo disse que queria que ele ficasse e fosse o irmão dele. Idiota! Eu não deixo nem ele brincar com a gente na rua, falo que só pode brincar quem tem mãe.
Emília
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Diário da Emília - 18/02
Hoje eu acordei e a mãe tava chorando. Aí o pai contou que a irmã dela, a tia Marta, tinha morrido quando o filho ia nascer. Eu acho que foi porque cortaram a barriga dela e ela sangrou muito, mas o pai disse que era castigo, que ela tinha desrespeitado as leis de Deus. Agora eu não vou poder ter uma prima pra brincar comigo. Mas o pai disse que era menino e menino eu não gosto mesmo, nem ligo que tenha morrido. Ele também morreu, parece que era doentinho. A gente vai viajar depois do almoço, por causa do velório e do enterro. O primo vai morar com a gente. O pai não queria, disse que era pra deixar num orfanato, pois ele é impuro e é filho de pecadores. Mas a mãe disse que é o único sobrinho que ela tem e que é dever dela cuidar dele. Eu não queria que ele viesse pois aí vão ser dois meninos. Ele não pode dormir com a gente, porque ele não é irmão. Vou falar pra mãe colocar ele na sala.
Emília
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
JULIET POWELL

Quando minha mãe estava grávida de 8 meses, meu pai levou-a ao circo. Ela sempre foi apaixonada pelo circo. Quando criança, sonhava em ser mágica. Já jovem, sonhava em se apaixonar por um belo trapezista e fugir com o circo. Mas se apaixonou por um filho de fazendeiros que, pelo menos, a levava ao circo. E, nesta última vez, meu pai se apaixonou. E fugiu com o circo. Não pelo trapezista, mas pela mulher barbada. Eu acho que é aí, nesse ponto, que começou minha trajetória.
Eu cresci ouvindo essa história. E sendo amedrontada pelas coisas mais absurdas. As crianças têm medo do bicho-papão; eu chorava imaginando que, de dentro do armário, sairia o bicho-papai. Para me fazer dormir, minha mãe não cantava a música do "Boi da Cara Preta" e, sim, do "Homem que faz Careta". Meu mundo era eu e minha mãe e o medo dos homens.
Na escola eu fui obrigada a conviver com meninos. Eu tentava ficar longe, pq eles eram tão sujos e nojentos e logo me machucariam, já que, na minha cabeça, era só o que eles sabiam fazer. Mas aquelas professoras teimavam em fazer grupos com meninos e meninas. E isso me deixava nervosa. Inicialmente, eu chorava. Logo, começava a gritar. Chamaram minha mãe na escola, contaram dos ataques histéricos e ela me prometeu que encontraria uma forma de me proteger. Enquanto isso, eu usava o que tinha para me defender: lápis com pontas afiadas, tesouras, jatos de cola nos cabelos deles... Alguns cortes e muito sangue e choro depois, fui convidada a me retirar da escola. Minha sorte foi que, nessa mesma semana, minha mãe havia conseguido uma vaga para mim em um internato. Só para meninas!
Foram anos incríveis: brincadeiras na escola, amigas fantásticas, finais de semana com a mamãe... Foi nessa época, também, que descobri o cinema e me apaixonei, jurando que aquela seria a única paixão da minha vida.
Só que tudo tem um fim, até mesmo as coisas boas. E eu tive que sair do internato. Apaixonada por cinema, resolvi fazer faculdade de Cinema. Minha vontade era trabalhar com edição depois de formada. Mas os problemas não demoraram a aparecer... A faculdade tinha professores, alunos, funcionários... Todos homens! E eu tinha raiva, medo, nojo. Matava aulas pra chorar no banheiro. Só naquele momento eu percebi que algo não estava certo, que eu precisaria aprender a conversar com homens, pois eles estavam em todos os lugares.
Tranquei o curso. Eu sabia que o avanço seria lento e trabalhoso. Logo depois, decidi sair da casa da minha mãe e dividir um apartamento com uma amiga de tempos de internato, a Linda. Eu tinha essa noção de que muito do que eu era, era influência da minha mãe e que a distância dela me faria bem. Por maior que seja meu amor por ela, a gente precisa cortar de verdade o cordão umbilical para crescer...
Nessa época, comecei a fazer terapia. A Dra. Riggs era uma mulher incrível e me fez descobrir tantas coisas e entender melhor muitas outras.
