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terça-feira, 4 de setembro de 2012

cena em quatro


Eles falam, falam, falam. Muito pra não dizer nada. cena em quatro. Não gosto. procuro os olhos. De ambos. Eles não estão aqui. Não há sorrisinhos. Não há as caras de piadinhas internas. Não há segurança, proteção. Carinho.

* escrito no primeiro dia de aula de 2009. 

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Princesa e o Menestrel

Tinha nascido uma princesa. Natural, pensando que seu pai era um rei e sua mãe, uma rainha. Só que as coisas nunca são simples no fantástico mundo dos contos de fadas. Sendo assim, por algum motivo muito mais mágico do que racional, um mago - daqueles bem maldosos, estilo Gargamel - através de um feitiço maligno, tomou conta daquele reino e obrigou seus monarcas a esquecerem suas origens nobres e viverem o resto da vida como camponeses. A princesa, nessa época, ainda não tinha completado um ano de vida e, portanto, não tinha consciência de que era uma princesa e do que isso representava. E cresceu achando que era uma camponesa...

As amigas camponesas da menina, em um determinado momento da existência, cansaram de suas bonecas de pano e começaram a sonhar com casamentos espetaculares, que elas chamariam de "casamentos de contos de fadas" se já não vivessem em um conto de fadas. E o que todas queriam, o melhor futuro que podiam sonhar, era um príncipe. Um príncipe que chegasse à aldeia, se apaixonasse por uma delas e a levasse pra um reino distante, cavalgando em um garboso cavalo branco. Tudo caminhando para o "felizes para sempre".

A princesa, por sua vez, era racional, avançada para a época. Sabia que, sendo uma camponesa, a possibilidade de casar com um príncipe era quase inexistente. E contentava-se com o futuro previsto, o que podia ter: o casamento com um dos rapazes da aldeia e os filhos que teriam. E era feliz...

Até o dia em que alguém diferente chegou à aldeia. Não o príncipe sonhado pelas solteiras, mas um andarilho. Na verdade, um menestrel, que vagava pelo mundo, levando sua arte - e vivendo dela. Tocava e cantava em troca de um pão, um abrigo, uma peça de roupa ou um sorriso. Sua música era divina, mas suas economias escassas não faziam com que ganhasse corações e nem com que fizesse as mocinhas suspirar.

A princesa, porém, com toda sua racionalidade, não era capaz de fazer análises econômicas. A alma nobre a deixava mais próxima ao intangível e mais suscetível aos mandos do coração. Ela não enxergou o futuro quando viu o menestrel, só viu o que era essencial - e, talvez, invisível à maioria dos olhos - a música que ritmava seus batimentos cardíacos, o olhar doce, o sorriso impetuoso. Sem nem entender desses mistérios humanos, a princesa que achava que era só camponesa - estava apaixonada pelo menestrel.

Ela passou a segui-lo: primeiro com os olhos; logo depois, descontroladamente, com os pés. Acordava com o primeiro acorde e só se entregava ao sono após ouvir a última nota.

Quando ele lhe perguntou seu nome, ela achou que morreria. Não morrera. E não entendia como era possível sobreviver a tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo dentro dela. Sua respiração se alterara, o coração disparara, o estômago congelara, as mãos suavam, a boca secara e o mundo se inundara de todos os sons e luzes e cores e sensações e gostos do universo. Ao mesmo tempo, teve a certeza de que trocaria o mais belo dos príncipes por aquele músico, mesmo que decepcionasse suas amigas.

Por um acaso ou por desígnio do destino, eles se aproximaram. Ele demonstrava uma simpatia maior por ela. E, com o tempo, ela até percebia um certo carinho, mas não sabia se era suficiente para se transformar em amor um dia. Os dois estavam sempre juntos, conversavam muito e ela, a todo momento, esperava que ele sentisse o mesmo que ela.

Um dia, diante de tantas manifestações positivas dele, criou coragem e lhe pediu que a levasse com ele, quando chegasse a hora de ir embora. "Você não sabe cantar. O que faria comigo?" Ela, com uma coragem que, até então, desconhecia, disse, baixdinho, sem conseguir encará-lo: "Eu seria sua mulher". O silêncio dele fez com que a princesa achasse que deveria falar mais e ela explicou como estariam sempre juntos e como ela faria tudo por ele e para que ele fosse sempre feliz. Sem sequer levantar a cabeça, que fitava os pés, ele disse "Vou me deitar". E saiu.

No dia seguinte, ela não o encontrou. E nem no outro. Até o dia em que ele parou ao seu lado e sussurrou "Estou indo embora". Ela se limitou ao silêncio e, ao perceber que ele não estava mais por perto, ao choro. Silencioso e sofrido.

Algum tempo depois - é difícil mesurar o tempo em contos de fadas - ele voltou. Animado. Quando se encontraram, ele disse que gostava muito daquela aldeia e que tinha sentido falta do lugar. E que tinha sentido falta dela. Ela reprimiu um sorriso e disse um pesado "Eu também".

E voltaram a se encontrar e a conversar. Ela voltou a definir o ritmo de sua vida pela música dele. E ele decidiu ensiná-la a cantar e a tocar. E, assim, eles passaram bons momentos juntos.

Até a noite em que, sentados próximo à fogueira, ele lhe perguntou: "Você ainda iria embora comigo?". Ela sabia a resposta que ele esperava: que, sim, ela iria, como amiga e companheira musical. Mas ela precisava ser sincera com sua alma e disse "Sim. Como sua mulher." Ele disse, tão baixo que ela quase não ouviu:"Eu jamais a levaria, nessas condições". "Eu sei", ela respondeu, "Como sei que você nunca vai me levar". O silêncio já parecia durar horas, quando ela disse "É porque eu sou uma camponesa. Se eu fosse uma princesa, importante e nobre, você me levaria. Todo mundo tem seu sonho. Quer seu príncipe ou princesa encantada. Eu errei, por querer o menestrel". E, em um rompante, se levantou, sem dar tempo para uma resposta dele.

No dia seguinte, ele não estava lá. E nunca mais voltou...

Tempos se passaram até que um visitante diferente aparecesse. Dessa vez, um príncipe. De cavalo branco e tudo. Imponente, mas sensato: recusou o convite para se hospedar no castelo do malévolo mago-rei, outrora o castelo dos pais da princesa, e montou acampamento no centro da aldeia.

