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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Heart

E, então, ele enferrujou.

Tinham caminhado bem, até então. Bastante. Estavam chegando perto da Cidade de Esmeraldas, ao fim daquela jornada.

Só que ele era de lata e latas enferrujam, é uma coisa que pode acontecer.

De repente, lá estava ele. Parado. Travado. Estático. Sem fazer um único movimento.

E Dorothy pensou que poderia ela, sozinha, correr até o Mágico, pedir o coração para ele e voltar. Ela já nem queria mais voltar para o Kansas. Era uma questão de prioridades. E ela queria que ele tivesse um coração. Só isso.
Pensou em correr, em botar a ideia em prática. Mas Dorothy estava cansada demais para isso. Dorothy não tinha forças para correr por essa causa, uma causa perdida.

Então, pensou em somente desejar, com fervor, como em uma prece. Uma prece direcionada ao onipotente Mágico de Oz. Uma oração. Uma oração para lhe dar um coração...

Só que ela estava, mais uma vez, cansada demais. Decepcionada demais. Machucada demais. E ela não queria se empenhar tanto em lhe dar um coração - só pq é tão bom ter um... - se ela corria o risco dele, depois, tendo um coração, entregá-lo a outra pessoa.

Então, Dorothy sentou-se na beirada da estrada de tijolos amarelos, abraçou os joelhos, direcionou seu pensamento ao grande mágico e orou. Com fervor, fez seu pedido: que tivesse coragem de abandonar aquele monte de lata estático ali e seguir a jornada, sozinha.


(update: Dorothy está feliz e saltitante em sua estrada.)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Carta para Joel Barish


Então, é isso. Cá estou eu te escrevendo de novo, Joel.

Quero te contar que vou todos os dias até a Lacuna. Todo santo dia. Nos dias de sol escaldante, nos de frio intenso e nos de chuvas avassaladoras. Até nos dias em que neva. Mas, você bem sabe, eu prefiro os dias de sol com chuva, só pra ver o arco-íris. O meu arco-íris.

Vou todos os dias, na verdade, até a porta da Lacuna. Nunca entro. Não consigo criar a coragem necessária pra cruzar aquela porta. Quem diria?! Clementine Kruczynski sem coragem! É que também não ando usando muito o cérebro. Ultimamente - e sempre - sou toda coração; tão diferente de você.

Pq eu quero entrar? Pq uma vez eu te disse que aquela música nunca mais seria a minha, mas você fez com que voltasse a ser. Você, que é tão... especial. You´re so very special. I wish I was special. But I´m a creep, I´m a weirdo... Você era o estranho, mas fui eu que me tornei a esquisita parada à frente daquela porta, despertando a curiosidade dos funcionários. E dos passantes.

Eu queria. Eu queria realmente entrar, Joely. Queria com todas as minhas forças. Pq eu estou sendo uma grande trouxa nessa história. Pq cada palavra sua, cada sorriso, cada coisinha que vem de você alimenta essa esperança dentro de mim; essa esperança de que as coisas aconteçam, de que você me dê uma chance de provar que elas podem acontecer, que a gente pode fazer elas acontecerem. Afinal, Joel, pq não? Ok, eu também enxergo as diferenças. Mas você não enxerga o resto? Eu enxergo. Eu vejo as coisas em comum, e o quanto a gente se dá bem. E as coisas que só a gente entende, as piadas internas. E o quanto você me faz rir (e eu desconfio que eu faça o mesmo com você). Eu enxergo. E é, também, por ver tudo isso (que pra você pode ser pouco mas, pra mim, é tudo), que eu não extermino a esperança. E ela era pequenininha. Mas, sendo alimentada, ela cresce. E eu tenho medo - pavor! - de que ela se torne um monstro.