Depois de um ano, consegui voltar à faculdade, sem precisar correr e me esconder no banheiro cada vez que um homem se aproximava. Com o tempo, conseguia até conversar uma ou outra coisa com os rapazes da minha turma.
O que eu ainda não entendia era a necessidade de construir um relacionamente com um cara. Eu via a Linda sofrendo por causa do namorado que a traía, chorando pela casa. E todas essas personagens de filmes sofrendo tanto também... Claro, quando tudo estava bem no namoro, Linda vivia radiante, como se o mundo fosse perfeito e tudo fizesse sentido; mas, valeria à pena? E eu ainda tinha nojo de todo esse contato físico, essa troca de salivas e corpos se tocando... Mas os beijos no cinema eram tão emocionantes, tão bonitos... E me deixavam tão feliz... E se...? Bom, eu tinha vontade de abraços, confesso. De longos e apertados abraços. E de mãos dadas. Era algo tão sublime... uma mão segurando outra, dando apoio, suporte, carinho; tudo com um gesto tão simples.
E, então, a Linda terminou o namoro. De vez. E resolveu que era hora de nós duas procurarmos diversão. Eu entendi que ela me incluísse na procura, a necessidade de ter uma amiga por perto. E diversão... Bom, nada de errado em irmos ao cinema ou ao teatro, certo? Errado! A ideia de diversão dela era bem diferente da minha.
E, então, começamos a ir a festas. A muitas festas. Um ambiente assustador, muito barulho, pouca luz... Até que, um dia, ela me convenceu a beber um gole de cerveja. Que se transformou em uma garrafa. E logo eu estava dançando a Macarena com um grupo de pessoas muito animadas. E então, lá veio a Linda dizendo "Juliet, querida, que tal uma tequila?" e, bom, que mal havia em um pouco... ehr, meia garrafa... quer dizer, quase uma garrafa inteira de tequila? Lembro de algumas danças um pouco exageradas. Algumas incluíam uma coisa semelhante a se esfregar em rapazes, mas eram só danças, né? E eram divertidas. E não me pergunte como eu fui parar em cima daquela mesa fazendo uma singela interpretação de "Like a Virgin", enquanto todas aquelas pessoas gritavam meu nome. Aliás, nem me pergunte como eu sabia uma dança que incluía movimentos tão peculiares.
Enfim, essa histórica festa foi tão boa que dormi no sofá mesmo (e, não, até hoje não sei de quem era aquela casa). E acordei. Ao lado de Tom, um simpático rapaz de cabelos muito pretos e olhos muito azuis, que me abraçava de uma forma muito agradável. E John, que tinha olhos muito pretos e cabelos muito azuis (e eu juro que isso não foi efeito da bebida), e segurava minha mão. Linda me esperava para irmos embora. Ela e um cara muito magro, de óculos e nariz grande, que se tornaria seu namorado. Tom e John me disseram que eu era "uma garota muito bacana" na hora da despedida e ambos me abraçaram de uma forma tão gostosa... E, então, me beijaram. Com as línguas e tudo. E eu gostei.
Nunca mais vi o John. Vi muito o Tom durante alguns dias (de muitos abraços, beijos, línguas... e muito mais!) e até hoje somos amigos. Mas sou eternamente grata a ambos, pq eles me curaram.
Na semana seguinte, saindo da terapia, encontrei o marido da Dra. Riggs, o Sam. Ele deve ter a idade dela, um cara mais velho, mas ainda muito bonito. Almoçamos juntos naquele dia, ele me contou da falência do casamento, do quanto era infeliz, das amantes e do quanto ele queria se apaixonar de verdade. E, então, me disse que tinha um apartamento onde se encontrava com uma das amantes e me convidou para conhecê-lo. Eu fui e, bem, ele conseguiu se apaixonar de verdade...
Gosto muito do Sam. Ele é um cara divertido, uma boa companhia. E ele me fez entender a importância de uma relação homem/mulher. E a importância do corpo como um todo nessa relação. Graças ao Sam hoje eu mantenho relações saudáveis (e deliciosas) com o Tom. E o Tim, o Edward, o George e o Pablo. O Sam sempre fala em casamento. Eu sou a favor de deixar as coisas acontecerem. Estou feliz assim. E sou tão nova... E só de pensar em me afastar de todos esses amigos, por ciúme do Sam... Não, eu quero exatamente como está.