As moçoilas casadoiras estavam eufóricas: uma delas poderia ter a chance de ter o futuro tantas vezes desejado, sonhado e planejado.

A princesa não viu graça no príncipe. Ele nem era tão bonito. E não sabia fazer música...

Só que, de novo, o acaso - ou o destino - agia e, talvez por um reconhecimento de sangues azuis correndo nas veias, o príncipe se apaixonou pela camponesa que era, na verdade, uma princesa. Ele sabia que ela era só mais uma moça da aldeia, mas enxergava diferenças: seu porte era diferente, seus olhos eram diferentes, sua aura era diferente. Ela era uma camponesa, mas com a graça e a leveza de uma nobre. E ele se encantou...

Vagarosamente, se aproximou. Respeitoso e educado, cortejou-a aos poucos. Sem pressa, mas com muito afeto. E, após algum tempo, as doces palavras do príncipe já soavam como música para a princesa. Ele não provocava todos aqueles efeitos internos - e, talvez, ela nem queria que ele provocasse, pois aquilo parecia uma doença -, mas ele fazia com que seus olhos brilhassem e sua alma dançasse. Ele fazia com que ela se sentisse feliz.

Quando ele decidiu voltar ao seu reino, a convidou para acompanhá-lo. "Eu sou uma camponesa. O que eu faria?"; "Seria minha mulher", ele disse. E, como ela parecia em choque, completou dizendo como eles sempre estariam juntos ele faria tudo por ela e tudo pra que ela fosse sempre feliz. Ela lembrou que, um dia, fizera essa mesma proposta a alguém. E ela percebeu que era muito melhor estar desse lado. Sem hesitar, disse "Eu vou".

No dia seguinte, ele não estava lá. E nem ela e nem os pais dela. Em um reino distante, casaram-se. E ela resgatou o que era seu por direito: tornou-se princesa. E eles viveram felizes para sempre...

EPÍLOGO

O que acontece depois do felizes para sempre? Quem quer saber? Tão bom chegar à felicidade eterna...

Só que, em algum momento, eles se rencontraram: a princesa e o menestrel. Obra do acaso. Ou do destino. Talvez isso tenha ocorrido alguns meses depois. Ou anos. Ou séculos. Talvez o príncipe ainda estivesse vivo, talvez não. Talvez, quando aconteceu, eles já fosssem rei e rainha. Eles foram felizes para sempre e é só o que importa. Mas, em algum momento, eles se encontraram.

E, então, o menestrel disse "Vejo que agora você é uma princesa". E ela respondeu: "Sempre fui. Apenas faltava que alguém - nobre, bom e justo - percebesse isso. Alguém apto a me amar. E alguém digno de receber o meu amor". Ela sorriu, enquanto dizia isso. Parados frente a frente, ela continuou sorrindo. Acariciou os cabelos do homem que lhe parecera tão especial. E percebeu o que ele era: um menestrel. Só um menestrel. Nunca - jamais - um príncipe. Afastou-se, nunca mais o viu, e continuou vivendo feliz para sempre.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Dream a little dream

No twitter, abro o link. Desenhos e Trapalhões.
- Eu vi o link que você colocou no twitter.
Silêncio.
Carinho.
- E os Trapalhões? Meu, aquelas piadas... Imagina se hoje eles teriam liberdade praquilo.
Estica a mão, sem virar, sem me olhar. Papéis. Pego e saio.
Sento em uma mesa de jardim. Em um lugar com muitas árvores.
Senta ao lado.
No primeiro papel, coelhos.
- Ah, foi desse que você tirou a ideia, né?
Sem resposta.
Chega um desconhecido. Uma menina esquisita de luvas. Outros desconhecidos.
Conversas. Das quais eu não participo.
Saio. Sem dar tchau.
Ligo, mas não atende.
Entro no mercado, com um pacote de leite na mão. Aberto. Meu. E pago por ele, de novo. Sei que não deveria pagar, mas não tenho controle sobre isso.
Chego no shopping. Com a caixa de leite aberta.
Encontro conhecidos.
Ela diz:
- Ah, não vou poder ver a peça hoje. Tenho um encontrinho.
Ele aparece.
- Você vai perder a peça do Maykol. Não acredito!
Eles trocam um olhar cúmplice.
- Ah, aquela hora, eu precisei sair pra vir pra cá.
Sem resposta.
Sorvete.
- Esse azul é aquele que tem gosto de algodão-doce?
- É.
Pego. Outras coisas também.
- Não tem de menta?
- Já tem o azul, tá bom de esquisito por hoje.
E me entrega o papel com o preço.
Fila pra pagar. Fico atrás dele.
- Peguei o azul.
Sem resposta.
Os desconhecidos voltam, a conversa volta.
E eu fico ali: sozinha, ignorada.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Onde o bumbum não descansa mais

Último momento no apartamento. Faxina final. Sem móveis, sem nada. Vazio.
Mente ao contrário: cheia. De lembranças. De bons momentos ali. Dos ruins também, mas em menor número.
As noites de meninas com as pessoas do Sub: pizza, Jogo da Vida, música, Coca-Cola na cama. Fofocar, ouvir música, virar a noite. Com a Gisa, a Preta, a Daia, a Patty.
A noite de DVDs da Madonna com a Miba e o Davi. As fotos cômicas. Os dois tentando me manter acordada. A conversa sobre séries na sacada, enquanto o Sol raiava.
As muitas visitas de pessoas do Macunaíma. Jogar o jogo do Almanaque anos 80. O dia em que conhecemos a famosa Kedma. As muitas conversas. Lilian dormindo sem nem dar boa-noite, Camis usando minha camisola do Garfield. Preparativo pra festa à fantasia. Chegar do Satyros com o Maykol e a Fabi.
O dia em que eu acordei e encontrei o Guga na sala.
A noite em que eu e o Bruno veríamos o filme do King. E, depois de todo o preparativo, dormimos em questão de minutos.
A impaciência do Lauri, sempre querendo ir pra rua.
A noite pós-balada com a Dupra.
Os muitos preparativos pré-festa ao som de Madonna.
O Dimbu dizendo 200 vezes que precisava acordar às 06h30 no dia seguinte. E a conversa não acabava. E ele acordou às 8h00.
A conversa de manhãzinha com a Nath.
As muitas deliciosas visitas da best. Muitas conversas, muitas risadas. Ela sempre querendo acordar cedo pra chegar cedo em casa. Mas sempre aqui. Quando eu precisei e quando eu não precisei.
E mais uma tonelada de lembranças de quem mais tempo passou naquele apartamento, depois de mim. As conversas de madrugada, as conversas o dia todo. As infinitas risadas. Brincar de luta, derrubar no chão. Ouvir música e brincar de adivinhar quem canta (e, não, não era o Joy Division!). Brincar de cantar música de chuva enquanto chovia. Brincar de tentar matar com o travesseiro. E mais conversas. No sofá, na cama, na sacada. Fofocas, confidências, desabafos, decepções, pequenas brigas. Grandes brigas, Brigas homéricas. Dormir vendo filme, com a TV ligada. Acordar de 3 em 3 horas pra conferir a febre e o remédio. E, empurrando as cenas vergonhosas pro cantinho da memória, só aquele som: as risadas. Só aquela sensação: os abraços e olhares cúmplices.
Por algum tempo achei que aquele era meu lar. Era, não. Lar vai ser sempre onde eu estiver. O apartamento não é mais meu, mas as lembranças sempre serão. E não é do lugar que vou sentir falta, não. É - e sempre será - das pessoas.

