terça-feira, 4 de setembro de 2012
cena em quatro
Eles falam, falam, falam. Muito pra não dizer nada. cena em quatro. Não gosto. procuro os olhos. De ambos. Eles não estão aqui. Não há sorrisinhos. Não há as caras de piadinhas internas. Não há segurança, proteção. Carinho.
* escrito no primeiro dia de aula de 2009.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
A Princesa e o Menestrel
terça-feira, 20 de julho de 2010
Dream a little dream
- Eu vi o link que você colocou no twitter.
Silêncio.
Carinho.
- E os Trapalhões? Meu, aquelas piadas... Imagina se hoje eles teriam liberdade praquilo.
Estica a mão, sem virar, sem me olhar. Papéis. Pego e saio.
Sento em uma mesa de jardim. Em um lugar com muitas árvores.
Senta ao lado.
No primeiro papel, coelhos.
- Ah, foi desse que você tirou a ideia, né?
Sem resposta.
Chega um desconhecido. Uma menina esquisita de luvas. Outros desconhecidos.
Conversas. Das quais eu não participo.
Saio. Sem dar tchau.
Ligo, mas não atende.
Entro no mercado, com um pacote de leite na mão. Aberto. Meu. E pago por ele, de novo. Sei que não deveria pagar, mas não tenho controle sobre isso.
Chego no shopping. Com a caixa de leite aberta.
Encontro conhecidos.
Ela diz:
- Ah, não vou poder ver a peça hoje. Tenho um encontrinho.
Ele aparece.
- Você vai perder a peça do Maykol. Não acredito!
Eles trocam um olhar cúmplice.
- Ah, aquela hora, eu precisei sair pra vir pra cá.
Sem resposta.
Sorvete.
- Esse azul é aquele que tem gosto de algodão-doce?
- É.
Pego. Outras coisas também.
- Não tem de menta?
- Já tem o azul, tá bom de esquisito por hoje.
E me entrega o papel com o preço.
Fila pra pagar. Fico atrás dele.
- Peguei o azul.
Sem resposta.
Os desconhecidos voltam, a conversa volta.
E eu fico ali: sozinha, ignorada.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Onde o bumbum não descansa mais
Mente ao contrário: cheia. De lembranças. De bons momentos ali. Dos ruins também, mas em menor número.
As noites de meninas com as pessoas do Sub: pizza, Jogo da Vida, música, Coca-Cola na cama. Fofocar, ouvir música, virar a noite. Com a Gisa, a Preta, a Daia, a Patty.
A noite de DVDs da Madonna com a Miba e o Davi. As fotos cômicas. Os dois tentando me manter acordada. A conversa sobre séries na sacada, enquanto o Sol raiava.
As muitas visitas de pessoas do Macunaíma. Jogar o jogo do Almanaque anos 80. O dia em que conhecemos a famosa Kedma. As muitas conversas. Lilian dormindo sem nem dar boa-noite, Camis usando minha camisola do Garfield. Preparativo pra festa à fantasia. Chegar do Satyros com o Maykol e a Fabi.
O dia em que eu acordei e encontrei o Guga na sala.
A noite em que eu e o Bruno veríamos o filme do King. E, depois de todo o preparativo, dormimos em questão de minutos.
A impaciência do Lauri, sempre querendo ir pra rua.
A noite pós-balada com a Dupra.
Os muitos preparativos pré-festa ao som de Madonna.
O Dimbu dizendo 200 vezes que precisava acordar às 06h30 no dia seguinte. E a conversa não acabava. E ele acordou às 8h00.
A conversa de manhãzinha com a Nath.
As muitas deliciosas visitas da best. Muitas conversas, muitas risadas. Ela sempre querendo acordar cedo pra chegar cedo em casa. Mas sempre aqui. Quando eu precisei e quando eu não precisei.
