domingo, 6 de janeiro de 2013

carta aberta a um principezinho




pequeno príncipe, meu príncipe...

eu pensei em te escrever para pedir desculpas. por tanta coisa. mas aí percebi que eu não tenho que te pedir desculpas. não por não ter errado; eu erro. muito. mas é que meus erros são da minha natureza. eu sou assim. eu sou uma flor. eu não posso te pedir desculpas por ser uma flor, posso? não é exatamente algo que eu escolhi...

o que eu sei é que eu nasci flor. ainda semente, escolhi o solo do teu planeta pra germinar. podia ter escolhido qualquer um de tantos planetas no universo, mas escolhi o seu. sem nem saber que você existia. destino, talvez? e, então, eu virei flor. desabrochei em verde e vermelho, em pétalas e folhas. e te vi. um menino. eu sei que considerando a lógica de ser o seu planeta e de eu estar presa ao solo e ser menor que você, eu deveria ter em mente que eu era sua flor. mas, não! nasci flor, nasci arrogante. eu estava no seu planeta. mas você era o meu menino.

tempos depois, descobri que era um príncipe. pequeno, mas um príncipe. na minha mente, se você era um príncipe, eu era, no mínimo, rainha. e, claro, você não era um príncipe: era o meu príncipe. flores são assim. possessivas. é da minha natureza. 

uma coisa eu aposto que você percebeu. que eu faço toda essa pose de rainha, mas sou frágil. preciso ser cuidada. preciso de atenção, de cuidados, de afeto. preciso que você coloque a redoma sobre mim, mas não por muito tempo, pois eu também preciso de ar. preciso que você me regue. com água e com palavras. preciso que você esteja perto, pra que eu não esteja sozinha. você caminha pelo planeta, eu não. eu fico aqui, plantada. e, se você dá dois passos e já sai da minha linha de visão, eu sinto a sua falta. você me cativou, menino príncipe. e agora é responsável por mim. e teremos necessidade um do outro.

e, então, suas viagens. você decidindo deixar o b612. o seu planeta, o planeta onde eu vivo. tenho que me desculpar pela dificuldade que tenho em lidar com isso? com as suas voltas interplanetárias? não tem ninguém aqui pra me fazer companhia. nem um carneiro. e eu deveria agradecer por isso, mas um carneiro - ainda que me devorasse - seria uma companhia. e eu só tenho, aqui, tempo. muito tempo. pra imaginar coisas. pra imaginar quantas pessoas diferentes você está conhecendo na sua jornada. imaginar - supremo ultraje! - quantas flores você está conhecendo. imaginar que você tenha com elas o mesmo cuidado que tinha comigo. imaginar que elas estão tendo o cuidado que eu não estou tendo, aqui, plantada, analisando poeira cósmica. imaginar que é com essas outras flores que você conversa agora, enquanto eu fico aqui. escrevendo mentalmente cartas. (eu não tenho nem mãos pra escrever uma carta de verdade! é muita humilhação, hmpf!) imaginando que você vai gostar mais delas do que de mim. e, então, me esquecer. e, então, me abandonar de vez aqui e ficar aí, com suas amigas flores. que não gostam de você tanto quanto eu gosto, eu tenho certeza. hmpf. 

ciúme, príncipe. isso, junto com arrogância, fragilidade e possessividade fazem parte da existência de uma flor. eu sei que eu deveria me livrar de tudo isso, mas não é possível. condenada a ser flor. pra sempre. condenada a sofrer como uma flor. pra sempre... ou, ao menos, até você voltar. com você, o b612 é pura e eterna alegria. ao menos pra mim. o que já corresponde a 50% da população e, se você considerar que a outra metade é você...

talvez eu só precise ter a certeza de que sou, pra você, única no mundo, assim como você é, pra mim, único no mundo. talvez a gente precise mesmo é mudar pra um planeta maior e mais povoado. e nem pense em plantar outra flor! isso não resolveria o problema. e me transformaria numa assassina também. quer dizer... eu não tenho mãos, como eu...? hmpf. 

fico por aqui. (como se eu tivesse outra escolha... hmpf!)

sempre sua... sua rosa (a única!... do b612, ao menos.)

Um comentário:

Blower's Daughter disse...

Adorei essa carta mental da rosa! ;)
Adoro ler seus textos!
Saudades!
Bjokas!^^