terça-feira, 2 de março de 2010

Sinceridade, amizade e outras "ades"

O fato é que a gente gosta de se enganar. De tolamente acreditar em qualquer coisa. A gente acredita, abertamente, na sinceridade das pessoas. Por não ter o hábito de mentir, acha que ninguém o tem. Que a sinceridade lateja em todo mundo que é próximo (ou ao menos finge que é). E nem sempre é assim. E, um dia, a gente percebe isso. E todo o resto.
Lição a não ser esquecida 1: Sem sinceridade, não pode haver amizade.
Lição a não ser esquecida 2: A gente não consegue ser amigo de quem não é nosso amigo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Sonho que se sonha só é só um sonho

E aí a gente estava no carro. Como eu não dirijo, ele dirigia. Lógica de sonho; na vida, ele também não dirige. Eu olhava pra trás e não via nada. Minha bolsa no banco quase vazio. E a gente conversava.
"Sei lá... Não tô dizendo que ele é má pessoa, não é. Mas você entende que ele me prejudica?"
"Entendo totalmente", ele abaixa o som.
Olho pra trás: a bolsa e os faróis de outros carros.
"Pq ele tem toda essa instabilidade... Ele muda do nada: sem razão, sem explicação. E não dá pra gente ter uma amizade saudável com gente assim..."
"Eu sei como é..."
"... por mais que eu goste dele.", olho pro vazio, mais uma vez.
Sorrio para o estranho confidente.
"Às vezes eu acho que eu deveria pensar como as pessoas dizem... que ele é um cretino, imaturo, irresponsável, egoísta, que foi amigo enquanto eu tinha coisas a oferecer..."
Risos. Olho pra trás. O cabelo diferente, uma camisa xadrez, os olhos já conhecidos, um rosto imberbe, cara de raiva e mágoa.
"Oi..."
"Oi."
"Ahn... Quer que aumente a música?"
"Não."
Ele me olha de olhos arregalados e volta a atenção pra estrada. Falo baixinho: "Ele estava aí desde quando?"
"Acho que ele ouviu toda a parte de cretino, imaturo e egoísta."
"Só isso?"
"É."
"E a parte de eu gostar muito dele?"
"Ele não tava antes."
"Droga. E como ele veio parar aqui?"
"Isso é o que menos importa..."
"Explico?"
"Não... Se ele quer entender errado, deixa ele entender errado."
Suspiro e fecho os olhos. Esgotada. De medir palavras e tentar prever significados que poderão ser atribuídos. Um peso de eras.
Abro os olhos. O motorista agora é uma motorista. Ela sorri e diz:
"Tô só esperando ele sair do banheiro."
"Hmmm... Mas ele já foi há uns 20 minutos."
"Deve estar cheio."
"É..."
Bebo água, abro e fecho um livro, ligo e desligo o som.
"E se ele não voltar?"
"Oi?"
"E se ele sumir?"
"Pessoas não somem do nada."
"Ele some."
"Oi?"
"Deixa pra lá..."
"Olha onde a gente tá! No meio do nada. Não tem como ele não voltar."
"Ele sempre arranja um jeito de sumir, até quando é altamente improvável."
"Do que você tá falando?"
"Da vida."
"Eu vou descer e ver se encontro..."
"Não precisa. Vamos embora..." e aponto o carro passando na nossa frente. Duas senhoras obesas de chapéu na frente, a mesma camisa xadrez atrás. Os mesmos olhos me encaram. Vazios.
"O que ele..."
"Vamos embora", repito. E abaixo os óculos escuros, tapando aquela maldita lágrima boba, que já devia esperar isso, mas ainda se surpreendia.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dorothy e o embrulho dourado


Dorothy olhou para o embrulho dourado. Fez aquele movimento com a boca que sempre fazia, quando estava confusa. Abriu e olhou dentro. Só duas coisas. A carta, que ela escrevera até as 3h da madrugada na véspera de um dia tão importante. A carta, tão diferente da que entregara há cerca de 1 ano. Tão mais agradável, tão mais madura, tão mais sensata. Deixou de dormir pq encontraria com ele e queria já entregar tudo. A carta e aquilo. Aquilo que ela caminhara tanto tempo, debaixo de sol forte e chuva torrencial, para conseguir. O tempo em Oz era sempre tão estranho...

Fechou o embrulho dourado. Repetiu o movimento com a boca, aquele que refletia sua confusão. Ele não tinha aparecido. Era isso. Ok, tinham lá os motivos e eles justificavam e ela não tinha qualquer problema em relação a isso. Sabe, ela até teria ido até ele, se pudesse. Se ele deixasse. Só que ela acabou falando disso pra ele. Do embrulho dourado. E perguntou uma forma de entregar. Era importante. E ele não respondeu. Era cérebro que ele não tinha ou audição? Ou visão? (Bom, a visão era mesmo um pouco prejudicada, disso ela sabia).

O que ela ia fazer com esse embrulho dourado? Repetiu o movimento com a boca. Ainda confusa. Jogar fora? Mas tinha dado trabalho... Dar pra outra pessoa era impossível. Aquilo era tão repleto de significados...

