
O que eu realmente gosto do meu trabalho é a M. Ela divide a sala comigo. E é uma pessoa incrível, cheia de observações fantásticas. Ela me faz pensar muito e me faz entender coisas em mim. E isso que ela não sabe quase nada de mim. É que eu sou assim. Pouco falo de mim, da minha vida, das minhas crises, das minhas inquietações. Falo, para poucos, para os escolhidos a dedo. Eu tenho uma dificuldade enorme em confiar nas pessoas. E, até quando eu confio, é difícil eu me abrir. Eu confio na M., mas não falo nada pra ela, mesmo assim.
Ela não sabe nada do meu passado, sabe muito pouco do meu presente. Mas aposto que sabe mais do meu futuro do que eu. Ela intui, simplesmente. A M. é assim. E ela faz observações sobre mim, que me deixam chocadérrima.
Eu ando tendo sonhos que acabam comigo. Eu tenho certeza que eles querem me dizer coisas, mas eu nunca entendo e fico numa angústia tremenda. Um dia desses, eu acordei chorando de um deles. Aí a M. chegou e disse "Tá tudo bem?". Não tava, mas eu me faço de durona e disse "Tá.". Mas ela é esperta e disse "Tem certeza?". E eu - teimosia taurina sempre - insisti "Tenho". Aí ela disse que eu estava com uma postura de quem estava em uma profunda crise existencial. E eu não aguentei e contei o sonho. Ela não me conhece, não sabe quem são as pessoas do sonho. Mas fez uma interpretação que simplesmente fazia sentido.
Ontem a M. me disse que eu tenho um espiritozinho curioso, de alguém que gosta de aprender coisas novas sempre. E eu fiquei pensando "Como ela sabe?".
Às vezes eu acho que a força que controla o Universo mandou a M. pra minha vida pra me ajudar... Tipo um Clarence...