Ah, e eu parei a terapia.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Diário da Emília - 16/02
Eu odeio os meninos! Eles são tão idiotas! Eu e a Tete somos muito mais inteligentes que o Aldo, por exemplo. A mamãe deve agradecer muito por ter 2 meninas e só 1 menino. Os meninos da escola são os piores. Hoje, no recreio, eles ficaram me chamando de quatro-olhos e de santa do pau oco. Eu disse que eles não tinham educação e iam ser castigados e eles riram. E falaram "É melhor não ter educação do que não ter amigos". Eu TENHO amigos! Eu tenho meus irmãos e meus pais. Eu disse que ia contar pra diretora e eles falaram "Então conta isso também!" e aí o Pedro e o Toninho me seguraram e o Luiz Otávio levantou minha saia. Todo mundo viu minha calcinha e riu. Eu fiquei com vontade de chorar, mas segurei e fui contar pra diretora. Ela suspendeu os 3 por 1 semana. Devia ter expulsado eles. E todos os meninos da escola. Odeio eles!
Emília
sábado, 21 de agosto de 2010
Diário da Emília - 10/02
Minha redação foi a melhor da sala e eu li ela na frente de todo mundo. Algumas pessoas invejosas implicaram comigo e falaram que eu era CDF. Eu perguntei o que era isso e o pai disse que era uma besteira muito grande e que eu não deveria saber. Eu vou perguntar depois pro Aldo, meninos sempre sabem besteiras muito grandes. A redação era pra ser sobre a vida de alguém que a gente admirava. A Ruth também tirou 10 e ela fez sobre uma dessas atrizes que ela gosta, americana. Eu não achei justo. Minha mãe disse que era pra eu fazer de alguém bom e que tivesse se preocupado com a Humanidade. Aí eu perguntei pro Padre João qual era um santo muito bom, que eu pudesse escrever sobre a vida dele. Ele disse que eu era uma boa menina e falou "Você deveria escrever sobre a Santa Emília, ué?". Eu nem sabia que ela existia! Tomara que não seja pecado não saber sobre uma santa que tem o mesmo nome que eu. Aí eu pesquisei e descobri que ela era francesa e foi criada pela vó e o nome todo dela era enorme. Vou copiar: Marie Gillenette Emilie de Rodat. Ela nasceu em 1787. Acho que nem a mãe era nascida nessa época. Nem a bisavó Emília, talvez. A Santa Emília era professora antes de ser santa e ela era muito inteligente e estudiosa. Ela também cuidou de crianças pobres com o dinheiro da família dela e fundou uma escola. Aí ela foi fazendo um monte de escolas e instituições e, no final, fez 38. Cuidou de mulheres, de órfãos, de prisioneiros, de idosos. Ela mesma cuidava dos doentes e eles eram curados com a benção dela. Depois que ela morreu, as pessoas iam visitar o túmulo dela e aconteciam milagres. Aí ela virou santa. A Ruth disse que a redação dela era mais legal que a minha. Ela é muito burra. Quando eu crescer, eu acho que quero ser professora. E santa. Eu vou cuidar dos pobres, dos velhos, de todo mundo. E dos meus filhos também, é claro. Eu sou muito bondosa.
Emília
terça-feira, 3 de agosto de 2010
LINDALVA

Meu pai e minha mãe foram vizinhos desde a infância. Cresceram juntos, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Quando minha mãe fez 18 anos, eles acharam que tava na hora de mudar de vida. Casaram e mudaram pra São Paulo, achando que seriam felizes e ganhariam dinheiro. Ele logo começou a trabalhar como pedreiro. Ela demorou mais, mas conseguiu trabalhar como babá dos dois filhos de uma madame. Tudo ia bem. Mas aí ela ficou grávida.
Depois que Maria Aparecida, minha irmã mais velha, nasceu, minha mãe queria voltar logo a trabalhar, mas ela logo ficou grávida de novo. E aí nasceu a Maria da Graça. Com duas crianças pra criar, seria difícil voltar a trabalhar, ainda mais morando longe da família, sem nenhum conhecido pra tomar conta das crianças. Pra piorar, naquele tempo pouca gente cuidava pra não engravidar. E meu pai também não ia querer. Primeiro, pq ele era religioso e achava que era pecado. Segundo, pq ele queria mesmo era um filho, um menino. E, assim, vieram a Maria da Conceição e a Maria Auxiliadora. E minha mãe, que, quando nova, era alegre, cheia de vida e de planos e chegou a sair de casa escondido pra namorar e ir pra quadra da escola de samba, estava com pouco mais de 20 anos , quatro filhas e grávida de novo. E meu pai, que trabalhou a vida toda, conseguia pagar a comida e olhe lá!