Suspirou e repetiu o movimento com a boca, quase um tique. Natural. Naturalmente confusa. Ela lembrava ainda dos tempos difíceis em que tinham se separado, depois de passarem tanto tempo caminhando juntos pelos tijolos amarelos. Lembrou o quanto foi estranho cada um tomar um rumo, diferente, para chegar à cidadezinha verde. Lembrou o quanto isso a machucou. O tornado ali, tão dentro dela. E lembrou da alegria confusa - sempre confusa, sempre tornado - quando eles decidiram voltar à mesma estrada, juntos. Sapatinho de rubi 34 e pé de palha, juntos, nos tijolinhos amarelos. Confuso, tudo bem. Mas tão bom... Para a menina Gale, amizade, quando de verdade, sempre era superior a tudo.

Levantou, segurando o embrulho dourado. Pela milésima vez repetiu aquele movimento com a boca. Havia durado pouco aquele reencontro. Um, dois, dez passos. Separaram-se de novo. Mas caminhos ainda próximos. Ela ainda encontrava com ele, quase sempre. Às vezes via os corvos, de longe. Sabia que ele estava ali. E, então, ele propôs que eles voltassem a trilhar o caminho dos tijolos amarelos juntos. Ela tinha medo de que isso durasse pouco de novo, de que logo viesse mais uma separação. Um medo tão grande. Mas ela aprendeu que quando vc tem medo e faz mesmo assim, isso é coragem. E coragem ela tinha. Coragem, coração e cérebro, essa menina Dorothy Gale. E, por isso, ela aceitou. Ela voltou à estrada, com ele. Off to see the Wizard. E, quando tudo parecia tão bom, ele sumiu. Assim, sem aviso, sem bilhete de despedida. Ela ainda tentou, pq era importante, era tão importante. E ele não havia falado que gostava muito dela? Então, ela devia ser importante pra ele, não é? (Uma vez, ela lhe perguntou como ele falava se não tinha cérebro e ele lhe respondeu que muitas pessoas assim o fazem.). Mas ele, por razões desconhecidas, nem se preocupou em dar uma posição. Em avisar, em dizer "Ó, tô sumindo por isso".

Agora, lá estava ela. Sem entender. Segurando um embrulho dourado e repetindo infinitamente aquele movimento com a boca. O movimento que era quase um reflexo do tornado interno. Menina Gale.

Ela ia se preocupar em entender, de novo? Ela ia se desgastar para resolver, de novo? Ela ia chorar, de novo? Ela ia sofrer, de novo? Não, não ia. Ela aprendia, vagarosamente, mas aprendia. Falta, sempre faria. Saudade, sempre existe. Carinho, não se esgota. Mas ela tinha tanta coisa boa pela frente e tantas criaturinhas agradáveis por perto. Ela estava ali, naquele mundo tão mágico... E não ia deixar de aproveitá-lo.

Guardou o embrulho dourado na cestinha. Criaturinha repleta de fé e esperança aquela menina Gale. Pensava que ninguém sabia como seria o futuro, pensava que ainda poderia ter a oportunidade de entregar aquilo.

Pensou: "Adoro-te. Ainda. Incondicionalmente."

Esticou a perna direita, o sapatinho de rubi no ar. E, aí, quando ia repetir o movimento com a boca, mudou de ideia. Sorriu. Quando sorria, seus olhos brilhavam de uma forma especial. E, suavemente, colocou o pé direito, envolto no brilho vermelho do rubi, no próximo tijolo amarelo. E no próximo. E no próximo. E no próximo...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O teatro do teu sonho

Desligou o telefone e sentou no banco do teatro.
Com raiva. Com ódio.
Lembrando das palavras de Veríssimo pai: "O oposto do amor não é o ódio, e sim a indiferença."
- O que foi?
Contou. Omitindo detalhes, revelando sentimentos, transbordando. Intransitivamente, o último.
Risos.
- Eu ainda vou escrever uma peça de teatro da história de vocês...
Não conseguiu manter a seriedade. Sorriu. Se ela soubesse de cada detalhe... Nem Zé Celso faria uma peça tão longa!
Seria uma comédia? Provavelmente, tragicomédia, sabe? Teatro do absurdo. É. Mas, sem dúvida alguma, o público ia rir muito. E, talvez, chorar um pouquinho...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Mar Adentro

- Ninguém pode se apaixonar por um tetraplégico? É algo tão estranho?
- Bem, é melhor esclarecermos algumas coisas. Ainda mais se falamos de algo tão complexo como é o amor.
- Complexo?
- Sim, complexo. Por mais que você me diga agora que me ama, eu não posso ter certeza se é amor de verdade ou fantasia sobre o homem com quem sonhou, mas nunca encontrou. Ou não durou.
- Do que está falando? Não me confunda. Ou se ama ou não se ama. Não é possível racionalizar o amor.


terça-feira, 3 de novembro de 2009

faz parte do meu show

- eu contei.
- e ele?
- não sei.
- como assim?
- não vi ele depois. ele não ligou.
- mas o que ele fez na hora exata em que você contou?
- eu não sei.
- você fechou o olho?
- eu escrevi numa carta.
- ah, não me diz que foi em folha de caderno.
- foi.
- com caneta bic?
- aquelas de 4 cores.
- isso é tão a sua cara.
- é.
- mas como você fez? entregou, disse "tó" e saiu correndo?
- não. ele tava dormindo. deixei do lado da cama, dei um beijo nele e saí.
- isso é tão filme da sessão da tarde.
- é.
- e o que você escreveu?
- pouca coisa. tinha uma letra de música.
- isso é tão anos 80.
- é.
- não precisa dizer que música era, mas, de quem era?
- cazuza.
- meu deus! você é tão anos 80.
- é...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

ela queria...

Acordou com o celular tocando.
- Oi! Já tá acordada?
- Você acabou de me acordar.
Risos.
- Então, já que você tá acordada, posso ir praí?
- Achei que você viesse mais tarde.
- É. Já tô esperando um tempo pra te ligar.
- Vem.
Desligou e olhou no relógio. 10h40. Tinha dormido antes da 1h da madrugada e ainda tinha sono. A ligação, vinda de quem provavelmente tinha dormido bem mais tarde, fazia pouco sentido naquele horário.