E mais uma tonelada de lembranças de quem mais tempo passou naquele apartamento, depois de mim. As conversas de madrugada, as conversas o dia todo. As infinitas risadas. Brincar de luta, derrubar no chão. Ouvir música e brincar de adivinhar quem canta (e, não, não era o Joy Division!). Brincar de cantar música de chuva enquanto chovia. Brincar de tentar matar com o travesseiro. E mais conversas. No sofá, na cama, na sacada. Fofocas, confidências, desabafos, decepções, pequenas brigas. Grandes brigas, Brigas homéricas. Dormir vendo filme, com a TV ligada. Acordar de 3 em 3 horas pra conferir a febre e o remédio. E, empurrando as cenas vergonhosas pro cantinho da memória, só aquele som: as risadas. Só aquela sensação: os abraços e olhares cúmplices.
Por algum tempo achei que aquele era meu lar. Era, não. Lar vai ser sempre onde eu estiver. O apartamento não é mais meu, mas as lembranças sempre serão. E não é do lugar que vou sentir falta, não. É - e sempre será - das pessoas.
terça-feira, 2 de março de 2010
Sinceridade, amizade e outras "ades"
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Sonho que se sonha só é só um sonho
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Dorothy e o embrulho dourado

Dorothy olhou para o embrulho dourado. Fez aquele movimento com a boca que sempre fazia, quando estava confusa. Abriu e olhou dentro. Só duas coisas. A carta, que ela escrevera até as 3h da madrugada na véspera de um dia tão importante. A carta, tão diferente da que entregara há cerca de 1 ano. Tão mais agradável, tão mais madura, tão mais sensata. Deixou de dormir pq encontraria com ele e queria já entregar tudo. A carta e aquilo. Aquilo que ela caminhara tanto tempo, debaixo de sol forte e chuva torrencial, para conseguir. O tempo em Oz era sempre tão estranho...
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
O teatro do teu sonho
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Mar Adentro
terça-feira, 3 de novembro de 2009
faz parte do meu show
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
ela queria...
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
quando é cômodo não saber
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
como não usar o twitter
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
And it feels like... home.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
As crianças do jardim de infância
Além de ambos terem se formado comigo e serem duas das pessoas mais fantásticas que eu conheci na vida, eles têm isso em comum: brigas e longos períodos sem falar comigo. Ela, cerca de 1 ano. Ele, o triplo disso.
E, então, lá estava ele, em meio a chilli fries, falando sobre a conversa do MSN que eu mandei pra ele há pouco tempo. Tal conversa ocorreu quando nós já estávamos brigados e sem conversar. Foi naquela fase em que o ex-amigos querem reaparecer só pra machucar, pq pensam que não é justo só eles estarem sofrendo (acreditem, os dois sempre estão sofrendo muito; só que a gente só conhece a própria dor). E a conversa – inútil e imatura e mil vezes cruel – tinha lá um ponto surreal: “você é feia!”, “você é gordo!”. Oi? Fora de contexto isso certamente seria inserido em uma cena de jardim de infância, céus! E eu guardei essa conversa (guardo muita coisa no meu gmail arraso!) e mostrei pra ele recentemente. Ele riu, eu ri. Na mesa do mexicano, logo depois dele ter contado, nós três rimos muito (óbvio!).
Hoje eu estava em um dia meio deprê (por muitos motivos... enfim...). Fui conversar com o Davi no MSN.
Antes, alguns fatos sobre o Davi: ele é absurdamente divertido, toda conversa com ele garante boas risadas. Tb é um dos meus grandes amigos (e foi o mais próximo, durante um certo tempo). E nós tb brigamos e ficamos anos sem contato.
Pausa: algo muito legal que eu aprendi com o tempo foi que amizades “terminadas” normalmente voltam a existir do nada e melhores. Do nada? Não sei... Prefiro acreditar que tinha que ser assim...
Pois bem... Estou lá conversando com o Gansão (eu simplesmente gosto de chamá-lo assim) e ele solta:
- ... você lembra pq a gente brigou?
- Eu não lembro que dia é hoje. Responde?
Bom, momento de voltar ao passado, óbvio. Entre fatos cômicos e muitas divergências de interpretação dos acontecimentos, percebi que brigamos por coisas bobas. Por coisas que deixaram de ser importantes no jardim de infância. De novo.