E, então, eu nasci. Antes da hora. Mirradinha. E branca. Meu pai, esqueci de dizer, é negro. Minhas irmãs, todas, mulatas. E eu nasci branquela, igual minha mãe. Todo mundo sempre disse que eu era a cara dele; mas ele nunca acreditou que eu era filha dele. Minha mãe jurava de pé junto que nunca tinha saído com outro homem, mas ele não acreditava. E, quando ele me viu, fraca, quase morrendo, disse "É melhor que morra. Já tenho quatro meninas minhas em casa, não preciso dessa".
Eu passei 2 meses no hospital, num morre/não morre. Minha mãe lá, todo dia, rezando. Meu pai brigando com ela, dizendo que ela tava largando as outras filhas. Foi uma enfermeira que me salvou. Ela não aguentou ver o sofrimento da minha mãe e disse "Pra isso não adianta ficar só rezando. Conheço uma mãe-de-santo que é tiro e queda". No desespero, minha mãe aceitou. Meu pai nunca soube. Mãe Lindalva me benzeu e disse "Morre, não. É filha de Oxalá". Dois dias depois, minha mãe me levou pra casa. E me batizou. Disse pro pai que fez promessa e que eu tinha que chamar Lindalva. E, por eu ser a única que não era Maria, ele teve certeza de que eu não era filha dele.
Ele nunca me deu um presente. Minhas irmãs, mesmo com o pouco dinheiro, ganhavam bobeirinhas dele. Eu não. Eu só apanhava. Quando fazia algo errado. O problema é que ele achava tudo errado. Tudo que eu fazia. Se eu comia pouco, era errado. Se eu comia muito, também. E, às vezes, ele também batia na mãe... Eu nunca ouvi ele dizer meu nome. Só me chamava de “a branca azeda”. Pra minha mãe, dizia “a sua filha”. Pras outras pessoas, “a filha da Mirtes”.
Quando pequena, eu queria tanto que ele gostasse de mim. Com o tempo, cansei. Percebi que não adiantava ser a melhor aluna da escola, ajudar a mãe em casa. Ele continuava me odiando. E me batendo...
Quando eu fiz 12 anos, ele disse pra mãe que não tinha como sustentar 6 mulheres. E me mandou morar no Rio, com minha vó. Nessa época, o vô – que eu nem conheci – já tinha morrido. Os pais da minha mãe, no caso. Os pais do meu pai tinham voltado a morar no Ceará, porque lá era tudo mais barato. Ou eles achavam que era.
Morei 5 anos com a vó. Ela cuidou de mim, como minha mãe cuidava. E era melhor pq eu não precisava dividir a atenção dela com minhas irmãs. Lá eu tinha amigos também. A gente ia pra praia, ia na Igreja. E, de vez em quando, ia pra quadra.
Eu sempre gostei das noites na quadra... Quando fui pela primeira vez, a vó disse “Se o sangue da sua mãe corre nas suas veias, você vai amar. Quando era mocinha, ela saía escondida à noite e ia pra lá”. Ela tinha razão. A bateria, o calor, a alegria daquelas pessoas. Ali, era Carnaval o ano inteiro. E se era feliz. Sempre.
Aí a vó ficou doente. Cuidei dela o quanto podia. Só que ela já era velhinha. E morreu. Eu achei que perder a vó era a pior tristeza. Besteira! Pior foi ter que voltar pra São Paulo, pra junto da mãe, das Marias e do pai. Pior era deixar de ser “a paulista” e voltar a ser “a branca azeda”.
Minha mãe e minhas irmãs pareciam todas a mesma pessoa. Muito magras, sofridas. Todas muito religiosas. Com roupas iguais, as mesmas saias compridas, as mesmas blusas muito fechadas. Todas sem cor. Meu pai estava velho, muito velho. Me olhou e disse “Você virou uma perdida lá ou já tava no teu sangue?”. E começou a xingar minha mãe, por ela ter uma filha como eu. Por causa das minhas roupas coloridas, meu short curto, meu cabelo solto, meu batom, meu perfume. Disse que eu só queria caçar homem. Eu tinha 17 anos e nunca tinha nem beijado um rapaz. Acho até que, por causa do pai, eu tinha medo deles. Eu só gostava de me enfeitar, de ficar bonita.