Mais tarde, em frente ao computador, em tom de confidência, disse baixinho:
- Acho que fiz besteira ontem.
- O que você fez? - fingiu desinteresse, mas tinha medo de ouvir.
- Então, fiquei com X.
- Ah. - o desinteresse sempre era sua forma de disfarçar.
- Eu não queria.
- E pq ficou?
- Não sei... X queria...
- Sei. - ainda o disfarce.
A mãe falou algo da cozinha. Ela foi até lá. Fim da outra conversa.

Mais de um ano depois, lembrou desse dia. Da ligação na noite anterior, quando estavam separados há só meia hora, "lembrei de você". Da ligação de manhã, tão cedo, "posso ir praí?". Era tanto, era tão intenso. E já não existia mais.
Lembrou da outra conversa.
"X queria...".
Jamais entenderia o motivo da diferença.
Ela também queria...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

quando é cômodo não saber

- minha irmã falou... tudo bem minha irmã saber?
- ah, vc contou? tudo bem...
- não contei, não.
- ai, ela percebeu, é?
- é.
- bom, tudo bem. sua irmã é bacana. mas como ela percebeu?
- sabe aquele dia que a gente tava no ônibus?
- sei.
- então... ela viu pelo jeito que você falava. sua voz, seu jeito. e vc mexia no cabelo.
- mexia, é?
- é. e ele ligou várias vezes num espaço de tempo bem curto.
- é.
- e, depois, quando a gente tava indo embora, que tinham várias ligações não atendidas dele e aí vc ligou correndo...
- saquei. não era normal, né?
- não. quer dizer, era... mas...
- não entre amigos. sei.
- aí ela desconfiou... e começou a reparar mais, qdo via vocês. teve aquele dia, logo depois. aí ela teve certeza.
- ah, sei. pq eu tava fazendo aquelas coisas todas e... enfim..
- é.
- mas era uma ocasião atípica.
- hmm... mais ou menos.
- é, não era. mas tudo bem ela saber.
- bom.
- afinal... quem não sabe, né?
- ele?
- na boa? ele sabe.
- (silêncio)
- é que é mais cômodo não saber.
- é.

*conversa perdida no tempo*

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

como não usar o twitter

aviso: a censura foi necessária.

- ela pisou na bola comigo quando eu mais precisei.
- eu sei.
- bom, você lembra a situação.
- lembro.
- e ela tinha dado certeza.
- eu nunca daria.
- pois é, não tivesse oferecido, né? aí eu não tinha o que fazer. não tinha crédito, não tinha acesso a e-mail, não tinha ninguém no MSN. pânico total. e eu não podia ir pra casa, de jeito nenhum. tinha o twitter, mas o que eu ia fazer?
- você não poderia tuitar isso.
- nunca! imagina: não posso voltar pra casa, preciso de um lugar para dormir.
- melhor: preciso de um lugar para dormir, pois XXXXXXXX uma XXXX dizendo XXXXX.
(risos)
- melhor ainda: preciso de um lugar para dormir, pois XXXXXXXX uma XXXX dizendo XXXXX para @xxxxx.
(mais risos)
- que tal? preciso de um lugar para dormir, pois XXXXXXXX uma XXXX dizendo XXXXX para @xxxxx. RT, por favor.
(toneladas de risos)
- eu devia ter feito isso.

(tks, best, por me proporcionar as melhores conversas!)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

And it feels like... home.

Revendo Sala de Espera, entendi pq ainda é minha peça preferida. Não é pq o Ferdi aceitou a trilha sonora absurda, com direito a tema do "pião da casa própria", e mais uma dezena de sugestões bizarras minhas. Nem pq era meu gênero preferido. Nem por ser a peça preferida da minha família. Nem pq ouvir as risadas da plateia era uma delícia. Nem por tudo que aconteceu antes - complôs toscos - não darem em nada e eu ainda fazer 2 papéis. Nem pq interação com o público e improviso são duas das coisas mais divertidas do teatro, pra mim. Nem pq foi a primeira vez que eu tive a oportunidade de escrever e ainda encenar minha própria dramaturgia, ohmy! Por nada disso, embora sejam motivos fantásticos.

É pq não teve clima gostoso de camarim. Nada de conversas, risadas, saídas pra comemorar. Nada de todo mundo se abraçando, antes e depois. Nada de espírito de grupo.

É pq foi em um momento tão, mas tão difícil pra mim. Momento de descobrir coisas, de entender e não entender. De término, distância. de perder confiança, de deixar de acreditar, de não ter apoio, base, companhia. De esperar e não ter. De chorar, chorar, chorar... tudo que podia... antes do ensaio. Pq lá eu era tão forte e tava tudo tão bem e eu fingia tanto que minha vontade não era dizer "falacomigosejameuamigodenovomeabraçaporfavor".

E pq foi a única vez em que eu estive sozinha. Só eu e Sílvia. E Cyndi, ou visitante X (1? 4? não lembro!). Só eu e o figurino e o palco e as luzes e o som e a cena. E, então, eu descobri que eu podia não ser tão boa em tantas coisas, como tantas pessoas. Mas eu era profissional. E eu respeitava aquele espaço. Sagrado. E eu fazia o melhor que podia, deixando tudo que não pertencia ao palco, no lugar certo: fora do palco.

E foi aí que eu me encontrei. Eu, meu lar. E não há lugar como o lar... Pq quando você conhece sua mente, seu coração e sua coragem, você nunca - em hipótese alguma - se afasta do seu lar, pq ele está dentro de você.