Até então, o que eu aprendi? Que a gente briga muito por bobeira. Muito mesmo! E que a gente devia perceber isso mais cedo. Pedir desculpas mais cedo. Desculpar mais cedo. E perder menos tempo das pessoas importantes. Eu perdi anos de conversas, passeios, abraços, conselhos, carinhos e risadas dessas 3 pessoas queridas. E não é que eu me arrependa do que aconteceu... Eu sei que tudo que existiu no passado me fez ser quem eu sou hoje e, por isso, é válido. Eu só penso se “anos” não é muito tempo, se a gente não podia ter ficado só em “meses” ou “dias”, tempo mais do que suficiente pra “poeira baixar” e a gente se dar conta do valor daquelas pessoas.
Pausa: a partir de agora, minha meta é não chegar a “meses”.
Essa semana eu recebi um email. Totalmente inesperado. E confuso. Informação importante: a pessoa que enviou o email já foi uma das minhas grandes amigas e eu não falo com ela há espantosos 8 anos. E, de repente, lá estava o email. Confuso, mas bacana. Surpreendente, mas uma surpresa espantosamente boa.
Ela falava em culpa, em coisas blé do passado. E eu me peguei pensando em uma história que já era praticamente esquecida... Eu sabia que tinham coisas péssimas no passado, mas... quais? Sim, eu tive raiva. E qual foi o motivo? Não lembrava... Consegui pensar em 2 ou 3 grandes bobeiras – as tais coisas do jardim de infância. Mas, quando parei pra lembrar, a lembrança mais forte era de nós duas rindo. Rindo muito. Quando me esforcei por uma lembrança mais específica, ouvi a voz dela dizendo “Você é tão engraçada...”. Eu descobri que era engraçada aí. E, nesse momento, ela foi muito importante na minha trajetória. E nenhuma lembrança péssima.
Grande descoberta da semana: eu não sou rancorosa. Sempre achei o contrário, confesso. A best diz que minha memória é assombrosa, que eu lembro detalhes mínimos dos acontecimentos. É, eu sempre fui assim. E, por isso, achava que rancor e mágoas eram constantes na minha vida. Surprise, surprise: não são! Eu tenho facilidade em esquecer os aspectos negativos de “confrontos” do passado e reter só as boas lembranças.
E, então, em meio a tantas indas e vindas, fins e recomeços, coisas repensadas e – ainda bem! – um saldo bem positivo de tudo isso, fico tensa só em pensar se não pode ser prejudicial essa tendência a esquecer coisas ruins e manter vivinhas na memória as coisas boas. É que tem amizades que terminam por motivos diferentes dos do jardim de infância (ou não... vai saber...). É que tem horas que a gente sente uma saudade tão grande e precisa tanto lembrar de coisas ruins para doer menos. E aí, mesmo relendo emails antigos (alguns bem cruéis), mesmo pensando em tudo que machucou e machuca, mesmo já tendo os olhos ardendo de tanto chorar, mais forte que tudo, fica sempre a sensação de estar perto, lado a lado, as vozes baixas dividindo problemas (que diminuíam...), o alívio chegando, acompanhado do sorriso confortador e dos (grandes) olhos que prestavam atenção de verdade (tão raro hoje em dia, essa atenção...)... e terminando nas risadas. Sempre. Num futuro, eu quero isso; quero só as lembranças boas. Mas... agora?... Sei não... Sei que talvez as lembranças ruins (os anzóis que machucam) sejam mais protetores...
E sei que, por meta, eu não devia deixar chegar a “meses” (ainda mais qdo já chegou uma vez). Mas tem coisas que independem de mim...
sábado, 26 de setembro de 2009
Home is knowing
Scarecrow: Success, fame, and fortune, they're all illusions. All there is that is real is the friendship that two can share.Dorothy: That's beautiful! Who said that?
Scarecrow: [modestly] I did.