No primeiro ano, eu apanhei toda semana. A mãe também. Não demorou pra eu descobrir que ele bebia toda noite. E que o dinheiro que sustentava a casa vinha das costuras da minha mãe e não do trabalho dele. Maria Aparecida casou em dezembro e eles foram morar em Minas. Ele era da Igreja.
No segundo ano, ele bebia, chegava em casa chorando, dizia que tinha saudade da Cida e batia ainda mais em nós duas. Comecei a trabalhar no Centro, de garçonete, pra ajudar em casa. Na condução, conheci a Doracy. Um dia ela disse “Você gosta de samba, Dalva? Vou te levar num lugar que é um escândalo”. Me levou pro ensaio de uma escola de um bairro lá perto. Quando a gente entrou, ela me mostrou um rapaz que cantava com toda a alma. Até emocionava o jeito que ele cantava! E ela disse “Aquele é o Bola Sete. É ele que escreve os sambas. Sou doidinha por ele, mas todas essas mulatas daqui são.” Ficamos sentadas numa mesa e lá pelas tantas o tal veio andando em nossa direção. Doracy não acreditava “Jesus, Maria e José! Com tanta mulata quer samba melhor que eu, ele vem falar justo comigo!”. Aí ele me olhou e disse “Não sabe sambar?”. Eu acho que eu fiquei vermelha, eu não tava acostumada a falar com homem, assim. Disse que sabia e ele disse que a gente tava perdendo tempo ali. Fomos, nós três, pro meio do povo. E eu dancei. Fechei os olhos, lembrei de como era feliz quando morava com a vó e sambei. Quando abri, vi que tavam me olhando e perguntei pra Doracy “Fiz algo errado?”. Foi ele que respondeu. “Fez, não. Você é melhor que quase todas as mulheres dessa quadra, só isso.” Doracy disse “É, você até que fez bem.” E aí chamaram o Bola Sete pra cantar de novo. Antes de sair, ele disse “Eu vou casar com você, nêga!”. Doracy quis logo ir embora. No ônibus disse que não tinha gostado e não voltava mais lá. E que Bola Sete era insuportável. Nessa noite demorei a dormir. Eu só pensava numa palavra: “nêga”. Ninguém nunca me chamou assim. E eu gostei muito de ouvir alguém chamando... Mas, sem Doracy, não voltei lá. Doracy encasquetou de ir num forró. Foi péssimo, eu não consegui dançar e eu que não ia dançar com homem nenhum. Ela dançou a noite toda. E quis voltar, e voltar, e voltar. No final do ano, foi a Graça que casou. Com o irmão da Cida. E eles foram morar todos juntos, em Minas.
O pai dizia que agora só tinha metade das filhas dele com ele. Bebia mais, chorava mais. Pra não apanhar, eu saía. E foi numa dessas fugidas que decidi voltar na quadra da escola de samba. Sozinha. Mais de um ano depois...
Botei o pé na quadra e ouvi a voz dele. “Achei que nunca mais ia te ver, nêga. E aí, como eu ia casar com você?”. Bola Sete. Conversamos muito aquela noite. Ele foi gentil, educado. E não parava de me elogiar. Cheguei em casa leve, feliz... e apanhei. Foi assim por 6 meses. Longas conversas com o Bola e surras tremendas em casa. Até o dia em que não aguentei. Ele estava bêbado, pediu uma cerveja, minha mãe disse que não tinha dinheiro, ele deu um tapa na cara dela. E disse “Vai comprar a cerveja, branca azeda”. Eu disse que não, ele levantou para me bater e eu disse “Eu tenho 19 anos e sou a única das tuas filhas que trabalha. Trabalho pra dar comida pra minha mãe, pras minhas irmãs e pra você. Não pra comprar cerveja. Se você encostar um dedo em mim de novo, eu vou pra polícia e ninguém mais come aqui”. Ele me olhou. Só. Com ódio, muito ódio. E disse “Você não é minha filha, vagabunda!”.
Nessa noite, cheguei na quadra chorando. Bola me abraçou e disse que tudo ia dar certo. E eu dancei. Como nunca. Foi nesse dia que beijei Bola pela primeira vez. E foi também a primeira vez que eu beijei. Que estive com um homem.
