terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Letra e Música



Ela escrevia. Músicas. Algo que ela nem sabia como havia aprendido a fazer. Sabia, apenas. Sabia escrever músicas. Variadas. Boas. Bonitas.

Ela escrevia músicas pra ele. Pra ele cantar. Sua voz preferida. A voz que ela mais gostava de ouvir. Não que ele pedisse pra ela escrever. Não... Era a voz dele que a inspirava. Cada vez que ela o ouvia cantar - músicas que ela não havia composto - mais tinha vontade (necessidade?) de escrever. Pra ele.

Ele era bom... O melhor, provavelmente. Como segurar a ânsia de vê-lo cantando o que ela escrevia? De vê-lo dar vida às suas palavras?

"Palavras são poderosas", ela sempre dizia.

Ela também cantava. Não tão bem quanto ele, claro. Ele tinha algo de mágico. De predestinação. Ela era uma soma de esforço, dedicação e estudo. E vontade. Ele era bom. Ela fazia de tudo pra ser boa (e dizem, até, que ela já havia conseguido, que ela já era muito boa... mas ela ainda duvidava... e isso talvez fosse porque ele não a achava boa...) (e era muito importante, pra ela, que ele a achasse).

Ela tinha um sonho. Um dueto - cantar junto com ele. Um sonho vindo do passado, quando - imaturidade ou sabedoria? - eles planejavam cantar juntos. Um futuro em que levariam a vida cantando, sempre juntos.

"O futuro não existe", ela dizia. "Quando ele existe, ele já é presente".

E o futuro não existiu. Ela continuava escrevendo músicas para ele. (Que ele não cantava) Ela continuava sonhando com o dueto. (Que não aconteceria) Ela continuava se angustiando, enquanto o via desperdiçar o talento mágico em músicas ruins, de péssimos autores. (Que nem sabiam escrever... como ousavam realizar tarefa tão sublime sem o saber?)

Sem a voz dele, o que ela escrevia não ganhava vida. (E ela conseguia deixar outra voz cantar?) Sem o que ela escrevia, tudo o que ele cantava era pouco, era menos, era menor, era sem vida.

(Mas ele parecia não perceber. Ou não se importar. Ou manter e alimentar uma esperança cega de que as melhores músicas ainda estavam por vir. E que não viriam dela. Apostava em todo mundo.... menos nela...)

Juntos, eles podiam ser tanto... Era tanta coisa boa em cada um que, juntando tudo, sairía algo gigante. Um oceano de possibilidades. Um vislumbre de realizações, concretizações. Felicidade. E sucesso...

Complementares. Indestrutíveis.

Letra e música...

(Um dia, quem sabe, seriam uma linda canção...)
(Ela continuaria esperando por isso...)
(... e se o futuro existir?)

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