Tinman: And I'll miss you... every day. Even if I had to go back to that junk pile... even as teeny's seat cushion... I wouldn't mind... because I have known... real love.
[cries]
Dorothy: Aww... don't rust yourself now.
[wipes away the tears]
Dorothy: Please, is there a way for me to get back home?
Glinda the Good: Well, Dorothy, you were wise and good enough to help your friends to come here and find what was inside them all the time. That's true for you, also.
Dorothy: Home? Inside of me? I don't understand.
Glinda the Good: Home is a place we all must find, child. It's not just a place where you eat or sleep. Home is knowing. Knowing your mind, knowing your heart, knowing your courage. If we know ourselves, we're always home, anywhere.
sábado, 12 de setembro de 2009
É difícil porque é difícil
A discussão era sobre traição.
A experiência dela – pouca... mínima – não permitia que ela emitisse qualquer julgamento. Trairia? Como reagiria diante de uma traição? Não sabia e não tinha como saber. Sabia em que acreditava: que havia ocasiões e ocasiões. Ocasiões em que poderia haver perdão e ocasiões em que tortura seguida de morte seria o mais leve dos castigos. Preferiu o silêncio.
Até o momento em que ouviu a expressão “traição entre amigos”. Neste momento, foi como se mil engrenagens começassem a trabalhar a todo vapor em sua mente. A traição entre amigos é absurdamente mais ampla do que todas as outras traições. Quando se está em um relacionamento amoroso, trair é basicamente se envolver com outra pessoa. Dentro de uma amizade, trair é muito mais. Tudo que resulta em desrespeito, tudo que machuca, tudo que abala a confiança... tudo pode ser encarado como uma traição.
E essa traição ela conhecia. E bem! Já havia sido desrespeitada, machucada por tantos pretensos amigos. Já confiara em vão por vezes infinitas.
Um dos pontos mais complicados da traição entre amigos, ela sabia bem, é que há uma quase obrigação em se perdoar. A gente se torna quase santo, esquece, finge que não vê, se esforça de forma sobre-humana para preservar uma relação com amigos. Talvez por ser a amizade a forma mais pura de amor, a mais incondicional. Em família, apesar de tudo, há a convenção do sangue, embasando uma relação. Entre um casal, há o desejo, a recompensa física. Entre amigos? Não há nada. Há o amor puro e simples. Obrigando a perdoar, a aceitar, a esquecer. A conviver com o que quase não dá para se conviver.
(E, enquanto pensava tudo isso, ela nem sabia que, mais uma vez, estava sendo traída.)
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Parada e transição
Começou com o banho de sol. Queimando, aquecendo, energizando.
Aí foi o choro. Até a última gota, pra acabar e não voltar.
Filmes.
Banho de chuva. Limpando, levando, refrescando.
Família, fundamental.
Cabelo. Mudando, encurtando, colorindo...
Lisístrata. Turma nova, primeira montagem. E como isso foi importante... Ter, de novo, aquela energia da primeirona, aquela empolgação. E, ao mesmo tempo, perceber o quanto as coisas mudam em tão pouco tempo, entre a primeira e a quarta. Dimensão exata da evolução. Incrível!
Almoço e passeio pelo shopping.
Chicago. Bacana, lição de produção.
Conversa extremamente importante pelo MSN (e, talvez, a pessoa nunca saiba o qto foi importante naquele momento).
Ensaio. Com as pessoas incríveis.
Aula. Com as pessoas incríveis.
A decepção de ter pouco do texto de Woody Allen cede lugar à possibilidade – rara, se não for única – de encenar meu próprio texto. Qtas pessoas farão Woody Allen esse semestre? Só na minha turma, 15. E qtas farão seu próprio texto? Eu...
Sorvete, nhami.
Relaxamento na aula mais chata, pra ficar tudo perfeito.
Pefffinha excelente do ex-diretor querido, que agora tem cabelos loucos.
A balada não rolou, mas o karaokê, sim. E foi muito melhor. Lá estavam, de novo, pessoas incríveis. E a gente riu, riu, riu, riu... Noite fabulosa!