Quando Maria da Conceição ficou noiva e eu percebi que as coisas iam piorar, disse pro Bola que eu não podia ficar mais em casa. Ele disse “Eu não tenho dinheiro pra gente casar ainda, nêga.” e eu disse que eu não precisava de dinheiro pra ser a mulher dele. Achei bonito ele querer fazer tudo certo, mas não dava pra esperar. Ele foi comigo até em casa, fiz minha mala. Quando tava saindo, já na rua, o velho apareceu. Bêbado. Perguntou aonde eu ia. Disse que ia morar com Bola Sete. Ele disse que não ia deixar e agarrou meu braço. Antes que eu falasse qualquer coisa, o Bola já tava dizendo “Larga minha mulher agora. Ela vai comigo e eu vou cuidar dela como você nunca cuidou”. O velho ainda disse “Se você for embora, não é mais minha filha.” e eu, com um orgulho imenso, disse “Eu nunca fui sua filha, esqueceu?”.
Não vi mais ele. Nenhum deles. Quando voltei pra ver a mãe, dois meses depois, a casa tava vazia. Encontrei Doracy no caminho. Ela não sabia deles e contou, toda feliz, que tava de casamento marcado e que o noivo era da Eletropaulo. Contei que eu também ia casar de verdade com o Bola, quando ele tivesse dinheiro. Ela riu e disse “Ele nunca vai ter dinheiro. E sambista não casa. Logo aparece outra mais nova que você e mais gostosa. Aí que quero ver o que você vai fazer”.
Hoje tenho 25 anos. Nunca mais vi minha família. Quer dizer, minha família agora é o Bola. Doracy tava certa quando disse que a gente não ia casar, com bolo, véu e grinalda. Mas nem precisava disso... Ela errou quando disse que ele me trocaria. Troca, não. Eu sei que o que a gente tem é pra sempre. Dinheiro a gente não tem, mas tem o mais importante: um ao outro. Doracy não casou? Marido da Eletropaulo e tudo. E continua aqui no morro. E eles tão pior que a gente, pq ainda têm dois filhos pra criar. Pelo menos, Deus teve a sabedoria de não dar filhos pra gente. Bola não quer que eu trabalhe e ele ganha muito pouco com os sambas dele. Mas a gente tem o barraco e dinheiro pra comer e pra pagar seu Mané Gorila. Então, tá bom. E eu sei que ele é bom, faz cada samba que até me arrepia. Um dia, a gente ainda vai mudar pra um lugar melhor. E, quem sabe, até ter filhos. Aí quero ver o que a Doracy vai falar, aquela invejosa.
De uma coisa eu sei. Eu já nasci brigando pra viver. E depois briguei com meu pai. Eu não desisto, não me entrego. Sei que a gente não nasceu pra sofrer e tem que ter fé e esperança. E sou filha de Oxalá.
domingo, 4 de julho de 2010
Diário da Emília - 06/02
Eu odeio minha escola. Entrou uma menina nova, mas ela não deve ser boa pessoa. Ela ficou amiga logo da Laurinha - que deu a boneca pra Tete - e da Ruth. A Ruth é a pior menina da minha sala. A mãe dela é divorciada e deixa ela usar batom. A Ruth diz que não quer casar, quer estudar fora do país e ser atriz de cinema. O pai disse que toda atriz é vagabunda (escrevi pequeno pois é uma palavra muito feia, que o pai só fala quando tá nervoso e eu tenho certeza que Deus perdoa ele por isso). Aí essa menina, a Luciana, foi logo ficar amiga da Ruth. E olha que eu fui a primeira da turma a falar com ela, até convidei ela pra brincar comigo e conhecer minha coleção de santos e santas. Mas aí a Ruth foi lá e disse "Você pode ir na minha casa. Meu pai me deu um monte de bonecas dos Estados Unidos. Ele mora lá. E a gente pode usar as roupas da minha mãe". Odeio a Ruth! Ainda bem que tem redação de lição de casa.