Com tudo isso me fazendo querer entrar, você deve se perguntar pq eu não entro. Sempre tão cinza, até em suas dúvidas. Eu não entro pq a gente envelhece, Joel. Essa é uma das coisas que não dá pra evitar. E eu também estou envelhecendo. Mas, com você na minha vida, eu sou Coré, eterna adolescente. Vc faz com que eu me sinta com 15 anos de novo: boba, patética, medrosa. Eu, que pareço tão segura, fico tão apavorada. A ponto de tremer. De gaguejar. De fingir que não te vejo. De fugir de você de medo que você perceba no que me transformou: uma menininha de 15 anos, vivendo uma eterna primavera.

Você é minha primavera fora de época, Joel. E é isso que me impede de abrir a porta. E é não abrir a porta que vai transformar minha vida num inverno. Ou num inferno. A não ser, é claro, que eu não precise abrir a porta. Que... bom, você sabe. Que venha o verão, e não o frio.

Já é madrugada e a música no repeat diz exatamente o que eu queria te dizer... But in your dreams - whatever they be - dream a little dream of me.

Clem

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

mexeu comigo. só.

não é diretamente proporcional a quanto se sente.
é diretamente proporcional a quanto se acredita.
a dor, eu digo.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

if i only had a heart...

Ela escrevia. Muito. E sempre. Era uma das coisas que mais gostava de fazer. E, se tinha algo que ela sabia que fazia bem, era escrever. Praticamente uma escritora, aquela menina Dorothy.

Ele era real. De verdade. Quase de carne e osso. Mas queria ser um personagem. Talvez não desde sempre, mas, desde que ele e a menina Dorothy se conheceram, ele lhe pedia para que ela o transformasse em um personagem de uma de suas histórias.

Seria tão fácil pra ela fazer isso... Essa capacidade de transformar em literatura tudo que lhe acontecia, até os acontecimentos mais banais. Mas, como todo escritor, Dorothy também tinha momentos de dificuldades com as palavras. Para certas coisas, elas fugiam. Eram substituídas por um enorme vazio em sua mente e uma angústia na alma, a dor de não conseguir descrever com palavras o que realmente importava. Ela havia lido em um livro que as palavras diminuem as coisas que realmente importam. E ela não queria diminuir. Não queria reduzi-lo a um personagem, ele que era tão humanamente cheio de detalhes. E tinha medo de diminuir também outra coisa: o que sentia. E medo, ainda, de se entregar. De que as palavras a traíssem e deixassem claro, evidente, óbvio, o que ela escondia, guardava, tentava negar. Aquela coisa que surgira em seu peito sem sua permissão, aquela coisa que fugia ao seu controle, que queria se exibir, e que crescia...

Quando ainda morava no Kansas, ela tentara uma vez transformar alguém muito especial em personagem. Para isso, ela também se transformara. Criara todo um universo, um longo enredo, muitos personagens... Uma longa história para, no último parágrafo, fazer com que sua personagem fizesse o que ela não tinha coragem de fazer: declarar aos quatro ventos o que pulsava em seu coração. Só que, antes de concluir a história, a vida real se encarregara de frustrar seus planos. E tudo desapareceu. O personagem e a pessoa.

Depois, em Oz, ela repetira o erro. Errara, inicialmente, em se apaixonar por um espantalho, sem cérebro. E, então, escrevera tantas vezes sobre ele, esperando que ele percebesse, que tudo desse certo, como num livro de final feliz. Não era um livro, era a vida: ele não percebeu, ela precisou ser mais direta e, mesmo assim, não deu certo. Nada de final feliz.

E, agora, aquela angústia. Aquela dúvida. De um lado, a vontade de satisfazer a vontade dele. De outro, o medo de errar de novo. De a vida real ser, de novo, algo que dói e não a coisa boa que ela acreditava que sempre deveria ser. Ela não queria eternizá-lo como personagem, queria a pessoa real, como era, e agora.

O medo. O medo, o medo, o medo... Qualquer homem de lata transforma Dorothy no leão sem coragem.

E, então, ela soube o que precisava fazer. Calçou os sapatos de rubi tamanho 34 e correu pela estrada de tijolos amarelos, até chegar à Cidade de Esmeraldas. Bateu no enorme portal e pediu pra falar com o Mágico.