Quanto aos tornados? Podem vir! E que venham também os tormentos. O tormento. No Kansas ou em Oz; here, there and everywhere, eu estou em casa.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

As crianças do jardim de infância

Dia desses, tava no mexicano (arriba!) com a Msla e o Lauri. Conversa vai, conversa vem, chegamos ao tema que, aparentemente para ambos, é pura diversão e pode ser definido como “minha briga com a Tally”.
Além de ambos terem se formado comigo e serem duas das pessoas mais fantásticas que eu conheci na vida, eles têm isso em comum: brigas e longos períodos sem falar comigo. Ela, cerca de 1 ano. Ele, o triplo disso.
E, então, lá estava ele, em meio a chilli fries, falando sobre a conversa do MSN que eu mandei pra ele há pouco tempo. Tal conversa ocorreu quando nós já estávamos brigados e sem conversar. Foi naquela fase em que o ex-amigos querem reaparecer só pra machucar, pq pensam que não é justo só eles estarem sofrendo (acreditem, os dois sempre estão sofrendo muito; só que a gente só conhece a própria dor). E a conversa – inútil e imatura e mil vezes cruel – tinha lá um ponto surreal: “você é feia!”, “você é gordo!”. Oi? Fora de contexto isso certamente seria inserido em uma cena de jardim de infância, céus! E eu guardei essa conversa (guardo muita coisa no meu gmail arraso!) e mostrei pra ele recentemente. Ele riu, eu ri. Na mesa do mexicano, logo depois dele ter contado, nós três rimos muito (óbvio!).
Hoje eu estava em um dia meio deprê (por muitos motivos... enfim...). Fui conversar com o Davi no MSN.
Antes, alguns fatos sobre o Davi: ele é absurdamente divertido, toda conversa com ele garante boas risadas. Tb é um dos meus grandes amigos (e foi o mais próximo, durante um certo tempo). E nós tb brigamos e ficamos anos sem contato.
Pausa: algo muito legal que eu aprendi com o tempo foi que amizades “terminadas” normalmente voltam a existir do nada e melhores. Do nada? Não sei... Prefiro acreditar que tinha que ser assim...
Pois bem... Estou lá conversando com o Gansão (eu simplesmente gosto de chamá-lo assim) e ele solta:
- ... você lembra pq a gente brigou?
- Eu não lembro que dia é hoje. Responde?
Bom, momento de voltar ao passado, óbvio. Entre fatos cômicos e muitas divergências de interpretação dos acontecimentos, percebi que brigamos por coisas bobas. Por coisas que deixaram de ser importantes no jardim de infância. De novo.
Até então, o que eu aprendi? Que a gente briga muito por bobeira. Muito mesmo! E que a gente devia perceber isso mais cedo. Pedir desculpas mais cedo. Desculpar mais cedo. E perder menos tempo das pessoas importantes. Eu perdi anos de conversas, passeios, abraços, conselhos, carinhos e risadas dessas 3 pessoas queridas. E não é que eu me arrependa do que aconteceu... Eu sei que tudo que existiu no passado me fez ser quem eu sou hoje e, por isso, é válido. Eu só penso se “anos” não é muito tempo, se a gente não podia ter ficado só em “meses” ou “dias”, tempo mais do que suficiente pra “poeira baixar” e a gente se dar conta do valor daquelas pessoas.
Pausa: a partir de agora, minha meta é não chegar a “meses”.
Essa semana eu recebi um email. Totalmente inesperado. E confuso. Informação importante: a pessoa que enviou o email já foi uma das minhas grandes amigas e eu não falo com ela há espantosos 8 anos. E, de repente, lá estava o email. Confuso, mas bacana. Surpreendente, mas uma surpresa espantosamente boa.
Ela falava em culpa, em coisas blé do passado. E eu me peguei pensando em uma história que já era praticamente esquecida... Eu sabia que tinham coisas péssimas no passado, mas... quais? Sim, eu tive raiva. E qual foi o motivo? Não lembrava... Consegui pensar em 2 ou 3 grandes bobeiras – as tais coisas do jardim de infância. Mas, quando parei pra lembrar, a lembrança mais forte era de nós duas rindo. Rindo muito. Quando me esforcei por uma lembrança mais específica, ouvi a voz dela dizendo “Você é tão engraçada...”. Eu descobri que era engraçada aí. E, nesse momento, ela foi muito importante na minha trajetória. E nenhuma lembrança péssima.
Grande descoberta da semana: eu não sou rancorosa. Sempre achei o contrário, confesso. A best diz que minha memória é assombrosa, que eu lembro detalhes mínimos dos acontecimentos. É, eu sempre fui assim. E, por isso, achava que rancor e mágoas eram constantes na minha vida. Surprise, surprise: não são! Eu tenho facilidade em esquecer os aspectos negativos de “confrontos” do passado e reter só as boas lembranças.
E, então, em meio a tantas indas e vindas, fins e recomeços, coisas repensadas e – ainda bem! – um saldo bem positivo de tudo isso, fico tensa só em pensar se não pode ser prejudicial essa tendência a esquecer coisas ruins e manter vivinhas na memória as coisas boas. É que tem amizades que terminam por motivos diferentes dos do jardim de infância (ou não... vai saber...). É que tem horas que a gente sente uma saudade tão grande e precisa tanto lembrar de coisas ruins para doer menos. E aí, mesmo relendo emails antigos (alguns bem cruéis), mesmo pensando em tudo que machucou e machuca, mesmo já tendo os olhos ardendo de tanto chorar, mais forte que tudo, fica sempre a sensação de estar perto, lado a lado, as vozes baixas dividindo problemas (que diminuíam...), o alívio chegando, acompanhado do sorriso confortador e dos (grandes) olhos que prestavam atenção de verdade (tão raro hoje em dia, essa atenção...)... e terminando nas risadas. Sempre. Num futuro, eu quero isso; quero só as lembranças boas. Mas... agora?... Sei não... Sei que talvez as lembranças ruins (os anzóis que machucam) sejam mais protetores...
E sei que, por meta, eu não devia deixar chegar a “meses” (ainda mais qdo já chegou uma vez). Mas tem coisas que independem de mim...

sábado, 26 de setembro de 2009

Home is knowing

Scarecrow: Success, fame, and fortune, they're all illusions. All there is that is real is the friendship that two can share.
Dorothy: That's beautiful! Who said that?
Scarecrow: [modestly] I did.

Scarecrow: I'll think about you all the time, Dorothy!
Tinman: And I'll miss you... every day. Even if I had to go back to that junk pile... even as teeny's seat cushion... I wouldn't mind... because I have known... real love.
[
cries]
Dorothy: Aww... don't rust yourself now.
[
wipes away the tears]

Glinda the Good: Hello, Dorothy.
Dorothy: Please, is there a way for me to get back home?
Glinda the Good: Well, Dorothy, you were wise and good enough to help your friends to come here and find what was inside them all the time. That's true for you, also.
Dorothy: Home? Inside of me? I don't understand.
Glinda the Good: Home is a place we all must find, child. It's not just a place where you eat or sleep. Home is knowing. Knowing your mind, knowing your heart, knowing your courage. If we know ourselves, we're always home, anywhere.

sábado, 12 de setembro de 2009

É difícil porque é difícil

A discussão era sobre traição.