Emília
terça-feira, 9 de março de 2010
Diário da Emília - 05/02
Amanhã é o primeiro dia de aula. Eu gosto da escola, a gente aprende muita coisa legal lá. Eu gosto quando a gente pode desenhar e também quando é aula de redação. A tia disse que eu escrevo bem e que eu devia ser escritora. Mas o pai disse que eu tenho que me preocupar só em ser uma boa esposa e uma boa mãe e que Deus há de querer que eu tenha um bom marido, que tenha como me sustentar. Eu gosto de escrever. Será que ser escritora é melhor que ser mãe? A mãe diz que nada é melhor que ser mãe, mas o amigo do Aldo disse pra ele que dói muito quando o bebê sai de dentro da mãe. Eu não queria que saísse um bebê de mim. Acho que dói porque elescortam a barriga pra tirar o neném que tá lá dentro. Uma vez eu caí e cortei o joelho e doeu muito. A Tete disse que foi castigo, porque eu caí quando tava correndo pra casa pra contar que o Aldo tinha batido num menino na rua. Mas minha irmã é uma burra e não sabe que Deus só castiga quem faz pecado e eu não faço nenhum. Eu só faço o que o pai e a mãe ensinaram e eles não ensinam pecado pra gente. Será que a dor de cortar a barriga é maior que a de cortar o joelho? Eu acho que eu prefiro ser escritora... Mas eu vou ser mãe, porque é o que a minha mãe quer. E a Tete é muito estabanada e não vai saber cuidar dos filhos dela, então ela não pode ter filhos, só eu que sou cuidadosa que posso. Mas, mesmo assim, eu quero que tenha redação amanhã. Quando eu tiro 10, a tia me deixa ler na frente de todo mundo e todo mundo tem que ficar quietinho, prestando atenção. E eu adoro quando isso acontece! Tomara também que entre alguém novo na minha sala, lá só tem gente chata, eu não gosto de ninguém. Nem falo com eles! Eles falam besteira, mentem e alguns nem vão na missa. O pai disse que eu tô certa, que eles não são companhia pra mim. Eu vou rezar pra ter alguém decente na minha sala esse ano!
Emília
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Diário da Emília - 10/01
Da última vez eu falei da tia, irmã da mãe. Aí ontem ela mandou uma carta pra cá. A mãe disse que ela tava feliz e animada. E que ela tá quase tendo mais um filho. Ela já tem um, meu primo Sílvio. Mas os dois são filhos do moço que abandonou a tia. Meu pai disse que ele não presta e nunca prestou, que namorou um monte de moça e largou, que nem largou minha tia. A mãe queria passar um tempo com ela, levar um dinheiro e algumas coisas pra ajudar. Mas o pai disse que não pode, que ela escolheu o caminho dela e, se ela passa dificuldade agora, esse é o castigo de Deus por ela ter filho sem nem casar direito. Eu perguntei pra mãe o que era casar direito e ela disse que é na igreja, que a tia casou rápido e escondido de todo mundo e não foi na igreja. A mãe chorou, mas depois disse que o pai tava certo, que ela não podia compensar os erros da irmã dela. A gente só pode rezar pra ela ficar bem e perceber a besteira que ela fez, pra ser perdoada. Eu acho ruim a gente não poder ver a tia e nem nossos primos. Eu queria uma priminha, pra brincar comigo e ser minha amiga. A Tete também podia brincar com a gente. Mas o pai sabe de tudo e o que ele fala é certo. E eu, quando casar, vou casar direito na igreja. Vou fazer que nem a mãe e não que nem a tia.
Emília
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Diário da Emília - 04/01
Eu nem lembrei de contar de mim, da minha vida e da minha família. Minha mãe chama Maria e meu pai, Inácio. Quando eles se conheceram, eles perceberam que era a vontade de Deus que eles ficassem juntos. E aí, por respeitarem a vontade Dele, eles foram abençoados com 3 filhos: eu, a Tete e o Aldo. Mas eu já falei deles e, fora dizer que eles não são educados como eu, não tem mais nada de interessante pra falar dos meus irmãos. Mamãe diz que, quando ela ficou grávida de mim, ela sonhou que a vó dela, que já tinha morrido, dizia que ela ia ter uma menininha. Mamãe não acredita que os mortos podem falar com os vivos. E nem eu! Eu tenho é medo que os mortos apareçam, até se for a minha bisa. Mas, como mamãe achou o sonho bonito, decidiu me dar o mesmo nome da vó dela: Emília. Eu acho bom, porque aí eu posso ser que nem a bisa Emília. Todo mundo diz que ela era uma mulher muito boa e religiosa, que só fazia o bem e fez de tudo pra ajudar os outros enquanto viveu. E eu quero ser assim também. O Aldo e a Tete também têm nomes de avós dos meus pais, mas a mamãe nem sonhou com eles. Deve ser porque eu sou especial. O papai não tem irmãos e ele disse que a gente tem que agradecer por ter, pois ele sempre foi muito sozinho. E que a gente tinha que ser muito muito amigos sempre. Eu acho que ele tá certo e eu quero que sempre o Aldinho e a Tete sejam meus melhores amigos. Mesmo quando a gente for grande e cada um tiver sua família. Acho que a gente vai ser vizinhos e nossos filhos vão brincar juntos. Vai ser super legal! Falei isso pra mamãe e ela disse que ia ser ainda melhor se a gente morasse perto dela e do pai e eu gostei dessa ideia. Assim, o pai não se sente nunca mais sozinho. A mãe acho que não sentia isso, ela tem uma irmã. Mas ela fala pouco dela. A tia casou com um moço que ninguém gosta e foi morar em outra cidade. Aí o moço foi embora e ela ficou sozinha. Deve ser ruim ser sozinha...