Total eclipse of the heart se torna minha música oficial de karaokê. Fato.
Turn around...
E KLB no karaokê é... vida! Devolva minhas fantasias... devolva meu ar.
Feriado no Ibirapuera, o parque da infância.
Ler Lisístrata na sombra de uma árvore, sentindo o ventinho...
Comer cachorro-quente na floresta encantada dos emos...
Passear no fim do dia...
Pra encerrar, conversa pra acertar. Pra consertar, pra retomar. E pra que eu descobrisse que o que importa, não muda. Mesmo.
De bônus, mexicano com os melhores mackenzistas ever, numa terça chuvosa.
É...
Feriado da independência.
Realmente.
terça-feira, 10 de março de 2009
a big bowl of fish hooks

Por isso, ela costuma ficar bem guardadinha, num cantinho do armário.
Anzóis, pra começar, têm aquela ponta curvadinha. O que acontece? Eles grudam uns nos outros. É terrível! Você quer pegar um e começam a sair vários outros juntos. Vários outros que você, por sinal, não queria nem lembrar que existiam. E não tem como você meter a mão na caixa e puxar exatamente o que você precisa ou o que você pode usar agora. Você nunca sabe qual vai pegar. Ou, muito pior, quais.
Outra coisa assustadora sobre caixas de anzóis é que a probabilidade de você se machucar quando mexe neles é enorme. Aquelas malditas pontas afiadas arranham e cortam.
E aí você vai se arriscar a se machucar e ainda puxar os anzóis que não quer? Não mesmo! Você deixa a caixa guardada. Quieta.
O problema é que sempre tem um imbecil que – por maldade ou sem querer – derruba sua caixa de anzóis no chão. E, de repente, estão todos ali. Aquela infinidade de anzóis que você nem queria lembrar que existiam.Todos ali, prontinhos pra te machucar...
My feelings for you, Hank, are like a big bowl of - [sighs] - fish hooks. I can't just pick up one up at a time. I pick one up and they all come, so I just had to leave 'em alone.
(Lee / Meryl Streep, em Marvin's Room)
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
You can stand under my umbrella

E aí eles foram almoçar juntos. Bom pra conversar. Quando ela chegou na porta, chuva. O mundo desabando e eles precisavam chegar em algum lugar que tivesse comida. Ela tinha um guarda-chuva, mas este também estava num estado lastimável. Quebrado, furado, rasgado. Não protegeria muito, ainda mais duas pessoas. Ele conseguiu um emprestado. Melhor, maior, protetor. E aí, ele trocou com o dela. De novo. Ao mesmo tempo que uma parte dela sorria internamente, pensando “Oh, meu deus, eu tenho um novo amigo ótimo”, ela pensava “O traseiro! O traseiro!” e segurava a gaveta com o traseiro, gaveta da tal lembrança que insistia em sair.
Na volta, ela quebrou o guarda-chuva. O emprestado, que não era dela. Ele disse que ia fingir que ele tinha quebrado, mas acabou conseguindo arrumar. Ela, num momento a-felicidade-não-se-compra, pensando que no man is a failure who has friends, se distraiu. Deixou a lembrança sair por uma frestinha da gaveta. E inundá-la.
Era uma sexta. Pela janela da sua sala no trabalho, ela via o mundo desabando. Chuva, chuva, chuva. Pensou na combinação chuva/ sexta. Era algo entre trevas e o fim do mundo. Pensou o quanto seria bom chegar em casa, comer pizza... Mais tarde, cinema. 3 filmes, madrugada cinematográfica, com um Gondry e um Woody. Enquanto pensava, o celular tocou. Era ele. Outro ele. O que costumava ser o melhor deles. Há semanas ela perguntava sobre a tal inscrição. E, não, ele não tinha feito. E agora, aos 47 minutos do segundo tempo, ele queria ir lá fazer... ela não queria ir com ele? Olhou pela janela. Chuva. Tempestade. Não, ela não queria. Ela queria ir pra casa, comer pizza, ficar seca. Mas ele era um espantalho, não é? Feito de palha, sem cérebro. Ela não podia deixá-lo sozinho. Ela sabia o quanto essa inscrição era importante pra ele, aliás. Ela não o deixaria sozinho, no man is a failure who has friends e ela seria o Clarence dele. “Ok, eu vou”. Marcaram de se encontrar no meio do caminho.