A experiência dela – pouca... mínima – não permitia que ela emitisse qualquer julgamento. Trairia? Como reagiria diante de uma traição? Não sabia e não tinha como saber. Sabia em que acreditava: que havia ocasiões e ocasiões. Ocasiões em que poderia haver perdão e ocasiões em que tortura seguida de morte seria o mais leve dos castigos. Preferiu o silêncio.

Até o momento em que ouviu a expressão “traição entre amigos”. Neste momento, foi como se mil engrenagens começassem a trabalhar a todo vapor em sua mente. A traição entre amigos é absurdamente mais ampla do que todas as outras traições. Quando se está em um relacionamento amoroso, trair é basicamente se envolver com outra pessoa. Dentro de uma amizade, trair é muito mais. Tudo que resulta em desrespeito, tudo que machuca, tudo que abala a confiança... tudo pode ser encarado como uma traição.

E essa traição ela conhecia. E bem! Já havia sido desrespeitada, machucada por tantos pretensos amigos. Já confiara em vão por vezes infinitas.

Um dos pontos mais complicados da traição entre amigos, ela sabia bem, é que há uma quase obrigação em se perdoar. A gente se torna quase santo, esquece, finge que não vê, se esforça de forma sobre-humana para preservar uma relação com amigos. Talvez por ser a amizade a forma mais pura de amor, a mais incondicional. Em família, apesar de tudo, há a convenção do sangue, embasando uma relação. Entre um casal, há o desejo, a recompensa física. Entre amigos? Não há nada. Há o amor puro e simples. Obrigando a perdoar, a aceitar, a esquecer. A conviver com o que quase não dá para se conviver.

(E, enquanto pensava tudo isso, ela nem sabia que, mais uma vez, estava sendo traída.)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Parada e transição

Começou com o banho de sol. Queimando, aquecendo, energizando.

Aí foi o choro. Até a última gota, pra acabar e não voltar.

Filmes.

Banho de chuva. Limpando, levando, refrescando.

Família, fundamental.

Cabelo. Mudando, encurtando, colorindo...

Lisístrata. Turma nova, primeira montagem. E como isso foi importante... Ter, de novo, aquela energia da primeirona, aquela empolgação. E, ao mesmo tempo, perceber o quanto as coisas mudam em tão pouco tempo, entre a primeira e a quarta. Dimensão exata da evolução. Incrível!

Almoço e passeio pelo shopping.

Chicago. Bacana, lição de produção.

Conversa extremamente importante pelo MSN (e, talvez, a pessoa nunca saiba o qto foi importante naquele momento).

Ensaio. Com as pessoas incríveis.

Aula. Com as pessoas incríveis.

A decepção de ter pouco do texto de Woody Allen cede lugar à possibilidade – rara, se não for única – de encenar meu próprio texto. Qtas pessoas farão Woody Allen esse semestre? Só na minha turma, 15. E qtas farão seu próprio texto? Eu...

Sorvete, nhami.

Relaxamento na aula mais chata, pra ficar tudo perfeito.

Pefffinha excelente do ex-diretor querido, que agora tem cabelos loucos.

A balada não rolou, mas o karaokê, sim. E foi muito melhor. Lá estavam, de novo, pessoas incríveis. E a gente riu, riu, riu, riu... Noite fabulosa!

Total eclipse of the heart se torna minha música oficial de karaokê. Fato.

Turn around...

E KLB no karaokê é... vida! Devolva minhas fantasias... devolva meu ar.

Feriado no Ibirapuera, o parque da infância.

Ler Lisístrata na sombra de uma árvore, sentindo o ventinho...

Comer cachorro-quente na floresta encantada dos emos...

Passear no fim do dia...

Pra encerrar, conversa pra acertar. Pra consertar, pra retomar. E pra que eu descobrisse que o que importa, não muda. Mesmo.

De bônus, mexicano com os melhores mackenzistas ever, numa terça chuvosa.

É...

Feriado da independência.

Realmente.

terça-feira, 10 de março de 2009

a big bowl of fish hooks


Existem muitos motivos pra gente não querer mexer na nossa caixa de anzóis.
Por isso, ela costuma ficar bem guardadinha, num cantinho do armário.
Anzóis, pra começar, têm aquela ponta curvadinha. O que acontece? Eles grudam uns nos outros. É terrível! Você quer pegar um e começam a sair vários outros juntos. Vários outros que você, por sinal, não queria nem lembrar que existiam. E não tem como você meter a mão na caixa e puxar exatamente o que você precisa ou o que você pode usar agora. Você nunca sabe qual vai pegar. Ou, muito pior, quais.
Outra coisa assustadora sobre caixas de anzóis é que a probabilidade de você se machucar quando mexe neles é enorme. Aquelas malditas pontas afiadas arranham e cortam.
E aí você vai se arriscar a se machucar e ainda puxar os anzóis que não quer? Não mesmo! Você deixa a caixa guardada. Quieta.
O problema é que sempre tem um imbecil que – por maldade ou sem querer – derruba sua caixa de anzóis no chão. E, de repente, estão todos ali. Aquela infinidade de anzóis que você nem queria lembrar que existiam.Todos ali, prontinhos pra te machucar...

My feelings for you, Hank, are like a big bowl of - [sighs] - fish hooks. I can't just pick up one up at a time. I pick one up and they all come, so I just had to leave 'em alone.
(Lee / Meryl Streep, em Marvin's Room)


*e eu não sei nem por onde começar a arrumar essa bagunça*

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

You can stand under my umbrella


Eles iam embora juntos. Ele daria uma carona até o meio do caminho da casa dela. Bom pra conversar. Na hora de sair, chuva. O mundo desabando e eles precisavam chegar até o estacionamento. Ela tinha um guarda-chuva, mas ele estava num estado lastimável. Quebrado, furado, rasgado. Não protegeria muito, ainda mais duas pessoas. “Vamos esperar melhorar”. Não melhorou. Foi quando alguém disse que lá dentro tinham uns guarda-chuvas sobrando... Ele voltou pra pegar um. Saiu com um enorme, lindo, do tipo que não deixa nem o pé molhar. E aí ele trocou. Ficou com o dela, com o rasgado, quebrado, que molhava. Nesse momento, bestificada diante de tamanha bondade, uma lembrança ameaçou sair de alguma gaveta em seu cérebro. Uma lembrança que ela não queria. Que deveria estar bem trancada. Mas ela começou a se esgueirar... Ela foi rápida e fechou bem fechadinha a gaveta. Passado. A gente tem que colocar o traseiro no passado, como diz o Pumba.