Quando ele chegou, ela, impulsiva, falou tudo de uma vez, sem parar, com a urgência de quem tem medo de voltar atrás e desistir: "Lembra quando viemos aqui e você disse que o Leão sempre teve coragem, o Espantalho sempre teve cérebro, o Homem de Lata sempre teve coração e eu sempre tive comigo aquilo que me faria voltar ao Kansas? Lembra quando você nos fez ver que sempre temos conosco o que buscamos, que sempre vamos encontrar o que precisamos dentro de nós? Lembra quando você me fez ver que eu mesma sempre conseguiria resolver meus problemas? Pois bem, preciso que você me faça perceber que tenho, dentro de mim, a coragem que estou buscando."

Ele sorriu. Ela era sempre assim. Era a menina tornado, Dorothy Gale. Sempre chegando como um tornado, sempre transbordando tudo. Carregando o tornado no cérebro, no coração e na alma. Ele gostava dela. Aprendera a gostar daquela coisa Clementine Kruczinsky nela. E disse: "Você tem não só a coragem para fazer, como também toda a sabedoria necessária para lidar com seja lá o que venha depois e, principalmente, o coração forte e puro para continuar pulsando e te fazendo ser a menina encantadoramente impulsiva que você é, não importa o que aconteça", e beijou-lhe a testa, finalizando "Então, faça."

Ela sorriu. E, então, fez...

Wizard of Oz: As for you, my galvanized friend, you want a heart. You don't know how lucky you are not to have one. Hearts will never be practical until they can be made unbreakable.
Tin Woodsman: But I still want one.

sábado, 11 de setembro de 2010

mexeu com você...

- pior que ela consegue deixar os barracos com classe.
- eu amo qdo ela diz "mexeu com vc, mexeu comigo". me identifico.
- ela fala isso com uma verdade né?
- fé cênica, meu caro. stanislaviski é pouco perto de márcia goldsmith.

- ah, tá, desculpa. eu ainda sou iniciante nesse mundo, de "como destruir emocionalmente alguém".
- ah, vc tem treinado muito comigo, já era pra ter melhorado.
- eh! me desculpe, prometo q da proxima vou fazer a pessoa se sentir tão mal q ela vai tentar ao menos um suicídio.

- pq afinal mexeu com ela, mexeu com vc.
- EXATO! não desperte meu lado goldsmith. vc vai se arrepender.
- essa eh nova pra mim. "lado goldsmith" soa quase como "darkside" do star wars.

- seu coração eh dividido em 2. ódio e amor eterno.
- é q eu sou de extremos.
- depois eu sou o estranho.
- vc é estranho.
- eu estou numa nova classificação.
- mas eu já disse, alguma vez, q não tinha ódio por vc? só pra saber...

- ah, e vc faz planilhas pra tabelar atos bons e ruins e decidir com quem vc deve ou não falar, essas coisas?
- ahahah sim faço isso mesmo, planilhas em excel. dai qd a pessoa atinge um numero X de pontos negativos, ela é movida automaticamente para a planilha negra, que é como se fosse um limbo, ida sem volta...
- nossa, eu devo ter entrado nessa planilha negra há séculos.
- ainda não. mas com um pouco de esforço vc chega lá.
- bom... então tô bem perto de entrar nessa planilha aí.
- sim, sim.
- vou pro lado negro da planilha. uh! tenso. rs
- pior do q ir pro lado negro é qd vc deixa de existir na minha planilha.
- com isso vc quis dizer q eu vou deixar de existir e não ir pro lado negro?
- não, não. vc tá quase entrando no lado negro. depoiiiiiissss, vc pode deixar de existir.
- pq eu super curti essa coisa de ir pro lado negro e tal.... eu super adoraria ser o darth vader. hahahha
- darth vader... pra chegar no nível dele tem q ralar muito.
- nossa, vc não me conhece. darh vader aprendeu comigo. eu q falei "corta a mão do seu filho, meu bem. é tendência pra próxima estação."
- e isso vc aprendeu com a márcia.