No meio do meio do caminho, o guarda-chuva dela – como todos os outros dela: quebrado, rasgado, lastimável – finou-se. Não tinha mais como usar. E ela continuou andando o resto do caminho na chuva. Gelada. Encharcando. E o mais estranho, era que ela não estava brava e/ou irritada por isso. Lembrou de um livro que leu nos seus 12 anos, que citava outro livro, do Veríssimo pai. Falavam de uma personagem X, e que coisas boas aconteciam para ela quando chovia. Ela não era a personagem X. E nem percebeu isso...
Quando ele chegou, disse “oi!”. Ele tinha um guarda-chuva. Funcionando. Estava seco. E disse “oi!”. De longe. Ela pensou “Ele não quer se molhar... Eu me molhei inteira e ele é incapaz de me abraçar ou até de chegar perto, pq ele não quer se molhar”. Era difícil de acreditar. Ela estava molhada. Até na alma. Se alguém perguntasse a ele pq ela estava molhada, ele poderia citar uma série de motivos, como a chuva ou o fato dela nunca ter um guarda-chuva decente. Nem passou pela cabeça de palha dele o verdadeiro motivo: por causa dele. Ela estava molhada por causa dele. Ela estava molhada pq ele precisava dela.
Ela escondeu a decepção. Era um momento importante pra ele. E, se era importante pra ele, deveria ser pra ela. É pra isso que existem os amigos. Conversaram no ônibus. E ela por um instante esqueceu o quanto ele não estava exatamente sendo um bom amigo.
E aí eles chegaram. E ele desceu. E abriu o guarda-chuva. E andou. Ela, parada, na chuva. Desacreditando. Era isso? Ele não se importava mesmo que ela pegasse chuva, DE NOVO? Pra fazer uma porcaria de inscrição que nem era dela? Pq era importante pra ele e só pra ele, o Sr. Espantalho-Centro-do-Universo?
Era importante. Ela se controlou. “Ow, me dá uma ponta do guarda-chuva?”. Ele não se mexeu. Ela tentou se enfiar debaixo do guarda-chuva, sem sucesso. Chegou ao prédio ainda mais molhada.
E aí ele foi estúpido. Uma, duas, três vezes. Agiu como se ela nem estivesse ali. Ou como se estivesse acompanhado por uma serviçal, a ponto de fazer cara feia quando ela não quis pegar o guarda-chuva que ele tinha deixado cair. O guarda-chuva que havia protegido apenas ele.
Ela quis pegar aquela bosta de guarda-chuva e quebrar na cabeça de palha dele. Que ele ficasse encharcado e apodrecesse, se não era capaz de perceber a dedicação dela, a amizade incondicional. Mas era importante pra ele, certo? E ele obviamente estava nervoso com isso. E, ok, ela podia agüentar um pouco mais. É pra isso que servem os amigos.
E agüentou. Até quando deu. Umas 4 horas depois, eu acho. E aí estourou em um “Da próxima vez vc vai com seus amigos tão divertidos fazer sua inscrição! Quero ver se algum deles ia te acompanhar debaixo dessa chuva!”. Não iam, ela sabia que não. Ela sabia que ninguém era tão amigo como ela. E esse foi o começo do fim...
Quando a lembrança – amarga, dolorida – resolveu voltar pra gaveta, ela percebeu. Precisava parar de andar com pessoas como o Sr. Espantalho-Centro-do-Universo e seu jeito “Só eu tenho o guarda chuva, adivinha quem vai se molhar? Quem vai se molhar é você”. Precisava das outras pessoas. Das que não se achavam o Centro do Universo. E pensam de forma diferente, meio “You can stand under my umbrella”. Era hora de mudar de música.