E aí eles foram almoçar juntos. Bom pra conversar. Quando ela chegou na porta, chuva. O mundo desabando e eles precisavam chegar em algum lugar que tivesse comida. Ela tinha um guarda-chuva, mas este também estava num estado lastimável. Quebrado, furado, rasgado. Não protegeria muito, ainda mais duas pessoas. Ele conseguiu um emprestado. Melhor, maior, protetor. E aí, ele trocou com o dela. De novo. Ao mesmo tempo que uma parte dela sorria internamente, pensando “Oh, meu deus, eu tenho um novo amigo ótimo”, ela pensava “O traseiro! O traseiro!” e segurava a gaveta com o traseiro, gaveta da tal lembrança que insistia em sair.

Na volta, ela quebrou o guarda-chuva. O emprestado, que não era dela. Ele disse que ia fingir que ele tinha quebrado, mas acabou conseguindo arrumar. Ela, num momento a-felicidade-não-se-compra, pensando que no man is a failure who has friends, se distraiu. Deixou a lembrança sair por uma frestinha da gaveta. E inundá-la.

Era uma sexta. Pela janela da sua sala no trabalho, ela via o mundo desabando. Chuva, chuva, chuva. Pensou na combinação chuva/ sexta. Era algo entre trevas e o fim do mundo. Pensou o quanto seria bom chegar em casa, comer pizza... Mais tarde, cinema. 3 filmes, madrugada cinematográfica, com um Gondry e um Woody. Enquanto pensava, o celular tocou. Era ele. Outro ele. O que costumava ser o melhor deles. Há semanas ela perguntava sobre a tal inscrição. E, não, ele não tinha feito. E agora, aos 47 minutos do segundo tempo, ele queria ir lá fazer... ela não queria ir com ele? Olhou pela janela. Chuva. Tempestade. Não, ela não queria. Ela queria ir pra casa, comer pizza, ficar seca. Mas ele era um espantalho, não é? Feito de palha, sem cérebro. Ela não podia deixá-lo sozinho. Ela sabia o quanto essa inscrição era importante pra ele, aliás. Ela não o deixaria sozinho, no man is a failure who has friends e ela seria o Clarence dele. “Ok, eu vou”. Marcaram de se encontrar no meio do caminho.

No meio do meio do caminho, o guarda-chuva dela – como todos os outros dela: quebrado, rasgado, lastimável – finou-se. Não tinha mais como usar. E ela continuou andando o resto do caminho na chuva. Gelada. Encharcando. E o mais estranho, era que ela não estava brava e/ou irritada por isso. Lembrou de um livro que leu nos seus 12 anos, que citava outro livro, do Veríssimo pai. Falavam de uma personagem X, e que coisas boas aconteciam para ela quando chovia. Ela não era a personagem X. E nem percebeu isso...

Quando ele chegou, disse “oi!”. Ele tinha um guarda-chuva. Funcionando. Estava seco. E disse “oi!”. De longe. Ela pensou “Ele não quer se molhar... Eu me molhei inteira e ele é incapaz de me abraçar ou até de chegar perto, pq ele não quer se molhar”. Era difícil de acreditar. Ela estava molhada. Até na alma. Se alguém perguntasse a ele pq ela estava molhada, ele poderia citar uma série de motivos, como a chuva ou o fato dela nunca ter um guarda-chuva decente. Nem passou pela cabeça de palha dele o verdadeiro motivo: por causa dele. Ela estava molhada por causa dele. Ela estava molhada pq ele precisava dela.

Ela escondeu a decepção. Era um momento importante pra ele. E, se era importante pra ele, deveria ser pra ela. É pra isso que existem os amigos. Conversaram no ônibus. E ela por um instante esqueceu o quanto ele não estava exatamente sendo um bom amigo.

E aí eles chegaram. E ele desceu. E abriu o guarda-chuva. E andou. Ela, parada, na chuva. Desacreditando. Era isso? Ele não se importava mesmo que ela pegasse chuva, DE NOVO? Pra fazer uma porcaria de inscrição que nem era dela? Pq era importante pra ele e só pra ele, o Sr. Espantalho-Centro-do-Universo?

Era importante. Ela se controlou. “Ow, me dá uma ponta do guarda-chuva?”. Ele não se mexeu. Ela tentou se enfiar debaixo do guarda-chuva, sem sucesso. Chegou ao prédio ainda mais molhada.

E aí ele foi estúpido. Uma, duas, três vezes. Agiu como se ela nem estivesse ali. Ou como se estivesse acompanhado por uma serviçal, a ponto de fazer cara feia quando ela não quis pegar o guarda-chuva que ele tinha deixado cair. O guarda-chuva que havia protegido apenas ele.

Ela quis pegar aquela bosta de guarda-chuva e quebrar na cabeça de palha dele. Que ele ficasse encharcado e apodrecesse, se não era capaz de perceber a dedicação dela, a amizade incondicional. Mas era importante pra ele, certo? E ele obviamente estava nervoso com isso. E, ok, ela podia agüentar um pouco mais. É pra isso que servem os amigos.

E agüentou. Até quando deu. Umas 4 horas depois, eu acho. E aí estourou em um “Da próxima vez vc vai com seus amigos tão divertidos fazer sua inscrição! Quero ver se algum deles ia te acompanhar debaixo dessa chuva!”. Não iam, ela sabia que não. Ela sabia que ninguém era tão amigo como ela. E esse foi o começo do fim...

Quando a lembrança – amarga, dolorida – resolveu voltar pra gaveta, ela percebeu. Precisava parar de andar com pessoas como o Sr. Espantalho-Centro-do-Universo e seu jeito “Só eu tenho o guarda chuva, adivinha quem vai se molhar? Quem vai se molhar é você”. Precisava das outras pessoas. Das que não se achavam o Centro do Universo. E pensam de forma diferente, meio “You can stand under my umbrella”. Era hora de mudar de música.