Emília
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Diário da Emília - 02/01
Hoje eu estou triste. A Laurinha deu pra Tete a boneca que ela ganhou no ano passado, pois ela ganhou uma nova no Natal. Eu não queria uma boneca. Mas a Laurinha é da minha sala, ela não tem que visitar minha irmã e nem que dar presente pra ela. A Tete ficou tão feliz com a boneca. Quando ela foi tomar banho eu peguei a boneca e coloquei no colo, como se ela fosse um bebê. E cantei pra ela, que nem a mãe cantava pra gente. A mãe viu e perguntou se eu queria uma igual e eu disse que não, que era uma coisa boba. O pai ia ter vergonha de mim se eu brincasse de boneca. Mas era legal cuidar dela, cantar pra ela... Mas que bobagem! Quando eu tiver filhos, eu vou cuidar deles e cantar pra eles. O pai e a mãe querem um montão de netos, então eu vou ter um monte de filhos. A mãe disse que é pecado quando a gente tem vontade de ter o que os outros tem. Cobiça. É como chama. Eu tive vontade de ter a boneca da Tete, mas foi só um pouquinho... Será que eu pequei? Eu vou rezar uns vinte Pai-nossos, pra não ter problema...
Emília
Emília
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Diário da Emília - 26/12

Meu nome é Emília e eu tenho 10 anos. Ganhei esse diário do meu pai, de Natal. Ele me disse que era um presente útil e não uma bobagem qualquer; eu acho que meus irmãos preferiam uma bobagem qualquer, pois eles fizeram cara de que não gostaram nem um pouco do presente. Ah, eles também ganharam diários, mas o da Tete é rosa e o do Aldo é azul. A Tete chorou de noite e disse que tinha vergonha de contar pros amigos da escola que só ela não ganhava brinquedos do Papai Noel, porque todas as outras meninas ganhavam bonecas. Eu disse que Papai Noel não existe, que é o papai que compra os presentes pra gente. A Tete é boba de acreditar em Papai Noel. Na igreja, o padre disse que Deus está presente quando a gente não vê. Papai Noel não pode ir na casa de todas as crianças sem ninguém ver, porque aí ele seria que nem Deus, o que não pode ser DE FORMA ALGUMA! O Aldo queria ganhar um carrinho. Que coisa idiota! Os meninos são muito idiotas, eles gostam de coisas chatas e eles desrespeitam os mais velhos sempre. Ontem, no jantar, na hora das orações, quando papai perguntou qual era o significado do Natal, ele disse baixinho "ganhar presente". Aí eu disse: "O Aldo disse que é ganhar presente, mas eu acho que é o nascimento de Jesus". E o papai ficou feliz por eu ser uma filha boa. E o Aldo não ganhou pudim, pra aprender. Agora meus irmãos estão preocupados com o que os colegas vão dizer, já que eles nunca têm brinquedos novos. Eu nem ligo. Brinquedos são bobagens, não servem pra nada. E o pai disse que, nesse diário, eu vou poder escrever sobre tudo o que eu aprendo e que me torna uma pessoa melhor. Eu aprendo coisas na escola, mas eu agora tô de férias. Eu aprendo com o padre João e quando eu leio a Bíblia (mas eu tenho que perguntar pra mãe as palavras que não entendo e é bom que eu aprendo novas palavras). Mas eu aprendo mais com o pai e a mãe e eles me tornam uma pessoa melhor. E, nesse Natal, eu só pedi pra Deus proteger minha família.
Emília
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